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Ex-CEO do Google vai financiar seu próprio Hubble

Organização filantrópica fundada por Eric Schmidt anuncia financiamento de três observatórios e um telescópio espacial, similar ao Hubble

21 semanas atrás

Eric Schmidt, o primeiro CEO e presidente do Google, também está de olho na pesquisa espacial: nesta quarta-feira (7), ele e sua esposa, Wendy, anunciaram um grande plano de investimento em observação do Cosmos, na forma de três observatórios terrestres, e um telescópio espacial similar ao Hubble.

Embora os custos não tenham sido revelados, só o telescópio, que terá o nome Lazuli, deverá consumir algumas centenas de milhões de dólares, sendo ele mais moderno e potente que o observatório ancião, porém funcional, da NASA.

Fundação tocada por Eric Schmidt e sua esposa vai financiar três observatórios e um telescópio espacial (Crédito: Lucy Nicholson/Reuters) / hubble

Fundação tocada por Eric Schmidt e sua esposa vai financiar três observatórios e um telescópio espacial (Crédito: Lucy Nicholson/Reuters)

Eric Schmidt investe pesado em Ciência

Schmidt anda meio enrolado com problemas pessoais e profissionais, mas fora isso, ele e Wendy tocam desde 2024 a Schmidt Sciences, uma organização filantrópica voltada ao financiamento de pesquisas não convencionais no ramo da Ciência, e claro, Inteligência Artificial (IA). O casal investe desde 2009 em oceanografia, e também atua em outras áreas, de desenvolvimento social e até defesa.

O executivo ficou conhecido na cena tech como aquele que fez do Google, uma pequena empresa fundada por Larry Page e Sergey Brin, em uma gigante que assimilou todos os aspectos da vida online, ao ponto de ser alvo constante de reguladores e legisladores. Schmidt também ganhou notoriedade por seu feudo com Steve Jobs, quando este descobriu que o então membro do conselho da Apple usou informações privilegiadas para favorecer o Android.

Os Schmidts rwevelaram, durante conferência realizada na sede da Sociedade Americana de Astronomia (AAS) em Phoenix, Arizona, os detalhes aceca dos quatro projetos que, juntos, formarão o Sistema Schmidt de Observatórios. Começando pelo sistema terrestre, teremos:

  • Argus Array: um conjunto de 1.200 telescópios equipados com lentes de 11 polegadas, voltados a observar todo o céu do hemisfério norte. O sistema, financiado pelos Schmidts e pelo investidor russo-britânico Alex Gerko, deverá entrar em operação em 2027 e ficará sob gestão da Universidade da Carolina do Norte.
    Ele será capaz de capturar objetos de magnitude entre 18 e 19, e ao capturar uma imagem por segundo, permitirá a pesquisadores capturaram "filmes" do céu, e observarem time lapses dentro de até duas horas;
  • Deep Synoptic Array (DSA): um conjunto de 1.650 radiotelescópios equipados com antenas de 6 metros, que será instalado no deserto de Nevada. Ele será administrado pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) e financiado inteiramente pelos Schmidts, voltado a capturar uma imagem do céu a cada 15 minutos.
    Segundo o casal, é mais barato implementar um conjunto desses, do que construir um sucessor de Arecibo;
  • Large Fiber Array Spectroscopic Telescope (LFAST): um conjunto de espectroscópios de pequeno porte, 20 lentes de 80 cm com a mesma função de uma única de 3 metros, para espectrografia de larga escala, mas podendo ser expandido depois.
    Ele será voltado para a busca de assinaturas biológicas em outros mundos.

No entanto, o maior destaque é mesmo o Lazuli, que será o primeiro observatório espacial bancado pela iniciativa privada.

Há uma razão para empreendimentos do tipo não serem patrocinados por gente muito rica, como a Ciência era até antes da Segunda Guerra Mundial: conforme a tecnologia evoluiu, o custo aumentou em conformidade, e ninguém tem tanto dinheiro quanto governos, que assumiram a iniciativa junto a agências, como a NASA e a ESA, e a institutos relacionados.

