Ronaldo Gogoni 9 semanas atrás
Não é segredo que o doomscrolling, o ato de ficar rolando continuamente feeds de redes sociais em celulares e tablets é um hábito prejudicial à saúde mental, devidamente comprovado em estudos científicos; no entanto, alguns pesquisadores se perguntavam se o mesmo se aplica à saúde física do usuário e, sem muita surpresa, um novo estudo demonstrou ser o caso.
Um time formado por pesquisadores das universidades de Aalto, em Espoo, Finlândia, e de Leipzig, na Alemanha, desenvolveu um modelo de Inteligência Artificial (IA) para reproduzir movimentos comuns a usuários de celulares, para "usar" apps em tempo real e mostrar, em um modelo preciso do corpo humano, que tipos de movimentos são os mais danosos a seus músculos.

Movimentos de scrolling para cima e baixo forçam músculos mais que outras ações (Crédito: RDNE Stock project/Pexels)
O modelo apresentado pelos pesquisadores é chamado Log2Motion, e consiste em converter logs (entradas de comando) de smartphones em uma simulação de movimento do corpo humano, demonstrando como músculos e ossos respondem à repetição de certas ações. O sistema é compatível com emulação e pode até mesmo acessar apps em tempo real.
O Log2Motion traduz os logs em uma representação fiel do esqueleto e estrutura muscular de um usuário durante interação com dispositivos móveis, exibindo como o corpo se comporta durante ações como toques simples, deslizar o dedo pela tela para escrita, e scroll de baixo para cima e vice-versa.
É fato conhecido que apps que fazem uso do recurso de rolagem infinita causam danos à saúde mental do usuário, levando a episódios de ansiedade e desencadeando comportamentos como sedentarismo extremo, mas este é o primeiro estudo que aponta efeitos negativos diretamente e de forma imediata à saúde física: movimentos constantes e repetitivos levam a condições que podem ser bem dolorosas a longo prazo, como a relação entre digitação e LER (lesão por esforço repetitivo, cujo nome clínico é DORT, Distúrbio Osteomuscular Relacionado ao Trabalho), por exemplo.
O que os pesquisadores visualizaram quase que literalmente: certos movimentos ao usar um celular são mais danosos que outros, com o scroll sendo o campeão negativo; logo atrás vêm clicar em ícones pequenos e estender o braço e a mão para alcançar os cantos do display. Nesses, o esforço muscular e ósseo é bem maior.
Coloque o doomscrolling na equação e você vai entender a gravidade da situação: cada movimento individual não é muito, mas considere mover o dedo na tela de cima para baixo e de baixo para cima centenas, milhares de vezes por dia, todos os dias e por muito tempo, para suspeitar que TALVEZ lá na frente, o braço, o ombro, ossos, tendões e músculos envolvidos vão cobrar o preço.

Como os pesquisadores bloquearam a reprodução externa, clique aqui para ver o vídeo no site (Crédito: Antti Oulasvirta/Aalto University)
O estudo é importante porque, pela primeira vez, demonstrou com imagens o que era apenas inferido em dados. Empresas e pesquisadores só tinham a informação do que o usuário clicava e em que posição na tela, mas esta é a primeira vez onde é possível observar como o corpo humano se comporta em cada ação, ainda que seja uma (bem precisa) simulação.
Segundo o Dr. Antti Oulasvirta, Antti Oulasvirta, professor da Universidade Aalto e do Instituto ELLIS da Finlândia, e um dos coautores do estudo, ao demonstrar como e onde o usuário toca a tela, se é uma experiência confortável ou não, o Log2Motion pode prover informações importantes para desenvolvedores criarem interfaces mais amigáveis e que exijam menos esforço físico, principalmente considerando que movimentos repetitivos levarão a situações médicas no futuro.
No mais, é importante lembrar que designs considerados viciantes, como o doomscrolling, estão sendo combatidos mundo afora: a União Europeia (UE), como não podia deixar de ser, está forçando o TikTok a remover a funcionalidade do app em todos os 27 países-membros do bloco, e promete fazer o mesmo com mais apps e serviços, ao considerar a ferramenta uma violação da Lei de Serviços Digitais, por colocar em risco principalmente menores de idade.
MIAZGA, M. P., BUSSMANN, H., OULASVIRTA, A., EBEL, P. Log2Motion: Biomechanical Motion Synthesis from Touch Logs. Proceedings of the 2026 CHI Conference on Human Factors in Computing Systems (2026), 22 páginas, 5 de fevereiro de 2026.
DOI: 10.48550/arxiv.2601.21043
Fonte: Tech Xplore