Ronaldo Gogoni 10 semanas atrás
Desde que soluções generativas de Inteligência Artificial (IA) explodiram em popularidade, companhias vêm fazendo de tudo para adotar o recurso em seus fluxos de trabalho para cortar custos, o que não raro se reverte em demissões. O mercado de games não é exceção, como o mais recente relatório da GDC Festival of Games deixou claro.
Por estes e outros motivos, uma parcela do público se tornou bastante vocal quanto à adoção de IA no desenvolvimento de games, não importa em que nível ou para qual finalidade, se vai parar no produto final ou não, mas uma pesquisa recente revelou que, sem muita surpresa, a grande maioria dos gamers não está nem aí para isso.

Não que fosse surpresa, mas a maioria do público só quer jogar e não se importa se um game usa IA ou não (Crédito: Reprodução/acervo internet)
A informação veio de Mat Piscatella, conselheiro sênior sobre a indústria de games da Circana, companhia de análise antes conhecida como NPD Group. Uma pesquisa recente realizada pelo grupo perguntou a pouco mais de 2,5 mil pessoas nos Estados Unidos em duas rodadas, março de 2024 e dezembro de 2025, sobre como elas se sentiriam se descobrissem que IAs generativas foram usadas no desenvolvimento de um game, fosse em arte, narrativa, diálogos, música ou texto.
Os resultados mostram aquilo que muitos já imaginavam: a parcela vocal do público que advoga contra qualquer tipo de uso de soluções generativas em games, não importando como e se vão parar no produto final ou não, é uma minoria barulhenta. Aqueles que responderam que se recusariam a comprar um games nessas condições, ou que se sentiriam menos propensos a fazê-lo, oscilaram de 22% para aproximadamente 27% em menos de dois anos, mas ainda assim não chega a um terço do montante.
Os que responderam serem mais inclinados a comprar um game com IA são a menor parcela dos entrevistados, respondendo por 9% em 2024 e 8% em 2025, enquanto os que não têm certeza foram de 23% para 13%. No entanto, a grande maioria dos questionados respondeu que tal desenvolvimento não geraria nenhum impacto, ou seja, eles não dão a mínima se um game tem IA ou não; esses eram 46% dos ouvidos na primeira entrevista e 52% na segunda.
Somando os indiferentes à IA aos favoráveis, temos 54% dos entrevistados em março de 2024 e 60% em dezembro de 2025 que ou não ligam para a implementação de algoritmos nos games que pretendem comprar, ou se mostram mais inclinados às possíveis adições que a ferramenta poderá prover, como menos tempo de desenvolvimento.
Não foram poucos os games que admitiram, de uma forma ou outra, terem usado IA em algum momento do desenvolvimento. A presença de ilustrações criadas com soluções generativas em Crimson Desert, descoberta pelos jogadores, é apenas o caso mais recente; desenvolvimentos passados incluem títulos como Arc Raiders, Call of Duty: Black Ops 6 e BO7, High on Life e até mesmo o aclamado RPG Clair Obscur: Expedition 33.
A descoberta de assets criados por IAs generativas custou à Sandfall Interactive os prêmios de Jogo do Ano e Jogo Estreante pelo Indie Game Awards, que foram concedidos aos então segundos colocados, Blue Prince e Sorry We're Closed, respectivamente.

De Crimson Desert a Clair Obscur: Expedition 33, vários foram os games pegos deixando conteúdos gerados por IA "escorregar" para o produto final (Crédito: Reprodução/Pearl Abyss)
Na maioria das vezes, os estúdios pegos com a boca na botija usam a carta do "foi mal, tava doidão", ao alegarem que as artes em questão eram placeholders planejados para serem removidos antes da finalização do desenvolvimento, o que acaba "frequentemente" não acontecendo. A ala anti-IA, de ancinhos, tochas e controles na mão, argumenta que "IA boa é IA nenhuma" e defende total boicote dos títulos que apelam para algoritmos em qualquer aplicação, sob a justificativa de que tiram empregos enquanto executivos e acionistas enchem os bolsos.
Essa turma não está totalmente sem razão; é fato que a IA está desempregando devs no mercado de games, com estúdios eliminando funções "redundantes" e passando o trabalho menor para soluções generativas. Profissionais que se recusam a usar as novas ferramentas também são dispensados, o que afeta mais a ala jovem do que os veteranos, estes cientes de que a indústria funciona desde sempre na base do "evolua ou morra": ou você se adapta, ou vai para a rua. Dario Amodei, CEO da enrolada Anthropic, defende essa ideia há tempos.
Do outro lado, há quem diga que a IA é inevitável, um desses sendo Mike Ybarra, ex-presidente da Blizzard, que não só condenou o pedido de desculpas da Pearl Abyss pelas artes generativas inclusas em Crimson Desert, como foi bem vocal com aqueles que protestam contra a inclusão de soluções generativas em games, tendo basicamente os chamado de luditas:
"Por quê estão se desculpando? IA, de uma forma ou de outra, estará presente em todos os games.
Eu não entendo por que desenvolvedores precisam abaixar a cabeça para os poucos que não aceitam a realidade de que a IA estará em tudo - de games a geladeiras (e já está).
Cresçam."
Vendo os resultados da pesquisa realizada pela Circana, ainda que restrita aos Estados Unidos, Ybarra não está tão errado ao afirmar que a maioria do público será indiferente à inclusão de IA em games; esses só querem jogar.
Se soluções generativas levarem a títulos saindo mais rápido com qualidade, que seja — mesmo que isso leve à demissão de inúmeros profissionais e à exposição dos que sobrarem ao temido e odiado crunch.
Fonte: GameSpot