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China estatiza terras raras usadas na produção de chips

Terras raras, ricas em gálio e germânio, passarão a ser propriedade do governo da China; movimento seria reação às sanções dos EUA

03/07/2024 às 8:50

A guerra comercial e tecnológica travada entre China e Estados Unidos acaba de ganhar um novo capítulo: o governo de Pequim publicou uma nova regulação, que entrará em vigor no dia 1.º de outubro de 2024, anunciando a estatização de todas as reservas nacionais de terras raras, que fornecem elementos essenciais à produção de semicondutores e processadores em geral.

O movimento está sendo entendido como uma reação às sanções impostas por Washington, que proíbem companhias chinesas, como Huawei e SMIC, de terem acesso a tecnologias de ponta para a impressão de chips; a China é a maior produtora de gálio e germânio do planeta, e a estatização deverá ser usada como uma nova carta na manga.

China responde por 94% do gálio usado na impressão de chips (Crédito: reprodução/acervo internet)

China responde por 94% do gálio usado na impressão de chips (Crédito: reprodução/acervo internet)

Terras raras dão vantagem à China

Segundo reportagem do site Nikkei Asia, o governo do premiê Xi Jinping divulgou a nova regulação no dia 29 de junho de 2024, onde determina que "nenhuma organização, ou indivíduo, poderá se apropriar ou danificar recursos de terras raras", no que seu objetivo é "garantir a segurança industrial e de recursos nacionais".

Resumindo, todas as terras raras da China agora pertencem ao Estado, que determinará como, quando, e por quem elas serão explotadas. A legislação sobre todas as etapas de produção, que incluem mineração, fundição, processamento, distribuição, e exportação, e definirá procedimentos e desenvolvimento sustentáveis, além de segurança e inovação, sempre sob a tutela de Pequim.

O ato do ursi- digo, do premiê Xi de estatizar as terras raras não chega a ser uma surpresa: dona da maior reserva do mundo (44 milhões de toneladas), a China responde por 70% da produção mundial, e separando por elementos, ela minera e beneficia 94% do gálio usado em componentes, e 60% do germânio. Ambos elementos são essenciais para a impressão de semicondutores, usados em processadores e SoCs, placas de vídeo e chips de memória, mas também em amplificadores de radiofrequência, LEDs, chips de potência, e diversas outras aplicações.

Assim, a nacionalização dos recursos locais vem sendo tratada como uma resposta do governo chinês às sanções impostas pelo governo dos EUA, em que companhias do país não podem, de maneira nenhuma, colocar as mãos em tecnologias que permitam a impressão de chips e componentes avançados, no que vem sobrando para a ASML, e também para a TSMC.

Com a estatização, a China terá controle total sobre o beneficiamento das terras raras, e da exportação do gálio e germânio processados, no que ela poderá ditar quanto cobrará por seus recursos, visto que sua cadeia de suprimento é a base de toda a produção avançada de chips do planeta; dessa forma, Xi Jinping tem uma maneira de forçar o governo de Joe Biden a negociar melhores condições, e a real intenção, a retirar as sanções.

Ao estatizar as terras raras, Xi Jinping busca forçar Joe Biden a retirar sanções contra a China (Crédito: Kevin Lamarque/Reuters)

Ao estatizar as terras raras, Xi Jinping busca forçar Joe Biden a retirar sanções contra a China (Crédito: Kevin Lamarque/Reuters)

Como a nova legislação entrará em vigor daqui a menos de três meses, ainda é um tanto cedo para entender quais serão as reais consequências da estatização das terras raras da China. É possível que os preços dos materiais escalem para companhias alinhadas com os Estados Unidos, enquanto a exportação possa ser facilitada para aliados do BRICS, no que o maior interessado é, sem surpresa, a Rússia.

Do outro lado, o ato de Pequim pode forçar os Estados Unidos e aliados a procurarem comprar germânio e gálio de outros países, como Alemanha, Cazaquistão, e respectivamente o segundo e terceiro países com as maiores reservas de terras raras depois da China, Vietnã e Brasil, com 22 milhões e 21 milhões de toneladas.

No nosso caso, embora tenhamos os recursos, a exploração é bastante limitada, o mesmo valendo para outros países. Assim, caso os EUA e parceiros apelem para outros fornecedores de terras raras, o preço pela matéria-prima será maior do que o pago atualmente; por outro lado, ninguém sabe se o premiê Xi vai trocar as etiquetas a partir de outubro, ou não.

A título de comparação, os EUA possuem uma reserva minúscula quando comparada com China, Vietnã e Brasil, de apenas 1,8 milhão de toneladas de terras raras.

O que pode acontecer, por outro lado, é Washington ser forçada, via lobby das gigantes do Vale do Silício, a aliviar ou remover completamente as sanções contra a China, de modo que os negócios de empresas como Apple, Google, Amazon, Meta e Microsoft, além de Intel, ARM, Nvidia, ASML e várias outras, sejam afetadas pelas desavenças políticas entre as duas nações.

No fim, é bem provável que o dinheiro falará mais alto, como sempre.

Fonte: Nikkei Asia

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