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Vacina contra fentanil entra em fase de testes com humanos

Vacina desenvolvida nos EUA contra overdose por fentanil será testada em humanos a partir de 2026, nos Países Baixos

28 semanas atrás

Um laboratório de Nova Iorque, nos Estados Unidos, está pronto para iniciar os testes em humanos de uma nova vacina, que promete oferecer resistência contra o fentanil, opioide sintético que hoje é a principal causa de morte por overdose no território norte-americano, e de mortes de americanos entre 18 e 45 anos.

Um medicamento controlado para tratamento da dor, o fentanil está no centro de discussões (e tarifas) dos EUA com China, México e Canadá por estes, segundo o presidente Donald Trump, não combaterem o comércio ilegal da substância.

Fentanil é 50 vezes mais potente que a heroína, e 100 vezes mais que a morfina (Crédito: iStock/Getty Images)

Fentanil é 50 vezes mais potente que a heroína, e 100 vezes mais que a morfina (Crédito: iStock/Getty Images)

Como assim, vacina contra fentanil?

Primeiro vamos explicar. O fentanil é um opioide, uma substância natural ou sintética que imita as propriedades de substâncias encontradas na papoula, de onde se extrai o ópio; a endorfina, um hormônio produzido pelo organismo e usado nas conexões dos neurônios pelo sistema nervoso, é um opioide, enquanto a morfina, extraída do látex da papoula, é um opiáceo, ou seja, um produto derivado.

O fentanil é um opioide sintético, sintetizado pela primeira vez em 1959 pelo belga Paul Janssen, e um dos principais produtos da companhia farmacêutica, obviamente, Janssen. A variação usada em aplicações médicas é o citrato de fentanila, um sal produzido ao combinar o opioide puro com ácido cítrico em proporção de 1:1.

Em situações ideais, o medicamento é usado sob rígido controle de segurança, por ser um opioide incrivelmente potente, 50 vezes mais que a heroína (que já foi um remédio, vale lembrar, assim como a cocaína) e 100 vezes mais que a morfina; Ele é indicado para o tratamento de dores crônicas severas (câncer, por exemplo), além de ser usado em anestesias gerais e como analgésico pós-operatório.

O grande problema, a produção do fentanil não é complicada e nem cara, e não demorou muito para ser comercializado ilegalmente, como uma droga recreativa e relativamente acessível, até por ser comercializada na forma de pílulas coloridas, pó, ou em formatos que lembram doces. Não demorou muito para a substância se converter em um problema de saúde pública nos EUA, sem surpresa, um dos maiores mercados dos traficantes.

O fentanil é tão potente, que pode viciar já na primeira dose (Crédito: U.S. Drug Enforcement Administration)

O fentanil é tão potente, que pode viciar já na primeira dose (Crédito: U.S. Drug Enforcement Administration)

Segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, mais de 48 mil pessoas morreram no país em 2024 em casos de overdose de opioides, a maioria causada pelo fentanil, o que é muito, mas representa uma redução de 24% nos casos em relação a 2023 (72.776 mortes), graças à indtrodução do cloridrato de naloxona, mais conhecido pelo nome comercial Narcan, capaz de reverter rapidamente os efeitos dessas substâncias.

Foram esses números altos que estimularam Trump a impor à China uma "taxa do fentanil", uma tarifa adicional de 20% somada às várias aplicadas durante o tarifaço, alegando que o País do Meio pouco faz para deter o tráfico da substância; México e Canadá foram punidos com uma alíquota mais alta, 25%, fora as demais tarifas, segundo o presidente dos EUA, por servirem como "porta de entrada" do fentanil ilegal através das fronteiras.

No meio dessa bagunça, a companhia farmacêutica de Nova Iorque ARMR Sciences, fundada em 2023 pelo investidor do setor biomédico Collin Gage, propôs retomar uma antiga pesquisa científica, o desenvolvimento de uma vacina que bloqueie os efeitos de opioides, mirando no fentanil. Os primeiros testes foram realizados ainda nos anos 1970 e tendo a heroína como alvo, mas a pesquisa foi abandonada devido a resultados aquém do esperado.

Só que a vacina experimental da ARMR, apoiada em mais de 50 anos de avanços na Medicina, se mostrou eficaz nos testes com animais, usando o mesmo princípio de qualquer outra, treinar o organismo para lidar com patógenos invasores, introduzido uma versão amenizada para que o sistema imunológico crie anticorpos eficientes; quando uma infecção de verdade ocorrer, ele estará mais do que preparado.

Desse jeito (Crédito: Reprodução/Kodansha/David Production/Aniplex/Crunchyroll/Sony)

Desse jeito (Crédito: Reprodução/Kodansha/David Production/Aniplex/Crunchyroll/Sony)

Aí você pergunta, "mas o fentanil não é um vírus, como você faz uma vacina?"

De fato, um opioide não dispara uma reação imune do organismo, a proteína não é identificada como um elemento invasor, mas vírus em geral também não são muito diferentes. A solução do ARMR foi conectar uma molécula similar ao fentanil a uma proteína "hospedeira", uma toxina desativada da difteria, uma doença bacteriana grave contra a qual existe uma vacina há décadas; ela é uma das cobertas pela pentavalente, com tétano, coqueluche, hepatite B, e influenza tipo B.

Quando exposto à proteína da difteria ligada à molécula opioide, o sistema imunológico desenvolve uma resposta equivalente aos dois componentes, de modo que em um cenário onde o paciente se entupir com fentanil ou outra substância similar, seu próprio organismo entrará em ação para combater a "invasão" de elementos estranhos, com anticorpos se ligando às moléculas e tornando-as grandes demais, impedindo que elas cheguem ao cérebro, ou seja, sem overdose e sem efeitos estupefaciantes. Por fim, sai tudo na urina.

Nos testes, uma versão da vacina criada com elementos da velha companheira dos cientistas, a bactéria E. coli, de 92% a 98% do fentanil administrado em ratos não desencadeou mudanças comportamentais, com efeitos durando por 20 semanas; os pesquisadores acreditam que uma dose para humanos pode durar até um ano. A forma inicial é a padrão injetável, mas consideram no futuro apresentar uma versão oral, não muito diferente da vacina contra a pólio.

Os testes serão realizados nos a partir de 2026, com 40 voluntários selecionados pelo Centro de Pesquisa de Medicamentos dos Países Baixos; o país foi escolhido por suas pesquisas com o Narcan e o nalmefeno, outro medicamento usado para tratar quadros de overdose. A primeira fase vai avaliar a segurança da vacina e a dose adequada, enquanto a segunda vai observar seus efeitos após exposição de uma dose controlada de fentanil.

Estudos também observaram que a vacina não reage com outros opioides em tratamentos para dor crônica, como morfina, oxicodona e metadona, o que significa que estes podem ser usados com prescrição médica enquanto uma pessoa estiver imunizada contra o fentanil, mas, por outro lado, ele ainda pode overdosar ao abusar destes. Há também a preocupação do efeito da vacina ser mitigado com outros antibióticos, o que é possível.

Ainda assim, a possibilidade de uma vacina chegar nos próximos anos oferecendo uma camada de proteção, contra potenciais abusos do fentanil e opioides similares, é uma alternativa válida considerando o alto número de óbitos que a substância vem causando nos últimos tempos.

Fonte: WIRED

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