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França: Macron sobre games, violência, e restrições para jovens

Enquanto celebra o sucesso de Clair Obscur: Expedition 33, presidente da França sugere regulação de games e imposição de restrições a jovens

16 semanas atrás

Videogames podem divertir, inspirar, motivar pessoas a serem melhores e até despertar interesse em uma carreira específica, mas para muita gente os "joguinhos" só servem para incitar a violência, estimular o ódio, e causar transtornos mentais, como estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Por isso nem surpreende que o presidente da França, Emmanuel Macron, seja o mais recente político a engrossar esse coro.

Em um típico momento de "morde e assopra", enquanto celebra o reconhecimento de Clair Obscur: Expedition 33 como um patrimônio da cultura francesa, Macron sugeriu que games não devem ficar imunes de escrutínio estatal sobre conteúdos violentos, e sugeriu inclusive a imposição de restrições de acesso a títulos online por menores de idade.

Emmanuel Macron é o político da vez a mencionar a relação espúria entre videogames e incitação à violência (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Emmanuel Macron é o político da vez a mencionar a relação espúria entre videogames e incitação à violência (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Emmanuel Macron e o "here we go again"

No dia 5 de fevereiro de 2026, Macron concedeu uma entrevista de 50 minutos ao canal de mídia francês Brut, onde discutiu sobre medidas recentes que o governo está tomando contra redes sociais, no caso, implementar um banimento a menores de 15 anos, de forma similar ao que já foi feito na Austrália.

Vale lembrar que este é um efeito global em reação a abusos cometidos por plataformas digitais; Reino Unido, Itália, Grécia, Noruega, Áustria, Canadá, Índia, Malásia, Indonésia e alguns estados dos EUA consideram tomar medidas similares; no Brasil, uma proposta de alteração do ECA Digital, que não discorria sobre o assunto, foi recentemente apresentada no Congresso.

Em um determinado momento a conversa se voltou para os videogames, com Macron fazendo a correlação espúria, e nunca cientificamente comprovada, de que jogos incitam a violência e dessensibilizam o público:

"A violência se enraizando entre os mais jovens de nossa sociedade também está ligada ao fato de que crianças e adolescentes estão muito mais expostos à violência, graças aos vídeos em que assistem nas redes sociais, e aos games que jogam (...).

(Videogames) onde você atira em todo mundo, incluindo Fortnite, não são a realidade, porque distorcem a percepção da violência. Quando você passa cinco ou seis horas por dia matando pessoas (...), isso condiciona os jovens (...), os desinibe, e às vezes, os leva a cometerem os piores atos."

A discussão sobre se videogames estimulam ou não a violência é antiga e nunca chegará ao fim, reconheçamos de uma vez. Contudo, vários estudos conduzidos (os sérios, e com revisão de pares) ao longo dos anos falharam em notar a mais tênue associação possível.

Em 2015 o Dr. Patrick M. Markey, professor de Psicologia e Ciências do Cérebro da Universidade Villanova, comentou em sua pesquisa que, considerando que na época 90% dos jovens jogavam, tentar associar o acesso a games violentos à ocorrência de atos como ataques em escolas, "é o mesmo que dizer que o assassino usava meias".

Emmanuel Macron reconheceu durante a entrevista que videogames podem fazer o bem e que não é certo "jogar todos na mesma cesta", mas, por outro lado, anunciou a criação de uma força-tarefa formada por especialistas do Conselho Digital da França, para "medir cientificamente" o efeito dos videogames nos jovens uma avaliação que deverá ser concluída até abril de 2026.

Conforme o relatório final do órgão, o governo francês tomará medidas que podem escalar até mesmo para o banimento do acesso por jovens a certos títulos, de forma similar ao proposto para as redes sociais. A citação específica de Fortnite, mesmo sendo um dos jogos de tiro competitivos mais cartunescos do mercado, não foi aleatória: o game da Epic Games e Roblox são criticados há anos por suas práticas viciantes envolvendo caixas de loot e compras in-game.

Este último tem o adicional de ser acusado de facilitar abusos contra menores, ao não fazer o mínimo necessário para protegê-los.

