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Android cada vez mais blindado, e parecido com o iPhone

Google dificulta novamente o sideloading em dispositivos Android, e Samsung bloqueia bootloader de gadgets com a interface One UI 8

40 semanas atrás

Foi-se o tempo em que Android era sinônimo de gadgets para nerds e fuçadores, dada a suposta liberdade do sistema ao permitir a instalação de apps alternativos, realizar o desbloqueio (root) para habilitar mais funções, e/ou trocar a imagem oficial por outras alternativas.

Nos últimos anos, o Google tem sido especialmente anti-sideloading, e implementou várias mudanças para dificultar a prática, enquanto fabricantes aqui e ali se moviam para combater as ROMs alternativas, por questões comerciais.

Enquanto o Google dificulta o sideloading no Android, fabricantes bloqueiam ROMs alternativas (Crédito: Noah Rubin/X)

Enquanto o Google dificulta o sideloading no Android, fabricantes bloqueiam ROMs alternativas (Crédito: Noah Rubin/X)

Com a Samsung promovendo o bloqueio de seus aparelhos a partir da última versão de sua interface própria, e o Google outra vez subindo o tom contra o sideloading, o robozinho verde vem se tornando cada vez mais parecido com o iPhone.

Google vs. sideloading, de novo

O Google nunca gostou que o sideloading fosse um recurso acessível ao usuário final, isso é fato. A ferramenta deveria ter sido restrita apenas a desenvolvedores, mas por ser implementada como uma função padrão do Android, não poderia fechá-lo nem se quisesse; o movimento para dificultar seu uso já lhe causou dores de cabeça na União Europeia, vale lembrar.

Um dos primeiros atos do Google contra o ato de instalar apps manualmente no Android se deu quando a companhia se estranhou com a Epic Games em 2018, ao divulgar aos quatro ventos, e antes do prazo padrão de 90 dias, que o instalador manual de Fortnite tinha um bug grave, para se valer do FUD (Medo, Incerteza, e Dúvida) contra o sideloading, que colocaria o Android em risco.

No mesmo ano, a gigante apresentou um novo formato de app chamado AAB (Android App Bundle), para lidar com um crescente problema do APK: ele reúne os binários para todas as versões de dispositivos compatíveis, o que inclui inúmeros formatos e resoluções de tela, SoCs diferentes, quantidades distintas de memória RAM, etc. Como consequência, os arquivos do formato legado costumam ser pesados.

O AAB, sendo um contêiner dinâmico, baixa só os binários necessários para o seu gadget, ignorando os demais. Em 2021 ele se tornou o formato padrão para a submissão de novos apps e games, mas por ser proprietário, não pode ser usado por devs fora da Play Store. O Google ainda permitiu a extração de binários da loja para a criação dos APKs "gordos", mas em 2024, passou a oferecer apenas a conversão de um AAB para um APK "magro" equivalente por dispositivo; o sideloading, por sua vez, suporta apenas APKs "gordos".

Agora o Google aumentou as restrições, ao introduzir uma nova camada de segurança: a partir de setembro de 2026, todos os desenvolvedores deverão ser verificados junto à companhia, não importa se seu app será distribuído pela Play Store, por lojas de terceiros, ou diretamente para sideloading; apps ou games sem registro terão a instalação barrada em dispositivos certificados (com Google Play Protect), mesmo manualmente.

O Google se justifica, dizendo que a medida visa acabar com o anonimato no desenvolvimento de apps do Android, tornando os desenvolvedores responsáveis por aquilo que distribuem; se por acaso a aplicação for desenvolvida com propósitos escusos (leia-se atochada de malware), e a infração detectada, os devs responderão à Lei.

Google Play Store no Android (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Google Play Store no Android (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Ainda que a iniciativa vise aumentar a segurança do Android, que convenhamos, nunca foi lá essas coisas, ela impactará diretamente o sideloading de apps (que o Google desencoraja, lembre-se) e a distribuição por lojas que não a Google Play Store, ou outras de fabricantes parceiros, onde QooApp, APKPure e similares, que contornam restrições regionais de distribuição e disponibilidade, seriam alvos diretos.

O Brasil será um dos países-piloto do programa; a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) apoia a iniciativa, chamando-a de "um avanço significativo para proteger usuários, e encorajar a responsabilização" por parte dos desenvolvedores.

