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IA: para aprender emoções, algoritmos terão aulas de teatro

Companhia ligada à OpenAI quer treinar IA com performances de atores de improviso, a fim de ensinar emoções a algoritmos

11 semanas atrás

A explosão da Inteligência Artificial (IA) gerou uma busca por especialização, que exige a coleta de imensas quantidades de dados para treinar modelos nas mais diversas frentes. Algoritmos tendem a ser bons em algumas coisas e péssimos em outras, e um campo que todos reconhecem que LLMs (grandes modelos de linguagem) são particularmente ruins é na reprodução de emoções humanas.

Por isso, nem surpreende o fato de que uma startup voltada a fornecer dados de treinamento especializados e muito específicos esteja oferecendo vagas de emprego para atores de improviso dispostos a receber US$ 74 por hora (~R$ 394, cotação de 16/03/2026), para ter suas performances coletadas e usadas no treinamento de modelos de IA.

Calculon, o robô-ator de Futurama, em cena de monólogo sentado em uma poltrona, vestindo terno e segurando um copo de whisky on the rocks na mão direita (Crédito: Reprodução/The Curiosity Company/20th Television Animation/Disney) / IA

Companhias de IA podem acabar criando o Calculon (Crédito: Reprodução/The Curiosity Company/20th Television Animation/Disney)

IA: "2-bit or not 2-bit?"

A oferta foi oferecida pela Handshake, uma agência de empregos criada em 2014 para conectar empresas e universitários do setor de tecnologia, que recentemente lançou uma iniciativa voltada à IA para treinar profissionais E modelos de dados. De um lado, graduandos e profissionais mais ranqueados (mestres, doutores e pós-docs) ganham experiência em uma área que não dominam; já a empresa recebe inputs para melhorar sua base de dados.

A Handshake, que possui laços com a (finja surpresa) OpenAI, é mais uma de várias companhias do setor se virando para se destacar no meio de fornecedores de modelos de treinamento, com bases especializadas e fora do comum, para atender deficiências específicas dos LLMs. Todos os cargos são remunerados e pagos pela própria Handshake; não há intermediários e ninguém fornece inputs e experiência de graça. Mercor e Scale AI são outras empresas da área, contratando profissionais de todos os tipos para treinar IAs de modo a fechar suas lacunas.

O que nos traz a uma de suas maiores deficiências, sua incapacidade de expressar emoções humanas de forma natural.É fato que modelos como ChatGPT, Cloud, Grok e cia. são tão emotivos quanto uma porta; simular humanidade mediante ordens dos usuários é uma coisa, demonstrá-la de verdade é outra completamente diferente.

Nisso, a vaga de emprego da Handshake é bem clara: estão procurando atores, comediantes e outros tipos de profissionais da Sétima Arte para que eles gravem performances sem script, para "explorar personagens, improvisar cenas, e responder de forma natural ao momento", em sessões em que vários "colaboradores" serão reunidos em situações via conferência de vídeo.

Após essa oportuna pausa dramática, continuemos.

A descrição da vaga explica que os atores terão suas atuações coletadas e usadas para o treinamento de IAs em nuances de expressão emocional, ensinando-as a reconhecer e replicar o tom natural da fala, flutuações de humor e expressões genuínas de emoções, ou o mais próximo possível disso que uma máquina for capaz de chegar. A Handshake diz que os contratados serão levados a "testar os limites de entendimento de mundo dos LLMs".

Os candidatos terão que demonstrar domínio sobre "a habilidade de reconhecer, expressar, e flutuar entre emoções de um modo autêntico", criando "interações humanas, críveis e divertidas". Em resumo, os atores que a startup conseguir reunir vão atuar como uma trupe de professores de Teatro e Interpretação, em que os alunos não são aspirantes a atores ou pessoas buscando melhorar problemas de dicção ou timidez, ao invés disso, serão todos algoritmos.

O esforço é justificado por movimentos das grandes companhias em incorporar interações por chat de voz com seus modelos: a xAI oferece conversas de áudio com o Grok, a OpenAI vem refinando seu modelo desde 2024, e o Claude da enrolada Anthropic já possui uma ferramenta em fase beta.

Enquanto usuários internet afora fizeram piadas com a IA roubando empregos de comediantes de stand-up, outros chamaram a proposta da Handshake de "distópica" e apontaram a possibilidade futura de IAs que falam de forma mais natural substituírem dubladores em filmes, séries, games, animações, etc., discussão essa que levou à greve do SAG-AFTRA de profissionais que trabalham na indústria de games, após desenvolvedoras insistirem em coletar performances passadas para alimentar algoritmos, algo de que alguns estúdios ainda não desistiram.

Procurada, a Handshake se recusou a comentar o assunto.

Fonte: The Verge

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