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Texas processa Pfizer por "não acabar com a Covid"

Procurador-geral do Texas usa discurso anti-vaxxer contra vacina de mRNA da Covid, e quer US$ 10 milhões em reparações da Pfizer

10 semanas atrás

A pandemia da Covid deixou um enorme rastro de mortos e sequelas entre uma boa parcela dos que a contraíram e sobreviveram, mas, por outro lado, acelerou em pelo menos uma década o desenvolvimento das vacinas que usam mRNA, ou RNA mensageiro.

Os resultados falam por si só, tais vacinas protegeram muita gente, reduzindo drasticamente o número de novas infecções, e consequentes óbitos, internações e tratamentos posteriores. Ainda assim, há quem não argumente que a vacina de mRNA "não poderia funcionar" por "ser muito nova", tendo queimado etapas da pesquisa por razões emergenciais.

Processo acusa a Pfizer de "vender um produto defeituoso" a moradores do Texas, que "não acabou com a pandemia" da Covid (Crédito: Dado Ruvic/Reuters)

Processo acusa a Pfizer de "vender um produto defeituoso" a moradores do Texas, que "não acabou com a pandemia" da Covid (Crédito: Dado Ruvic/Reuters)

Por originalmente não ser permitida a aplicação em humanos até 2019, e em um processo normal ela só chegaria ao mercado daqui a 10 anos, muitos usam o argumento de que "a Covid não sumiu" para atacar o método, sem entender que não é assim que vacinas, com ou sem mRNA, funcionam.

Claro que ataques acabaram descambando em processos. Nos Estados Unidos, mais precisamente no estado do Idaho, um deles buscava tornar a aplicação de vacinas de mRNA uma contravenção, passível de multa e prisão. Agora, o procurador-geral do Texas abriu uma ação contra o laboratório Pfizer, com uma série de argumentos usados à exaustão por anti-vaxxers.

Texas vs. Pfizer

O processo contra a Pfizer foi aberto pelo republicano Ken Paxton, procurador-geral do Texas. No documento, o laboratório é acusado de enganar o público do estado, ao "deturpar ilegalmente" capacidades de sua vacina de mRNA contra a Covid (a Moderna, que também desenvolveu sua versão, não é citada no processo).

Paxton argumenta que a Pfizer mentiu sobre a eficácia de sua vacina, pois ela "não acabou com a Covid" (sic), contrariando declarações do laboratório, e que ao invés disso, "pelo contrário, a pandemia piorou", se baseando em um argumento batido da turma anti-vacina, que seria apresentar dados de efetividade baseados em redução absoluta dos riscos absolutos, ao invés da redução relativa, o procedimento padrão.

É uma questão de como os riscos são calculados com base em testes de laboratório, que no caso da vacina de mRNA da Pfizer, durou dois meses. Digamos que um grupo de voluntários não imunizados tenham 6% de chances de contrair Covid, e após a aplicação da vacina, esse risco caia para 1%.

Em um cálculo relativo, a efetividade é baseada na fórmula *valor reduzido do risco/chances iniciais*, ou seja, 5/6 = 0,83, ou 83% de efetividade. No cálculo absoluto, a fórmula é *chances iniciais - chances finais*, o que seria 6 - 1 = 5, ou 5% de efetividade.

A efetividade real da vacina da Pfizer, baseada no cálculo relativo, é de 95% de redução dos casos de infecção; caso o laboratório adotasse o cálculo absoluto, defendido por Paxton, seu índice de sucesso contra a Covid seria de pífios 0,85%, que o procurador-geral acredita ser o valor verdadeiro, mas ele simplesmente não bate com os resultados da vacina na realidade.

Ambos números foram alcançados nos testes executados: de 17.411 vacinados, apenas 8 contraíram Covid no período (0,045% dos voluntários), enquanto 162 de 17.511 submetidos ao placebo ficaram doentes (0,9%).

O cálculo de risco absoluto serve para lidar com doenças com baixo índice de contágio, enquanto o relativo apresenta a real relação de efetividade, sendo mais indicado como padrão para observar o índice de contágio, e a redução do mesmo com vacinas, quando lidando com patógenos altamente contagiosos, como o SARS-CoV-2, causador da Covid.

Vírus SARS-CoV-2, que causam a Covid, vistos por um microscópio eletrônico (Crédito: National Institute of Allergy and Infectious Diseases/Rocky Mountain Laboratories)

Vírus SARS-CoV-2, que causam a Covid, vistos por um microscópio eletrônico (Crédito: National Institute of Allergy and Infectious Diseases/Rocky Mountain Laboratories)

Vacina da Covid não faz milagre

O processo movido por Paxton acusa a Pfizer de "tentar calar críticos" à vacina, no que "muitos texanos foram coagidos por mandados tirânicos de vacinação, a comprar um produto baseado em mentiras". O procurador-geral quer US$ 10 milhões em compensações ao estado, além de outras providências.

No geral, críticos das vacinas contra a Covid, que aderiram a tratamentos ineficazes, mas muito lucrativos em favor de parcerias com grupos farmacêuticos, usam o argumento dos riscos absolutos contra os relativos, estes mais próprios para ilustrar um quadro de pandemia, como "prova" de que os imunizantes não funcionam.

Não obstante, o processo busca responsabilizar a Pfizer por não eliminar o SARS-CoV-2, como supostamente ter afirmado que sua vacina faria, o que é muito, muito difícil de fazer em caso de doenças virais transmitidas pelo ar. Embora tenhamos conseguido erradicar a varíola no passado recente, foi preciso um esforço hercúleo e cooperação de quase todas as nações do planeta, em um nível que dificilmente conseguiríamos repetir.

É importante lembrar que vacinas não são a panaceia, não garantem imunização de 100% nem resolvem todos os problemas, mas é uma cobertura adicional muito bem-vinda, que aumenta exponencialmente as chances de você não ficar doente; e mesmo que fique, os sintomas serão muito menores.

Como resultado, um relatório de 2022 mostra que a aplicação massiva de vacinas nos dois anos anteriores evitou 18 milhões de internações e mais de 3 milhões de mortes, só nos EUA. A opção a isso, esperar mais 10 anos para desenvolver uma vacina "segura", enquanto muitos morriam ou desenvolviam sequelas, seria totalmente irresponsável, mas é o que a ala anti-mRNA defende.

Em nota, a Pfizer disse que o processo movido pelo Texas "não tem mérito", que os dados de efetividade de sua vacina de mRNA são fundamentados no método científico, e que a empresa responderá à ação movida pelo procurador-geral Paxton "no devido tempo".

Fonte: Ars Technica

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