Resenha — Vingadores: Guerra Infinita (sem spoilers)

Enfim chegou a hora. Vingadores: Guerra Infinita finalmente está em cartaz, e é o resultado de uma década de um trabalho minucioso da Disney e Marvel Studios para realizar o que décadas parecia impossível: criar um universo de heróis de quadrinhos críveis e que não parecem ridículos para o cinema. Esta é a obra para a qual tudo o que foi feito até agora se encaminhou, uma reunião dos melhores dos melhores contra o vilão mais poderoso do universo.

Acompanhe nossa resenha sem spoilers do filme.

Previously…

Como Tony Stark diz no filme, tudo levou para este momento. Foram precisos 10 anos e 18 produções cinematográficas para preparar o terreno adequadamente e lançar na tela grande o que funciona muito bem nos quadrinhos, uma megassaga reunindo os maiores heróis da casa contra um inimigo comum. A Disney não economizou, Guerra Infinita é até o momento o filme mais caro do Marvel Cinematic Universe e pode se tornar o mais caro da história, com um budget estimado entre US$ 300 milhões (o mesmo de Liga da Justiça) e US$ 400 milhões (o que o faria ultrapassar o primeiro colocado Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas e seus US$ 378,5 milhões, já corrigidos pela inflação). Só o ator Robert Downey Jr., que de longe é o salário mais caro embolsou US$ 50 milhões do montante, e mais cinquentinha para a sequência.

O enredo é básico: Thanos (Josh Brolin), o vilão de pele roxa e queixo esquisito que apareceu aqui e ali coloca finalmente seu plano para reunir as Joias do Infinito, seis gemas de poder incomensurável tão antigas quanto o próprio universo. Cada uma delas confere controle total sobre cada um dos aspectos da existência: Poder, Espaço, Realidade, Tempo, Mente e Alma. Ele e seus asseclas irão atrás de todos os que possuem acesso a uma das joias, o que coloca o titã em rota de colisão com todos os heróis do universo, sejam os da Terra ou os do espaço.

Afinal, quem diabos é Thanos?

Hora do Meio Bit 101 Comics: criação de Jim Starlin e Mike Friedrich, o vilão apareceu pela primeira vez em Iron Man #55, em 1973. Como membro da raça dos eternos ele é praticamente imortal e extremamente poderoso, mas o que o define nos quadrinhos é a sua paixão obsessiva pela personificação da Morte, a quem ele vê como sua igual. Considerado por alguns um copy-paste de Darkseid, criação de Jack Kirby (ele surgiu em 1971) e um dos maiores vilões da DC, ele é um niilista que busca matar tudo o que vive e oferecer tal ato como tributo à sua amada.

Mais de uma vez Thanos esteve perto de alcançar seus objetivos, sendo a saga Desafio Infinito a mais lembrada: nela o titã reúne as joias para cumprir a missão que lhe foi dada pela Morte, de matar metade dos viventes do universo. O que ela não sabia, entretanto é que ao reunir as gemas Thanos se tornou o deus supremo, com mais poder do que ela própria.

Ainda assim, ele cumpriu a promessa com um único estalar de dedos.

Thanos já foi confrontado por praticamente todos os heróis do universo Marvel, mas ninguém conseguiu vencê-lo de forma tão espetacular e completa do que ele próprio. Inconscientemente o titã sabe que não merece o poder absoluto que reúne para cumprir com seus objetivos (ele o fez pelo menos cinco vezes), e em todas as ocasiões acabou involuntariamente fornecendo os meios para ser derrotado.

Mas falando do filme…

Em Vingadores: Guerra Infinita Thanos é um pouco diferente em suas motivações em relação à sua contraparte das HQs, mas a missão é a mesma da série Desafio Infinito: dar cabo de 50% da população de todo o universo. O filme começa de onde a cena extra de Thor: Ragnarok parou, com os refugiados de Sakaar dando de cara com a nave do titã. O motivo é óbvio, o tonto do Loki (Tom Hiddleston) roubou outra vez o Tesseract, que é a joia do Espaço.

A versão em CGi de Thanos gerou uma série de reclamações nas redes sociais mas francamente, o visual do vilão está muito bom. Ele não usa a armadura clássica provavelmente para economizar na renderização, ele só aparece a trajando no começo, por uns dois minutos e em flashback. Porém a interpretação de Brolin está muito boa como uma criatura com um propósito claro em mente, e que vai fazer o que for preciso para alcançar seus objetivos.

Inclusive jogar uma lua na cabeça dos heróis. Literalmente.

Não há como dizer de outra forma, este filme é do Thanos e tão somente. Ele é quem detém mais tempo de tela proporcionalmente falando, indo de um ponto a outro da galáxia reunindo as joias e sempre um passo à frente dos heróis, o que faz de Guerra Infinita um Prenda-me Se For Capaz com heróis. Essa exposição do vilão dita o ritmo, está todo mundo correndo contra o tempo para impedi-lo de reunir tamanho poder.

Ele conta não só com habilidades físicas fora de série (mesmo sem as joias ele é mais forte que o Hulk), mas com a assistência de sua Ordem Negra: Corvus Glaive, Próxima Meia-Noite, Cull Obsidian e Boca de Ébano são poderosíssimos por si só e darão muito trabalho aos heróis.

O time de resistência se divide em três frentes: Homem de Ferro, Doutor Estranho e Homem-Aranha são a primeira linha de frente na Terra e posteriormente no espaço, quando se unem aos Guardiões que já estavam caçando Thanos por conta própria; já em Wakanda, o time do Capitão se une ao Máquina de Combate, Hulk e o Pantera Negra para rechaçar uma invasão total ao país oculto que vimos recentemente, enquanto Thor embarca numa missão própria em busca de algo poderoso o bastante para matar o titã.

