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ASML forçada pelos EUA a cancelar pedidos da China

EUA pressionaram os Países Baixos e ASML, para que pedidos feitos por empresas da China, a serem entregues antes do embargo, fossem cancelados

02/01/2024 às 10:23

O governo dos Estados Unidos está determinado a reforçar as sanções à China, que impedem a compra por empresas locais de maquinário e componentes de alta tecnologia, para o desenvolvimento de semicondutores, no que a holandesa ASML foi pega no fogo cruzado.

A rodada mais recente de regras impede a empresa de vender seus produtos aos chineses desde a última segunda-feira (1.º), mas pedidos feitos antes da publicação poderiam ser honrados normalmente, com ênfase no poderiam.

EUA não gostaram dos rumores que chineses modificaram máquinas da ASML, como o Twinscan NXT:2000i (acima), para viabilizar processos de litografia mais avançados (Crédito: ASML/Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

EUA não gostaram dos rumores que chineses modificaram máquinas da ASML, como o Twinscan NXT:2000i (acima), para viabilizar processos de litografia mais avançados (Crédito: ASML/Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

De acordo com fontes próximas à ASML ouvidas pelo site Bloomberg, o Departamento de Segurança dos EUA, através do governo dos Países Baixos, entrou em contato diretamente com a ASML, e forçou o cancelamento de alguns dos últimos pedidos de máquinas de ultravioleta profundo (DUV), que seriam enviados à China, semanas antes do embargo entrar em vigor.

EUA para ASML: "cancela tudo. É uma ordem"

As novas regras e restrições impostas pelos EUA à China foram anunciadas em outubro de 2023, e incluem a China e suspeitos habituais, como Cuba, Coreia do Norte, Irã e Venezuela, além da Rússia, graças à invasão à Ucrânia.

Duas companhias chinesas, Biren Technology e Moore Threads, foram citadas nominalmente, no que ambas e os países acima citados ficam impedidos de comprar componentes e maquinários, que envolvem processos avançados para a produção de semicondutores de última geração.

A Biren entrou em maus lençóis quando, em 2022, anunciou ter desenvolvido uma nova GPU tão poderosa quanto a Nvidia A100, com processos da TSMC, companhia taiwanesa que imprime chips para várias gigantes do ocidente, como Apple, Nvidia e AMD; em tese, a manufatura, responsável pela produção da placa, estava imprimindo processos de litografia que os chineses não podiam, por força das sanções, terem acesso.

Já a  Moore Threads disse ter desenvolvido processos de impressão de chips próprios, capazes d entregar GPUs "100% nacionais", tão potentes quanto as da Nvidia e AMD, o que levantou suspeitas de espionagem industrial e descaminho.

Para o gabinete do presidente dos EUA Joe Biden, ambas empresas não poderiam atingir tais níveis de excelência sem copiar designs americanos, assim, as sanções contra a China foram endurecidas. De cara a Nvidia, hoje a líder no mercado de componentes para Inteligência Artificial (IA), ficou impedida de vender designs de GPUs desenvolvidas para atender a rodada anterior de limitações, no que ela tentou dar a volta de novo, e levou um puxão de orelha do governo.

Jensen Huang, CEO da Nvidia, entendeu o recado e se encontrou com Gina Raimondo, secretária de Comércio, dizendo que as regras eram "claras como cristal", e que sua companhia não quer quebrá-las. Segundo ela, o executivo se comprometeu a trabalhar com o governo, dizendo que basta que ele dite as regras, e sua empresa as seguirá.

Especialistas apontam que sanções dos EUA só fortaleceram os processos chineses, que evoluíram para contornar as limitações de mercado impostas (Crédito: reprodução/acervo internet)

Especialistas apontam que sanções dos EUA só fortaleceram os processos chineses, que evoluíram para contornar as limitações de mercado impostas (Crédito: reprodução/acervo internet)

Assim, a RTX 4090D, uma versão menos poderosa da GPU de ponta da Nvidia para o mercado consumidor, exclusiva para a China (1.792 núcleos CUDA e 60 Tensor cores a menos, um TDP menor, de 425 W, e sem suporte a overclock), poderá ser comercializada com os chineses, por teoricamente não poder ser usada para desenvolver soluções de IA em grande escala; o mesmo talvez não se aplique às corporativas HGX H20, L20 e L2, entretanto.

