Ronaldo Gogoni 23/04/2026 às 11:25
A saga do Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, Telescópio Espacial Roman (RST), ou simplesmente Roman, está finalmente chegando ao fim: a NASA divulgou uma janela oficial para o lançamento do novo observatório, e a data mais breve possível está logo ali na esquina, em setembro de 2026.
Posicionado como o sucessor de facto do Hubble e com um campo de visão 100 vezes maior, o Roman terá como missão principal localizar e catalogar exoplanetas e servirá como um complemento ao James Webb, este voltado a observar o passado distante do Universo.

Telescópio Nancy Roman passou por vários perrengues durante sua construção e ainda não está 100% seguro (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)
Vamos relembrar: o projeto do Roman teve início em 2012 após a junção de iniciativas separadas, como a Missão Conjunta de Energia Escura (JDEM) e dois telescópios distintos para estudos da matéria escura. Quando o primeiro foi cancelado, a NASA decidiu juntar tuso em um instrumento só, posicionado no ponto Lagrange 2 entre a Terra e o Sol, onde precisará de pouca energia para realizar manobras.
O Roman é equipado com uma lente de 2,4 m de diâmetro, o mesmo tamanho da instalada no Hubble, mas com um campo de visão 100 vezes maior. Ela é capaz de captar panoramas ainda maiores, e a adição de um coronógrafo permite ao observatório bloquear a luz direta de estrelas e estudar suas coroas, e ao mesmo tempo, detectar objetos que seriam ofuscados em uma observação normal, como exoplanetas.
O instrumento funcionará como um complemento ao James Webb que, embora tenha como missão principal observar o Espaço profundo, também pode analisar a composição atmosférica desses planetas distantes; o Roman passará a desempenhar a função do Hubble quando este mergulhar no oceano no futuro, mas como o telescópio ancião continua funcionando bem e dando resultados precisos, apesar dos perrengues, contaremos com três grandes observatórios espaciais operacionais por um bom tempo. Quatro, na verdade, visto que o Roman também vai operar em conjunto com o Observatório de Raios-X Chandra, o mais sensível destinado a captar imagens nesse espectro.
A grande dúvida repousava em quando o Roman seria lançado; as datas mais otimistas previam o início de sua missão para 2027, o que continua sendo o mais provável de acontecer, mas isso não significa que dá para esperar por um adiantamento, desde que as condições sejam favoráveis.

Roman já foi selado, registrado, carimbado, avaliado, rotulado, embalado e está pronto para voar (Crédito: Scott Wiessinger/ NASA)
Na última quarta-feira (22), a agência espacial norte-americana anunciou uma primeira janela de lançamento para o Roman, ainda sem datas definidas, entre setembro de 2026 e maio de 2027. O foguete responsável por colocá-lo em órbita é o Falcon Heavy, mais do que provado como capaz de realizar a empreitada; com 10,5 toneladas, o telescópio será a maior carga já despachada pela plataforma da SpaceX, cujo atual recorde é de 9,2 t do satélite de comunicações Jupiter 3, da Hughes Network.
Em uma declaração dada em 2023, a cientista responsável pelo projeto do Roman, a astrofísica Julie McEnery, disse que o campo de visão maior do telescópio "revelará objetos até então desconhecidos", sendo capaz até mesmo de observar corpos celestes de categorias até então jamais notadas.
O telescópio espacial homenageia a astrônoma Nancy Grace Roman (1925–2018), uma escolha que não foi por acaso. Ela foi a primeira cientista-chefe do departamento de Astronomia da NASA, cargo que ela ocupou por quase 20 anos, e uma das principais advogadas em prol do desenvolvimento de observatórios espaciais, começando pelos OSO, dedicados a analisarem o Sol.
Seu trabalho levou anos depois ao desenvolvimento de instrumentos como o Hubble (do qual ela é considerada a "mãe", apelido que ela mesma não gostava, pois ofuscava as contribuições de inúmeros outros cientistas e a fazia parecer a única responsável), e claro, do James Webb e do Telescópio de Análise de Campo Amplo Infravermelho, rebatizado com seu nome em 2020 pelo então administrador da NASA, Jim Brindestine.
Roman também foi a primeira executiva do sexo feminino da agência e advogou por décadas pela maior participação de mulheres em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).

Dra. Nancy Grace Roman (na foto, dando uma aula sobre o OSO para Buzz Aldrin em 1965), normalmente creditada como a "mãe" do Hubble, foi a primeira chefe do departamento de Astronomia da NASA, de 1960 a 1979 (Crédito: NASA)
Ainda assim, o Telescópio Roman enfrentou uma série de perrengues nos dois mandatos do presidente Donald Trump, e mesmo agora não está 100% seguro.
Mais de uma vez a Casa Branca tentou cancelar o lançamento do projeto, por dois motivos: direcionar o dinheiro dedicado de atuais US$ 3,934 bilhões (~R$ 19,57 bilhões, cotação de 23/04/2026), bem menos que o consumido pelo James Webb, para o foco atual da NASA que é Lua e Marte, e reduzir todo o orçamento que envolva pesquisa científica e, especialmente, que busque estimular STEM e presença de minorias em agências do governo, como definido pelo Projeto 2025 da Heritage Foundation, uma idiotice completa que está sendo seguida à risca.
A proposta de orçamento da NASA de Trump para 2027 repete os mesmos cortes que o presidente dos Estados Unidos não conseguiu implementar em 2026, incluindo o fechamento e consolidação de centros como o Goddard, que administra as missões do Hubble, James Webb e Chandra, e também responde pelo Roman.
A grande diferença dos anos anteriores é o fato de que o atual administrador da NASA, Jared Isaacman, concorda com os cortes propostos e o foco total direcionado à exploração espacial, ainda mais por ter sido chutado do cargo uma vez, e não querer repetir a dose desagradando o chefe.

Centro Goddard está na mira de Trump faz tempo (Crédito: Bill Hrybyk/NASA Goddard Space Flight Center)
O grande problema dos cortes propostos, ainda que não visem cancelar o Roman a essa altura por já estar pronto e devidamente embalado para subir (ele será transportado para o Centro Espacial Kennedy, na Flórida, em junho), seria que a consolidação de centros também envolve demissões em massa e redução violenta da verba, o que deixaria o centro de voos espaciais sem grana até para o básico em terra, quanto mais monitorar o Espaço.
Segundo a narrativa do Executivo, tanto o Roman quanto o Hubble, o Chandra e o James Webb deveriam ser deixados ao léu, pois "não fazem diferença" para o que Trump realmente quer: astronautas americanos na Lua e em Marte, e antes de qualquer outra nação, sejam russos, chineses ou mesmo europeus.
É fato que a discussão sobre o orçamento da NASA levará a mais uma sessão de cabeças batendo no Crongresso, que continua veementemente contra a redução de orçamento da NASA, mas enquanto isso, podemos nos dar ao direito de nos empolgarmos pelo lançamento do Roman nos próximos meses, se tivermos sorte.
Fonte: NASA