Diagrama do Observatório Espacial Lazuli (Crédito: Divulgação/Schmidt Observatory System)

Diagrama do Observatório Espacial Lazuli (Crédito: Divulgação/Schmidt Observatory System)

O Lazuli será equipado com uma lente de 3,1 metros, contra a de 2,4 m presente no Hubble, e será posicionado em uma órbita elíptica muito mais alta, com apogeu de 275 mil km e perigeu de 77 mil km, duas vezes mais distante que uma órbita Clarke (geoestacionária). O telesçopio da NASA opera a 500 km de altitude, para dar uma ideia.

Essa posição mais afastada permitirá ao Lazuli captar imagens de objetos mais distantes, sem ser importunado por satélites de internet que operam em órbita baixa (LEO) como os da StarLink, que insistem em photobombar capturas científicas.

Segundo informes, o Lazuli está em construção e deverá ser lançado em 2028, para entrar em plena operação no ano seguinte; no total, o Obervatório Schmidt deverá custar "centenas de milhões de dólares", sem considerar futuras expansões, mas segundo Stuart Feldman, presidente da Schmidt Sciences, a iniciativa representa "uma contribuição significativa" para o progresso científico.

Hubble dará adeus na próxima década

Oficialmente o Hubble já tem um sucessor, o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman (RST) que, se a NASA não passar por mais nenhum perrengue, deverá ser lançado em órbita por volta de 2027; o James Webb opera normalmente, e se o Lazuli for de fato concluído e posto em órbita dentro do prazo, teremos por um não três, mas quatro observatórios em órbita no Espaço.

Vale lembrar que várias vezes, durante seus dois mandatos, o presidente dos EUA Donald Trump tentou cancelar o RST, mas o orçamento da NASA recém-definido do Congresso para 2026 sofreu redução de apenas 1% em relação ao do ano anterior, e assim, tudo deverá transcorrer pelos próximos meses com certa tranquilidade; ainda que reste ser votado e sancionado, dificilmente a Casa Branca colocará novos empecilhos.

Enquanto isso, o Hubble passou por poucas e boas nos últimos anos. Por não mais contar com manutenção desde o fim do programa dos ônibus espaciais, os problemas começaram a aparecer e se acumular com o passar do tempo:

  • Em 2018, uma falha em um giroscópio foi resolvida com o método Roy Trenneman e algumas manobras;
  • Em 2021, um bug na Unidade de Controle de Energia (PCU) na Unidade de Comando de Instrumentos Científicos e Manipulação de Dados (SI C&DH) forçou a NASA a ativar o backup completo do conjunto, isolando o principal;
  • Ainda em 2021, o telescópio começou a apresentar falhas de sincronização, resolvidas;
  • Em 2024, quatro dos seis giroscópios do Hubble já haviam pifado; um está sendo mantido desligado como backup, enquanto ele é manobrado por apenas um.

Na mesma época, a NASA admitiu que, com a órbita do telescópio diminuindo e sem ter como fazer manutenção local, o Hubble eventualmente entraria em uma zona de não-retorno, sendo impossível sua recuperação; a SpaceX até se ofereceu para repará-lo e rebocá-lo em direção a uma órbita mais alta, mas a agência rejeitou o plano, classificando-o como "imprudente e imaturo".

E mesmo que houvesse a possibilidade, não há necessidade de fazê-lo tendo o James Webb em operação, e no futuro, o Nancy Grace Roman o substituirá de facto.

Ainda funcional, Hubble deverá mergulhar no oceano por volta de 2035 (Crédito: Divulgação/NASA)

Ainda funcional, Hubble deverá mergulhar no oceano por volta de 2035 (Crédito: Divulgação/NASA)

Embora seja triste, a perda do Hubble em um futuro agora inevitável é uma realidade que a NASA sempre levou em conta, desde o fim dos shuttles. Não há nada minimamente preparado para dar manutenção em telescópios espaciais in loco, e a Estação Espacial Internacional (ISS), que também está capengando, não pode ser livremente manobrada para isso.

Ainda assim, o Hubble deverá seguir firme até o inevitável fim, captando imagens estonteantes do Universo enquanto puder.

Fonte: Ars Technica

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