Fortnite foi especificamente citado por Macron como exemplo de game que banaliza e incentiva a violência (Crédito: Divulgação/Epic Games)

Fortnite foi especificamente citado por Macron como exemplo de game que banaliza e incentiva a violência (Crédito: Divulgação/Epic Games)

Claro, as declarações de Macron desencadearam um volume imenso de reações contra, no que o presidente da França alegou em uma postagem no LinkedIn ter sido "mal interpretado", fazendo uso inclusive do inevitável meme envolvendo CJ, de Grand Theft Auto: San Andreas. Ao mesmo tempo, ele reforçou a necessidade de um debate sobre os supostos malefícios dos games violentos, e mencionou outra possível medida a ser tomada:

Mais uma vez, desagradei os jogadores… Notei muitos mal-entendidos. Então, deixe-me ser claro.

Os fatos: sempre apoiei os videogames e a cultura pop — a indústria, sua criação, sua cultura e seus empregos. Homenageei os esports franceses no Palácio do Eliseu e me comprometi a estruturar o setor e atrair grandes eventos para a França, o que fizemos.

Reconhecemos as equipes da Sandfall e, melhor ainda, apoio a participação de nossas equipes (Karmine, Vitality, Gentle Mates, etc.) na criação de uma seleção francesa de videogames para uma competição global.

Há tantas joias francesas com influência global! Podemos nos orgulhar muito delas.

Mas apoiar uma indústria e uma cultura não impede que façamos uma pergunta simples, sem recorrer a caricaturas: quais são os efeitos de certos conteúdos e certos usos nas gerações mais jovens?

Pais têm observado que alguns jovens passam seus dias e, às vezes, suas noites jogando videogames. Também tem sido relatado com frequência que crianças estão jogando jogos classificados como PEGI-18 (voltados exclusivamente a adultos, não raro, games pr0n e/ou com violência explícita/gore).

Isso levanta uma importante questão de saúde pública, educação e responsabilidade. Para a saúde física, particularmente a saúde ocular, e para a saúde mental, quando um jovem deixa de sair de casa por jogar excessivamente, certamente é motivo de preocupação e precisamos abordar o assunto.

O que anunciei no Brut, em resposta a essa professora que expressou sua indignação, não é uma proibição de videogames: é o lançamento de um estudo científico colaborativo para confrontar a realidade de frente. Com calma, clareza e com todas as partes interessadas.

É nossa responsabilidade pedir a pesquisadores, cientistas e médicos que avaliem os impactos, desvendem equívocos e informem o debate público.

É exatamente isso que estou fazendo: estou abrindo um debate sério, informado e calmo, que espero que evite simplificações excessivas.

Você pode amar videogames, ter orgulho deles e, ao mesmo tempo, analisar criticamente certas práticas e seus efeitos.

A explicação de Macron é até certo ponto sensata, mas a citação ao "tempo demais jogando" sem especificar games violentos sugere, assim como discussões sobre a imposição de tempo de tela a jovens em apps e redes (algo que o TikTok será obrigado a implementar na União Europeia), que o mesmo poderá ser feito em relação a jogos em geral, similar ao que a China já fez.

Tal medida muito provavelmente seria tomada forçando as lojas digitais de consoles, PC e dispositivos móveis a identificarem os jogadores, monitorarem seu tempo de jogo estando conectados (não importando se o título é online ou offline), e a bloquearem o acesso de menores quando esses ultrapassarem suas cotas diárias de jogatina.

Na China, menores são limitados a 3 horas de jogos online por semana, somente nas sextas-feiras, sábados, domingos e feriados, e em uma janela de tempo fixa, entre as 20:00 e 21:00.

Clair Obscur: Expedition 33 (Crédito: Divulgação/ Sandfall Interactive/Kepler Interactive)

Apesar dos pesares, Macron tem elogiado Clair Obscur: Expedition 33 por divulgar a cultura francesa ao redor do mundo (Crédito: Divulgação/ Sandfall Interactive/Kepler Interactive)

França condecorou devs de Clair Obscur: Expedition 33

Macron não tem desferido apenas pedradas contra os games, e na declaração publicada no LinkedIn teceu elogios a três times de eSports locais, Karmine, Vitality e Gentle Mates, citando apoio à formação de uma seleção francesa para participar em torneios. Ele também mencionou (de uma forma um tanto óbvia, convenhamos) a Sandfall Interactive, estúdio responsável pelo fantástico RPG de turnos Clair Obscur: Expedition 33, aclamado por público e crítica como um dos melhores games de 2025, senão o melhor.

