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Square Enix promete apostar pesado na IA

Em carta com as resoluções para 2024, presidente da Square Enix declara que a empresa adotará a inteligência artificial de forma agressiva na criação de jogos

03/01/2024 às 9:20

Em 2023, talvez nenhum assunto tenha sido tão debatido quanto a utilização da inteligência artificial, nos mais variados ramos. De um lado temos aqueles que a defendem para otimizar serviços, enquanto outros questionam a ética envolvida nesse processo. Os videogames obviamente não ficariam fora dessa discussão e uma empresa que não parece ter o menor receio de abraçar a tecnologia é a Square Enix.

Final Fantasy - Square Enix

Crédito: Reprodução/Dori Prata/Stable Diffusion

Em uma carta voltada aos funcionários da empresa, o presidente Takashi Kiryu revelou os planos da Square Enix para 2024, citando tecnologias como realidade virtual, blockchain, metaverso e inteligência artificial. Sobre esse tema especificamente, ele escreveu:

“A inteligência artificial e suas potenciais implicações tem sido, há bastante tempo, tema de debates acadêmicos. Contudo, a introdução do ChatGPT, que permite que qualquer pessoa facilmente produza textos, traduções ou se envolva em diálogos baseados em textos, desencadeou a rápida disseminação de IAs generativas. O seu lançamento tornou evidente que a aplicabilidade da IA generativa não se limitava de forma alguma a textos e nos meses seguintes vimos uma rápida sucessão de lançamentos de novos serviços e conteúdo que expandiram a IA generativa para uma variedade de domínios com laços estreitos com o entretenimento digital, incluindo imagens, vídeos e músicas. Acredito que a IA generativa tem o potencial não apenas de remodelar o que criamos, mas também de mudar fundamentalmente os processos pelos quais criamos, incluindo a programação.”

Na sequência, o executivo deixou claro a intenção da empresa em adotar de forma agressiva a utilização da inteligência artificial e de outras tecnologias. “No curto prazo, nosso objetivo será aumentar nossa produtividade de desenvolvimento e alcançar maior satisfação nos nossos esforços de marketing,” afirmou. “A longo prazo, esperamos aproveitar essas tecnologias para criar novas formas de conteúdo para os consumidores, pois acreditamos que a inovação tecnológica representa oportunidades de negócios.”

Crédito: Reprodução/Dori Prata/Stable Diffusion

O posicionamento de Takashi Kiryu não foi muito bem recebido por parte do público, especialmente após a imagem carismática que o presidente demonstrou ao apresentar o Final Fantasy XVI, quando declarou sua paixão pela franquia criada por Hironobu Sakaguchi. Por mais que muitas pessoas não vejam problema na utilização de inteligência artificial no desenvolvimento de jogos, o problema aqui foi o timing.

Em 2023 vimos a indústria de games ser atingida por uma imensa onda de demissões, com muitas empresas e profissionais sendo atingidos. Como disse Kiryu, em 2023 o mundo se viu no meio de crises geopolíticas e inflação, mas para os críticos da IA generativa, parte dessas demissões pode ser creditada a maneira como as empresas têm utilizado a tecnologia para fazer o trabalho que antes precisaria de vários profissionais e muito mais tempo.

Mas se essa é uma tendência que só bateu à porta das desenvolvedoras de jogos nos últimos meses, o mesmo não pode ser dito do cinema. Um exemplo disso é Homem-Aranha: No Aranhaverso, animação muito elogiada pela sua arte, mas o que nem todos sabem é que o supervisor de efeitos daquela produção, Pav Grochola, recorreu ao machine learning para desenhar as linhas que imitam uma história em quadrinhos e assim conseguiu economizar centenas de horas de trabalho.

Também tem se tornado cada vez mais comum vermos artistas conceituais recorrerem à tecnologia como fonte de inspiração e para quem trabalha com programação, deixar que uma máquina crie o esboço de um código deixou de ser algo de outro mundo.

Crédito: Reprodução/Dori Prata/Stable Diffusion

Nos games, a Square Enix não está sozinha quando defende a adoção da inteligência artificial na produção. Em outubro, a presidente da EA Entertainment, Laura Miele, foi uma que declarou como isso pode lhes ajudar. “[A IA] definitivamente otimizará o que temos de ferramentas e fluxos de trabalho, ajudando nossos desenvolvedores e jogadores a criarem melhores experiências. Também será um expansor significativos de conteúdo e frequência com que aparecemos,” disse.

Outro que também demonstrou muita empolgação com a IA foi Phil Spencer. O CEO da Microsoft Gaming revelou que os profissionais da empresa têm passado bastante tempo com os engenheiros de inteligência artificial para fazer com que a tecnologia facilite suas vidas. “Seja simulando física, seja renderizando objetos, seja como uma excelente tecnologia de áudio, o que descobri é que quando você dá novas ferramentas aos nossos criadores para brincarem, eles então trabalham nelas,” garantiu Spencer.

No caso da Square Enix, o que podemos questionar é até que ponto a empresa conhece o terreno em que está pisando e como ela realmente se beneficiará do que encontrar por lá. Digo isso porque lá se vão dois anos desde a decisão da editora em apostar no blockchain, NFTs e Web 3.0, mas por enquanto, de impactante nessa área só vimos a venda de seus estúdios ocidentais.

Dragon Quest - Square Enix

Crédito: Reprodução/Dori Prata/Stable Diffusion

Vale citar que em sua resolução de ano novo publicada em janeiro de 2023, o então presidente, Yosuke Matsuda, reforçou o interesse da empresa no blockchain, mas até agora, pouco vimos sobre o principal projeto neste sentido, o jogo Symbiogenesis. Será então que essa promessa de aposta na inteligência artificial será realmente cumprida? Será que o projeto ainda deverá demorar alguns anos até se tornar tão útil quanto Takashi Kiryu espera?

Talvez tudo não passe mesmo de uma questão de tempo, com a Square Enix, a Ubisoft, a Take-Two , a Nvidia e tantas outras eventualmente se rendendo às (supostas) maravilhas proporcionadas pela inteligência artificial.

Se isso dará origem a jogos ainda mais pasteurizados do que aqueles que costumamos ver sendo publicado pelas grandes editoras e se a IA será usada apenas para ajudar os programadores, artistas e roteiristas, ou se servirá como catalisador para muitas outras demissões, essa é outra discussão. O fato é que agora, com o gênio já fora da garrafa, quem conseguirá prendê-lo novamente?

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