Ronaldo Gogoni 1 ano e meio atrás
O presidente eleito dos Estados Unidos Donald Trump anunciou a aplicação de novas tarifas comerciais de 25%, sobre todas as importações do México e do Canadá, além de uma nova de 10% sobre as já existentes, a todos os envios da China, desta vez, sem exceções. As taxas serão instauradas via ordens executivas no primeiro dia de seu segundo mandato, em 20 de janeiro de 2025.
As medidas, anunciadas através do perfil de Trump em sua rede social Truth, seriam retaliações aos referidos governos por não combaterem o tráfico de Fentanil, e no caso do Canadá e México, também por não impedirem o fluxo de imigrantes ilegais, e criminosos, atravessando as fronteiras dos EUA.

Trump decidiu retaliar imigração ilegal e tráfico de fentanyl com taxas de importação pesadas (Crédito: Chet Strange/Getty Images)
O anúncio de novas tarifas a importações de parceiros comerciais próximos, e da China, com quem os EUA disputam uma guerra comercial desde 2019, era esperado. No caso do País do Meio, Trump chegou a ameaçar, durante a campanha presidencial, que imporia uma insana taxa adicional de 60%, e desta vez não haveria isenções a gadgets, o que deixou as empresas do Vale do Silício, e outras gigantes tech, apavoradas.
No fim, a tarifa nova é de mais gerenciáveis 10%, mas o guarda-chuva a Apple e cia. de fato não existe mais; eletrônicos, componentes e dispositivos em geral, além de outros produtos, tudo será taxado e em cascata, a nova cobrança será feita por cima das taxas já existentes.
Em sua postagem, Trump não cita em nenhum momento as desavenças comerciais com a China, ao invés disso, acusa o governo de Pequim de não cumprirem uma promessa de impor pena de morte a traficantes de drogas, em especial do Fentanil, um opioide poderoso e extremamente controlado, usado em tratamentos para o controle da dor, mas também comercializado ilegalmente; a droga causou a morte de 74.702 pessoas por overdose em 2023, e de 76.226 em 2022, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC).
O presidente eleito considera o tráfico de Fentanil como uma praga, onde a China seria o principal produtor; traficantes usariam o México e o Canadá como rotas para deslocarem o opioide para dentro dos EUA de forma ilegal, assim, Trump usou o caso como uma conveniente cobertura, para taxar ainda mais as importações chinesas, sem que isso pareça uma escalada da guerra comercial, a real intenção.
Quanto aos países vizinhos, Trump adicionou à acusação de rota de drogas o fluxo de imigrantes ilegais e criminosos (no caso, traficantes de drogas), e indiretamente chamou Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá, e Claudia Sheinbaum, presidente do México, de incompetentes, por não lidarem com seus problemas internos.
Assim, Trump decidiu que Canadá e México "pagarão caro" por não controlarem suas fronteiras, graças a uma taxa de 25% sobre todas as importações para os Estados Unidos.

Para Claudia Sheinbaum, presidente do México, taxa de 25% sobre importações só causará inflação e desemprego, e os EUA não serão imunes a isso (Crédito: Bloomberg/Getty Images)
As repercussões não demoraram a aparecer. Sheinbaum, por exemplo, reagiu no mesmo tom via carta oficial enviada a Washington, dizendo que o México "responderá uma tarifa com outra", e que o ato de Trump, caso seja posto em prática, viola o USMCA (Estados Unidos-México-Canadá), um tratado de livre comércio assinado pelo próprio presidente eleito em 2020, e que substituiu o NAFTA (Acordo de Livre Comércio da América do Norte).
Segundo ela, as medidas de Trump só levarão ao aumento da inflação e do desemprego, tanto no México e no Canadá, quanto nos Estados Unidos, que responde por 79,6% e 75,4% das exportações, respectivamente (dados de 2023). Boa parte dos bens de consumo dos americanos, incluindo os mais básicos, como petróleo, gás natural e derivados, vegetais, grãos, bebidas, especiarias, veículos, maquinário elétrico, plástico, aço, ferro, etc., é comprado de ambos países.
Trudeau, por sua vez, teve uma aproximação mais amena, ao convocar uma reunião de emergência com seu gabinete, e ligar para Trump pouco tempo depois das postagens, para "falar sobre os desafios" que EUA e Canadá deverão enfrentar, e resolver juntos, mas não mencionou se o país responderia ao ato com taxas, como da última vez.
Já a China reagiu da maneira de sempre. Um editorial da rede de televisão estatal CCTV classificou os comentários de Trump como "irresponsáveis", já o vice-presidente Han Zheng disse que a China está "construindo um modelo econômico para um mundo aberto", e que "a globalização econômica é uma tendência histórica irreversível", mais uma alusão ao fato de que, não importa o que os EUA façam, o país continuará crescendo e evoluindo a passos largos.
Ao mesmo tempo, Liu Pengyu, porta-voz da embaixada chinesa em Washington, disse à rede BBC que "não há vencedores em uma guerra de taxas", lembrando que os 66,4% das importações totais dos EUA vêm da China, e na direção contrária, 58,3% de tudo que o País do Meio importa vem da América.
Vale lembrar que aumentar taxas e criar novas não é exclusividade de Trump; durante o governo Biden, os EUA impuseram ainda mais tarifas à China, durante a escalada de tensões comerciais entre as duas potências, incluindo uma de 100% sobre importações de carros elétricos, graças principalmente a lobby do bilionário Elon Musk, por temer que a Tesla enfrentasse uma feroz concorrência da BYD, esta endossada por Pequim no território chinês.
Fonte: Financial Times