Em dezembro de 2025, o presidente da França parabenizou o time de desenvolvedores da Sandfall pelo feito impressionante alcançado na última edição do The Game Awards, onde seu jogo de estreia foi o mais indicado e o mais premiado da história do evento, sendo indicado 13 vezes a agraciado com 9 prêmios, incluindo o de Jogo do Ano, o mais importante.

No início de fevereiro de 2026, 28 desenvolvedores da Sandfall foram condecorados pela Ordem das Artes e Letras da França, com vários títulos variando entre comandante, oficial e cavaleiro (mas diferente da Ordem do Império Britânico, os agraciados franceses não podem adicionar Sir, Dame, e afins em seus nomes), por suas contribuições em divulgar e promover a cultura francesa ao redor do mundo.

A ministra da Cultura da França, Rachida Dati, disse durante o evento que o governo celebra o título "pela escala, impacto e suporte do público e crítica", em que Clair Obscur: Expedition 33 "se estabeleceu como um grande momento na história dos games franceses".

Há quem diga que Macron e o governo francês estão incensando Clair Obscur: Expedition 33 por conveniência, o que é ÓBVIO, isso é o que políticos fazem o tempo todo, mas é impossível negar a qualidade do game da Sandfall nascido da paixão dos devs pelos JRPGs, uma experiência orgânica e com grande peso emocional, em um nível que o Japão hoje não consegue entregar, nem mesmo os grandes estúdios considerados baluartes do gênero.

No entanto, Macron lembra no post do LinkedIn que apoiar a indústria de games por eventuais contribuições culturais não a exime, sob sua ótica, de submetê-la ao escrutínio e regulação estatal; é preciso lembrar que a União Europeia cogitou anos atrás impor limites de acesso a jogos de modo similar, mas não tão rígido (assim acredita-se) quanto o modelo chinês, com decisões a serem tomadas sobre classificação indicativa, designs viciantes, monetização desenfreada, e tempo de jogatina.

A UE inclusive não descarta estimular (leia-se forçar) desenvolvedores a evitarem certos temas e designs, no que o combate generalizado às caixas de loot anos atrás foi o melhor exemplo. Quem não se adequar seria forçado pela Lei a fazê-lo, como o TikTok deverá fazer ao ser obrigado a dar cabo do "scroll infinito" na Europa; quem se recusar, não será permitido fazer negócios no bloco, sejam redes sociais ou games.

28 desenvolvedores da Sandfall foram condecorados pela Ordem de Artes e Letras da França; alguns compareceram vestidos "a caráter" (Crédito: Sandfall Interactive)

28 desenvolvedores da Sandfall foram condecorados pela Ordem das Artes e Letras da França; alguns compareceram vestidos "a caráter" (Crédito: Sandfall Interactive)

Recentemente a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou que somente a UE tem autoridade para impor medidas de restrição de acesso a redes sociais por jovens nos 27 países-membros, e classificou medidas individuais de países como França, Espanha e Itália como manifestações locais de insatisfação com a morosidade do bloco, no que decidiram agir por conta própria.

Embora a intenção destes seja válida, ela lembrou que países não podem individualmente tomar decisões que afetem os vizinhos, e que a implementação de tais medidas deve ser uniforme; ao mesmo tempo, vale lembrar que decisões partidas da França, Alemanha e Itália costumam escalar para toda a UE posteriormente, no que o exemplo mais recente foi o ban do ChapGPT na Itália espiralando para a criação das leis e regulações locais das IAs generativas.

Com isso, caso a França decida mesmo instituir restrições a games no futuro, grandes são as chances que a medida seja posteriormente implementada em toda a UE, e seja adotada por outros países, o Brasil sendo um deles.

Fonte: Le Monde, LinkedIn, GamesIndustry.biz

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