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Trump, EUA vs. China, e novas taxas sobre gadgets

Donald Trump prometeu taxar em 60% importações da China para os EUA, gadgets inclusos; preços podem subir de 40% (videogames) a 100% (laptops)

1 ano e meio atrás

Donald Trump foi reeleito presidente dos Estados Unidos, e a indústria tech está em pânico. Durante a campanha, o republicano prometeu que imporia novas e pesadas sanções contra a China, escalando a guerra comercial travada entre as duas potências que começou durante seu primeiro mandato, e foi mantida (e expandida) durante a administração de Joe Biden.

Uma das medidas, que pode ou não ser posta em prática, prevê a taxação em exorbitantes 60% de todos os bens importados da China para os EUA, sem exceções; especialistas acreditam que ato pode frear crescimento de diversas companhias, e encarecer gadgets como smartphones, laptops e consoles de videogame, entre outros, até então ilesos graças a lobby, que deve não funcionar desta vez.

Com Donald Trump de volta à Casa Branca, disputa comercial com a China de Xi Jinping deve escalar (Crédito: Kevin Lamarque/Reuters)

Com Donald Trump de volta à Casa Branca, disputa comercial com a China de Xi Jinping deve escalar (Crédito: Kevin Lamarque/Reuters)

Trump quer taxar bens da China em 60%

O rolo comercial entre a China e os EUA começou em 2019, quando a Huawei e a ZTE foram alvos de sanções e impedidas de fazer negócios com empresas do país, e de usar tecnologias e serviços norte-americanos. Ambas foram acusadas de espionagem, algo que nunca foi provado, no que a primeira, na época a segunda maior fabricante de smartphones do mundo, ruiu como um castelo de cartas.

A China respondeu na mesma moeda, e passou a restringir e cortar as asas de empresas dos EUA que faziam negócios com a China, inclusive usando a máquina estatal para persuadir os consumidores a preferirem produtos locais. De lá para cá foram só bordoadas trocadas por ambos os lados, no que Biden não só manteve a retórica, como aumentou a pressão contra o governo do premiê Xi Jinping.

Um dos últimos desenvolvimentos veio da China, ao estatizar todas as jazidas do país de gálio e germânio, materiais essenciais na produção de semicondutores, o que levou os EUA a reagir de forma inesperada: ao invéss de abrir um canal de negociação, a Casa Branca mandou a DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency, ou Agência de Pesquisa e Projetos Avançados de Defesa em português), o órgão responsável por P&D de novas tecnologias relacionadas à Defesa, se virar, e desenvolver novos chips com outros componentes.

Atualmente, as taxações e impostos acumulados abrangem em torno de US$ 300 bilhões em bens e insumos importados da China, com uma exceção: graças a um fortíssimo e bem-executado lobby, produtos e componentes de tecnologia escaparam ilesos, por serem principalmente manufaturados e montados no País do Meio, onde a hora-homem é indiscutivelmente mais barata que nos EUA, logo, as big techs não querem voltar a produzir em casa de jeito nenhum.

No entanto, durante a campanha presidencial, Trump prometeu que cobriria "os US$ 300 bilhões (em bens) restantes" da China, e anunciou que, se eleito, imporia uma nova taxa de 60% a todas as importações, sem exceções, de modo que desta vez, a indústria tech não se safaria.

Quando a primeira rodada de sanções foi imposta à China, um lobby orquestrado pelas grandes companhias de tecnologia argumentou que as taxas, ainda que de 10%, representariam um duro golpe contra a economia americana, visto que os valores seriam repassados ao consumidor, que passaria a pagar mais caro por smartphones, tablets, laptops, e consoles de videogame, entre outros.

Aumento na tensão entre EUA e China trará consequências à cena tech, que desta vez, não sairá ilesa (Crédito: reprodução internet)

Aumento na tensão entre EUA e China trará consequências à cena tech, que desta vez, não sairá ilesa (Crédito: reprodução internet)

Na época o argumento colou, e Trump propôs uma isenção a esses produtos, mas agora, o recém-reeleito presidente já deu indícios de que não pretende aliviar para ninguém, e os incomodados que se mudem, ou seja, parem de fazer negócios com a China e produzam seus bens em outros lugares, de preferência nos Estados Unidos, claro.

A Apple, por exemplo, já prevendo uma escalada na guerra comercial há tempos, redirecionou boa parte da produção do iPhone para a Índia, mas outras, como as fabricantes de consoles Sony, Microsoft e Nintendo, além de empresas de dispositivos Android e de laptops, e de outros componentes (GPUs da Nvidia, atualmente a companhia mais valiosa do mundo, graças à IA), não têm essa elasticidade, e como consequência, os preços finais devem aumentar. E muito.

Segundo um estudo da CTA (Consumer Technology Association, ou Associação de Tecnologias para o Consumidor em português), grupo que representa mais de 1.000 empresas de bens de consumo tech dos EUA, caso a taxa de 60% seja realmente implementada e produtos de tecnologia não sejam mais isentos, itens como smartphones e tablets devem sofrer um reajuste de até 26%, e consoles de videogame podem ter um acréscimo de 40% no valor ao consumidor. Laptops seriam os mais afetados, com o preço de loja chegando a dobrar em relação aos atuais.

Ah, sim: graças ao mercado globalizado, o aumento dos preços dos produtos tech nos EUA levará a um efeito cascata em todo o globo, com os fabricantes repassando os aumentos para fora das fronteiras americanas. Está achando o PS5 Pro por R$ 7 mil caro? Pois ele poderia muito bem chegar a R$ 10 mil, como preço base. Um laptop razoável, que custa hoje em torno de R$ 3 mil, acabaria reajustado para R$ 6 mil. E assim por diante.

O setor, obviamente, está apavorado. Ed Brzytwa, VP de Comércio Internacional da CTA, disse ao site Ars Technica que não só a China retaliará eventualmente com a mesma mão pesada, como lembrou que as sanções no geral estão tendo o efeito inverso do esperado, com empresas locais contornando limitações e o país continuando a se desenvolver de forma acelerada, tecnológica e militarmente.

Já Jim McGregor, fundador da companhia de análise TIRIAS Research, disse que China e EUA deveriam recorrer à "diplomacia", buscando negociar acordos que beneficiem ambas as partes, ao invés de continuarem se digladiando, e que o país precisa de alguém disposto a "construir pontes, ao invés de erguer barreiras", e completou que "ninguém em Washington está disposto a fazer isso", seja do futuro governo, ou do atual.

Claro que a criação de novas taxas cabe ao Congresso (onde o Partido Republicano assegurou maioria, na Câmara e no Senado), mas políticas internacionais são assuntos restritos ao poder executivo, onde Biden e Trump detêm a palavra final; do outro lado, Xi Jinping também não deve ceder um milímetro e responderá na mesma medida, e nenhum dos lados parece propenso a sentar e discutir uma trégua, para mútuo benefício e estabilização de ambas economias, que influenciam o cenário global.

Fonte: Consumer Technology Association, Ars Technica

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