Samsung (e outros) trancam o Android

No início da disputa iPhone/Android, o Google não estava particularmente preocupado com o pós-venda de gadgets rodando o sistema, por parte das companhias parceiras (OEMs). Isso fez o pós-venda se converter em um Show de Horrores, dispositivos de ponta recebiam uma, com sorte duas, atualizações de SO, intermediários e de entrada nem isso, e patches de segurança seguindo a mesma lógica.

A Motorola foi um símbolo da Era das Trevas do Android, chegou a pegar leve quando o Google a controlou, mas depois que a Lenovo assumiu, voltou às velhas práticas; a Samsung não era muito diferente disso, estava confortável no posto de maior vendedora de smartphones, à frente da Apple.

Foi esse cenário que propiciou o surgimento das ROMs alternativas do Android, via iniciativas como o CyanogenMod, hoje sucedido pelo LineageOS, para permitir que aparelho abandonados pelas OEMs recebessem versões mais recentes do Android por mais tempo, além de mais funções, remoção de bloatwares, e decidir manualmente por instalar ou não apps do Google, e quais deles.

O problema, ROMs alternativas dependem da boa vontade dos fabricantes de componentes em liberar o código-fonte de seus recursos, e nem todas o fazem. A MediaTek, por exemplo, se recusa até hoje.

Porém, quando o Google lançou o Android 8.0 Oreo, e com ele o Projeto Treble para modularizar e agilizar atualizações, isso permitiu o desenvolvimento das Imagens Genéricas do Sistema (GSIs), basicamente o Android puro sem mexer nos BLOBs. Assim, é possível trocar as ROMs mesmo de aparelhos com componentes trancados, desde que compatíveis com o recurso.

A condição mandatória, seja para instalar uma ROM completa ou uma GSI, é o desbloqueio do bootloader, o programa que carrega ao inicializar um dispositivo Android, algo que a Samsung agora está impedindo de ser feito.

O Galaxy Z Fold 7, que sai da caixa com Android 16 e One Ui 8, bloqueia a instalação de ROMs alternativas (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

O Galaxy Z Fold 7, que sai da caixa com Android 16 e One Ui 8, bloqueia a instalação de ROMs alternativas (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

A iniciativa, que vinha sendo prometida inicialmente apenas para aparelhos da companhia rodando a One UI 8 nos Estados Unidos, deve ser adotada em todo o mundo, para os futuros lançamentos da Samsung com o Android 16 e a nova interface, sejam modelos de ponta, intermediários, ou de entrada.

Por muito tempo a Samsung foi uma das companhias grandes que não implicava com o desbloqueio do bootloader, um processo que o usuário pode realizar por conta própria, a Motorola/Lenovo exige que o pedido seja feito por uma ferramenta oficial (desativada no Brasil), enquanto outras, em sua maioria fabricantes chinesas como Huawei, Nubia/Redmagic e outras menores, metem o cadeado sem dó.

A desculpa oficial, o bootloader diminui a segurança do Android, mas do ponto de vista comercial, ROMs alternativas estendem a vida útil de aparelhos que normalmente estariam defasados, desestimulando o usuário a comprar outro smartphone, um sintoma clássico da obsolescência programada. Não obstante, apps de bancos não costumam funcionar em sistemas alternativos.

Quando a Apple percebeu que o Android era Terra de Ninguém, estendeu enormemente a compatibilidade com atualizações de seus gadgets, hoje um iPhone é elegível para upgrade de SO por 6 ou 7 anos, algo que a Samsung só recentemente passou a fazer. Como líder no Android, seus usuários com o tempo deixaram de apelar para ROMs alternativas, e os próprios devs não mais as lançam para aparelhos novos, e se concentram em atender modelos abandonados pelas OEMs.

Só que com a Samsung sinalizando que bloquear o bootloader é o certo a fazer em prol da segurança, mais fabricantes poderão adotar a prática, o que inviabilizaria a customização de ROMs; nesse cenário, quem depende de um aparelho atualizado após a fabricante encerrar as atualizações, será obrigado a comprar outro gadget, onde quem der maior atenção ao pós-venda sairá na frente.

Claro que o mercado hoje é bem diferente, ROMs alternativas são mais uma curiosidade do que uma necessidade para continuar usando smartphones largados por fabricantes após um ano ou dois de lançados, mas a mudança de ares de fato reduz as opções aos usuários, seja para adicionar funções não suportadas, ou apenas para estender a vida de seus aparelhos.

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