Companhias que trabalham com semicondutores, como Intel, AMD e TSMC, também estão impedidas de fazer negócios com a China, ao menos de seus designs mais avançados e recentes. Três das empresas locais que não podem ser permitidas a colocarem as mãos em processos críticos são a ZTE, a Huawei e a SMIC, companhia estatal de componentes responsável pelo controverso chip Kirin 9000s, que equipa o smartphone Mate Pro 60.

A SMIC era uma das principais clientes da ASML, a maior e mais avançada empresa que fabrica máquinas que produzem semicondutores, e a companhia mais valiosa da Europa. Seus equipamentos viabilizam a impressão dos processos de litografia mais avançados do mundo, sejam x86-64 ou ARM, com os mais recentes de DUV chegando a valores abaixo de 5 nanômetros.

As novas sanções eram adamantes, os holandeses não mais poderiam vender seus produtos para os chineses, especialmente a SMIC, a partir de 17 de novembro de 2023, e nenhum pedido poderia ser entregue após 1.º de janeiro de 2024, só que haviam dois problemas para a Casa Branca: já haviam pedidos feitos que seriam honrados, pois as regras assim permitiam, e as companhias do País do Meio conseguiram modificar máquinas antigas, para produzir chips de menor litografia, além do que haviam sido projetadas.

De modo a impedir que a China pusesse a mão nas máquinas mais modernas da ASML, o governo Biden entrou no modo "manda quem pode, obedece quem tem juízo", passando por cima das próprias regras que estabeleceu.

A ASML, que fabrica máquinas impressoras de semicondutores, é a empresa mais valiosa da Europa (Crédito: Divulgação/ASML)

A ASML, que fabrica máquinas impressoras de semicondutores, é a empresa mais valiosa da Europa (Crédito: Divulgação/ASML)

Segundo as fontes, o governo da Holanda/Países Baixos (é complicado; sim, eu sei que essa piada é velha, mas eu adoro esse vídeo) foi contatado por Jake Sullivan, conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, semanas antes do fim de 2023, com um objetivo claro: questionar "um número limitado" pedidos da ASML fechados com empresas da China, de pelo menos três unidades de máquinas de DUV. O gabinete do governo teria recomendado Sullivan a entrar em contato diretamente com a companhia, o que foi feito.

Embora os detalhes não sejam conhecidos, sabe-se que os pedidos (provavelmente os destinados à SMIC) foram cancelados; não obstante, a ASML confirmou que o governo holandês revogou parcialmente licenças anteriores, que permitiam à empresa negociar certos processos de litografia com os chineses, afetando alguns de seus clientes, sem dizer quais.

Representantes disseram que a empresa está discutindo com os EUA sobre o escopo e consequências dos embargos, mesmo ela não sendo uma empresa americana, mas que usa processos desenvolvidos por outras empresas do país, como a Intel. Procurados, tanto o gabinete do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, quanto o ministério de Relações Exteriores da Holanda, se recusaram a comentar o assunto.

Em última análise, especialistas acreditam que as sanções dos EUA contra a China estão tendo o efeito contrário do esperado: ao invés de atrasar o desenvolvimento em semicondutores, que segundo a Casa Branca, seriam usados em componentes bélicos a serem repassados para a Rússia e países do "Eixo do Mal", como Irã e Coreia do Norte, os técnicos chineses estão contornando limitações e estudando novas formas de melhorar as capacidades de máquinas antigas, como a Twinscan NXT:2000i da ASML, modificada para litografias mais baixas.

Em entrevista recente, o engenheiro Burn-Jeng Lin, ex-TSMC, foi categórico ao afirmar que os Estados Unidos "não podem frear" o avanço tecnológico da China em semicondutores. Na prática, as sanções estão acelerando s processos do país, para depender cada vez menos dos rivais.

Fonte: Bloomberg

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