Uma das partes mais hilárias do filme é o embate entre os egos gigantescos de Stark e Strange, sendo que este não só se recusa a receber ordens como fará o que for preciso para proteger o Olho de Agamotto (a joia do Tempo) e a realidade como um todo, mesmo que isso signifique deixar todo mundo para trás. Da mesma forma há as piadas ocasionais de Quill e Drax, bem como o Aranha que não se aguenta e continua fazendo referências a “filmes antigões”.

Porém o humor é mais contido. O tema do filme não permite um maior foco em outros personagens, mas pelo menos três tiveram destaque dado o roteiro: primeiro, o passado de Gamora (Zoë Saldana) foi finalmente revelado, como ela foi adotada por Thanos e sua relação com o titã é destrinchada, o que permitiu à personagem crescer e ser muito mais do que “a mulher mais perigosa da galáxia”. No fundo ela é mais uma vítima, mas possui os meios para virar a situação a favor dos heróis e frustrar os planos de Thanos.

O mesmo pode ser dito da relação entre Visão (Paul Bettany) e Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), que como na HQ escalou para um romance dos mais estranhos. O filme desenvolve como ambos buscam permanecer alheios num primeiro momento ao que acontece ao redor, mas como o sintozoide usa a joia da Mente na testa ele é um alvo, e o poder que Wanda possui também lhe oferece potencial para passar a perna no titã.

No entanto os irmãos Russo foram ousados num ponto: este não é um filme de heróis onde você consegue ver o final à distância e tudo vai dar certo, as apostas são altas demais e sacrifícios enormes deverão ser feitos. Ao fim do filme a sensação que fica é de incredulidade, empolgação e revolta, ao mesmo tempo de satisfação por ter  enfim visto um festival de heróis em uma guerra total pelo destino do universo.

Tecnicamente a ação é ininterrupta, a música a cargo novamente do bruxo Alan Silvestri é perfeita e ele brinca reproduzindo temas de outros filmes e compositores, como o do Pantera Negra de Kendrick Lamar, o clássico do Homem-Aranha ou do Capitão América, composto por ele próprio para O Primeiro Vingador.

Tem Stan Lee?

Sim, como sempre e numa inserção bem divertida. Aliás, aparecem certos personagens que não víamos há algum tempo no cinema.

Tem cenas pós-créditos?

Apenas uma, no fim de tudo e já deixa claro que a guerra apenas começou.

Qual a filmografia básica para assistir antes de Guerra Infinita?

No mínimo todos os filmes que giram em torno das Joias do Infinito, com algumas adições:

  • Capitão América: O Primeiro Vingador;
  • Os Vingadores;
  • Thor: O Mundo Sombrio;
  • Guardiões da Galáxia;
  • Vingadores: A Era de Ultron (onde Thor descobre a verdade sobre as joias);
  • Capitão América: Guerra Civil (para entender por que os heróis da Terra estão de mal entre si);
  • Doutor Estranho.

Conclusão

Assim como Liga da JustiçaGuerra Infinita não é uma Graphic Novel e sim a primeira edição de uma megassaga, com todas as qualidades e defeitos do gênero. É um filme absurdamente divertido, em que todos os heróis possuem seu momento mas não se engane, o astro da história é Thanos. Os irmãos Russo fizeram um filme de perseguição, em que o vilão está sempre um passo à frente dos heróis e adicionaram altas doses de fanservice, aquilo que os chatos de plantão odeiam mas convenhamos: se eu sou fã de quadrinhos e estou pagando, eu quero mais é que tenha saindo pelo ladrão.

Guerra Infinita precisa antes de tudo ser um pipocão sem culpa, com heróis e vilões caindo na porrada como foi a Saga do Infinito nos quadrinhos e nisso, o filme entrega o que promete.

Por razões óbvias, entretanto a obra dosa tudo com parcimônia. Há protagonistas demais, logo você não vai ver um foco concentrado em nenhum deles além dos três núcleos principais, Stark/Estranho, Feiticeira Escarlate/Visão e Thor, que está num humor muito diferente do visto em seu terceiro filme. Isso gera problemas, você quer ver mais do Capitão América, do Pantera Negra, dos Guardiões da Galáxia, mas não dá para administrar todos em apenas 149 minutos. Thanos é o elo de ligação entre todos eles e de fato, é quem tem mais tempo de tela. Consequentemente, isso permitiu que soubéssemos mais sobre Gamora e a personagem cresceu de uma forma além da vista nos dois Guardiões da Galáxia.

Ainda assim, os Russo subverteram tudo o que se espera de um filme de super-heróis e deixa o espectador grudado na cadeira, e com a sensação de “é sério mesmo?” ao sair da sala de projeção. Há humor, drama, romance mas acima de tudo este é um dia como nenhum outro, em que os maiores heróis da Terra se uniram contra um inimigo comum mas que mesmo eles talvez não sejam capazes de deter, e isso causa surpresa, indignação e claro, MUITA expectativa. No fim, Vingadores: Guerra Infinita conseguiu gerar no público uma fome infinita (hehe) pela continuação, que tem data de estreia prevista para 03 de maio de 2019.

Eu sinceramente mal posso esperar pelo que virá a seguir.

Cotação:

Quatro de cinco “manoplas do Infinito” de kriptonita do Batman.

O Meio Bit compareceu à cabine de imprensa de Vingadores: Guerra Infinita a convite da Disney.

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Autor: Ronaldo Gogoni

Profissional de TI auto-didata, blogueiro que acha que é jornalista e careca por opção. Autor do Meio Bit e Portal Deviante, podcaster/membro fundador/Mestre Ancião do SciCast e host/podcaster do Sala da Justiça.

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