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Cientistas transformam seda em equivalente do Kevlar

Processo sem adição de outros elementos transforma a seda em polímero mais resistente que ossos humanos e quase no nível do Kevlar

25/05/2026 às 14:05

A seda é uma das fibras naturais mais antigas processadas pela humanidade; nós a processamos conforme nossas necessidades há pelo menos 8.500 anos. Ela é bastante estudada, assim como fibras produzidas por outros artrópodes, como as teias de aranhas, para outras finalidades além de confeccionar roupas.

Um desses usos é o desenvolvimento de materiais resistentes, similares a sintéticos como o Kevlar, por exemplo. Já se sabe que o fio de uma teia de aranha é cinco vezes mais forte (proporcionalmente falando) do que o aço, e a seda também pode atingir tal nível, desde que o bicho-da-seda (Bombyx mori) seja submetido a alguns ajustes genéticos.

Bicho-da-seda (Bombyx mori) tecendo casulo (Crédito: Jony Kumar/ResearchGate)

Cientistas estudam há décadas propriedades adicionais da seda, incluindo novos materiais resistentes (Crédito: Jony Kumar/ResearchGate)

E se houvesse um método de manipular a seda de modo natural, que não envolvesse mexer nos genes dos bichinhos, para conseguir uma resina incrivelmente resistente? Pois foi o que um time de pesquisadores fez ao submeter o material a um novo processo que resultou em um polímero quase do mesmo nível que a fibra sintética usada em coletes à prova de balas.

Polímero de seda fica pouco atrás do Kevlar

A Dra. Chunmei Li é professora-assistente do departamento de Engenharia Biomédica da Universidade Tufts em Massachusetts, nos Estados Unidos; sua área de expertise envolve a intersecção de biomateriais, medicina regenerativa e ciência de materiais sustentáveis. Resumindo, ela estuda elementos da Natureza para checar a viabilidade deles como futuros substitutos de materiais nocivos ao Meio Ambiente, como plástico e isopor.

Um dos problemas dessa abordagem é a escalabilidade: produzir plástico é simples e barato, mas equivalentes ecológicos, nem sempre. Sua área de estudo mira em estudar métodos eficientes de lidar com materiais naturais sem que eles precisem ser beneficiados ou modificados, o que no caso da seda, exclui terapias genéticas dos bichos-da-seda.

A seda é por si só um material com inúmeras características. A estrutura triangular da fibra, por exemplo, atua como um prisma e refrata a luz, o que dá ao tecido o aspecto cintilante tão cobiçado. No entanto, a Dra. Li diz que tentativas de manipular a fibra natural através de processos químicos podem comprometer suas propriedades naturais.

O método de tratamento usado por sua equipe de cientistas usa uma abordagem diferente: primeiro, as fibras são banhadas em carbonato de sódio (também conhecido como barrilha), para remover a cobertura grudenta impregnada pelas lagartas; a seguir, elas são alinhadas e submetidas a calor e pressão bem altos, mas bastante específicos: entre 125 ºC e 215 ºC e entre 1.900 e 9.800 atmosferas. Números muito altos deixam o novo polímero quebradiço; muito baixos e ele fica mole demais.

Sob condições ideais o novo material, que é basicamente "seda fundida", assume uma estrutura similar à da madeira e é transparente, além de ser extremamente resistente, quase no nível do Kevlar.

Por ser transparente, biopolímero de "seda fundida" pode ser aplicável em soluções como fibra óptica (Crédito: Qichen Zhou/Tufts University)

Por ser transparente, biopolímero de "seda fundida" pode ser aplicável em soluções como fibra óptica (Crédito: Qichen Zhou/Tufts University)

NO artigo, os pesquisadores anotam que a disposição das fibras atua como um dissipador de estresse, o material resultante é sólido e resistente a impactos e preserva as principais características da seda, o que inclui o índice de refração da luz, que torna o novo polímero transparente.

A Dra. Li diz que o material pode ser aplicado em diversas soluções. Por exemplo, testes de balística conduzidos pela Universidade de Michigan comprovaram que a "seda fundida" tem resistência similar à de polímeros reforçados à base de fibra de carbono usados em carros e aviões; pequenas quantidades inseridas em ratos se dissolveram lentamente, o que seria útil em implantes temporários ou suturas.

Sua transparência também seria útil no campo da óptica, como um novo material natural para desenvolvimento de novos tipos de fibra, podendo trazer vantagens às próximas gerações de redes sem fio. Os pesquisadores também estudam parcerias com companhias para verificar sua utilidade em sensores e outros produtos.

O grande problema, de novo, é a escala. Se a "seda fundida" se provar um material que pode ser produzido em grandes quantidades e de modo barato, suas propriedades seriam interessantes no sentido de reduzir a dependência de materiais não-biodegradáveis, mas isso é uma questão que deverá ser verificada com mais testes e revisão de pares.

Por outro lado, a seda não é vista hoje como um material extraído de forma ética: a Dra. Li e demais envolvidos no processo podem ter dores de cabeça futuras com o PETA, e a tal "seda da paz", que Mahatma Gandhi defendia no lugar da fabricada pelo processo industrial (ela seria produzida de modo mais ecológico, deixando o bicho-da-seda concluir seu ciclo de vida), não é tão pacífica quanto as pessoas pensam.

Referências bibliográficas

ZHOU, Q., YU, X., ZENG, C. et al. Hierarchical materials from fused silk. Nature Sustainability (2026), 20 páginas, 12 de maio de 2026.

DOI: 10.1038/s41893-026-01821-y

Fonte: Tufts Now

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