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Resenha: WiFi Ralph — Quebrando a Internet (sem spoilers)

Confira nossa resenha de WiFi Ralph — Quebrando a Internet, a sequência do filme de 2012 que vem para detonar (o que Ralph faz de melhor) a web

30/11/2018 às 9:30

WiFi Ralph — Quebrando a Internet é o 57° filme do Walt Disney Animation Studios, e sequência da elogiada e divertida aventura de 2012 sobre um vilão de um game antigo e uma corredora com “tilts”, ambos marginalizados em suas funções.

Desta vez, o cenário deixa de ser um velho fliperama e máquinas de Arcade e se expande para a rede mundial de computadores™️, trocando a nostalgia por uma crítica ao mundo digital e a aceitação pela manutenção de uma amizade.

Disney / Pôster de WiFi Ralph — Quebrando a Internet (detalhe)

A Disney conseguiu manter a qualidade vista em Detona Ralph, ou derrapou nos pixels? Acompanhe nossa resenha sem spoilers e descubra.

“WiFi”? WiFai? UaiFai?

WiFi Ralph — Quebrando a Internet possui uma trama básica e outros sub-plots, mas tudo gira em torno da amizade entre Detona Ralph (John C. Reilly) e Vanellope von Schweetz (Sarah Silverman). Eles se tornaram amigos inseparáveis, e de forma não intencional Ralph acaba agindo como um pai adotivo da tampinha, que deseja tudo de melhor para ela e que por isso mesmo, acaba por vezes metendo os pés pelas mãos, todos enormes.

E numa dessas decisões erradas, ele acaba por indiretamente fazer com que o game Sugar Rush (no Brasil, Corrida Doce) de Vanellope quebre e seja desligado, e todos os seus personagens se tornam um bando de sem-teto.

Ralph acaba descobrindo que a única peça necessária para consertar a máquina se encontra à venda no eBay, e por coincidência o sr. Litwak (o dono do fliperama) recentemente ligou uma rede Wi-Fi no estabelecimento. Assim, Ralph e Vanellope entram (literalmente) na internet para compra-la e salvar o jogo.

Detona Ralph (John C. Reilly), Yesss (Taraji P. Henson) e Vanellope von Schweetz (Sarah Silverman) contemplam a internet

A forma que os diretores Rich Moore (Detona Ralph, Zootopia) e Phil Johnson (que co-dirige seu primeiro longa animado) escolheram para a personificação da internet, como uma cidade gigantesca pode não ser nova, mas a maneira como ela se apresenta é bem inteligente. A Disney também negociou com uma enormidade de marcas de sites, serviços e redes sociais, que aparecem todos em suas encarnações originais e retratados para refletir sua natureza.

O Twitter, por exemplo é uma imensa árvore onde os passarinhos azuis (os usuários) piam o tempo todo os balões de mensagens; a Amazon é uma grande loja de departamentos e o Google, desnecessário dizer, é o maior edifício da internet. Até marcas antigas de empresas do passado, como Netscape e GeoCites aparecem, ainda que esquecidas nas camadas mais baixas (literalmente, o lixão).

Curiosamente, a Apple não é retratada em nenhum canto da internet do filme, mas as crianças no fliperama todas possuem iPhones; e nos trailers, a Moana bebê aparece usando um iPad. Com uma capinha do Mickey, claro.

Os usuários são todos como NPCs dentro da internet, o que chega a ser deliciosamente irônico: os personagens mais vivos, mais interativos e com mais personalidade são todos algoritmos, pixels ou polígonos, enquanto o público é mostrado como um bando de bonequinhos de cabeça quadrada, que se movem da mesma forma, fazem ações simples e quase nunca falam.

Um dos destaques é a expansiva Yesss (Taraji P. Henson, de Estrelas Além do Tempo), o algoritmo do fictício BuzzzTube, um concorrente do YouTube (que é citado no filme). Ela é a encarnação do glamour e busca por atenção de seus usuários, e desfila uma variedade de figurinos no melhor estilo Cruella de Vil; ela no entanto não é má, e ajuda Ralph e Vanellope em sua empreitada atrás do dinheiro para comprar a peça de Sugar Rush.

Disney / Shank (Gal Gadot) em ação / WiFi Ralph

Mas talvez a mais interessante entre as caras novas seja mesmo a Shank, que no original tem a voz da atriz Gal Gadot. Ela é uma corredora/NPC do game online Slaughter Race (por aqui, Corrida do Caos), a versão da Disney para a série Grand Theft Auto e a franquia Velozes e Furiosos (que Gadot estrelou, como Gisele Yashar).

Ela não é nem heroína e nem vilã, apenas uma figura complexa com motivações e desejos como qualquer pessoa comum, e que ama o que faz: dirigir perigosamente e transformar quem tenta roubar seu carro em churrasquinho de pixels.

Ela é talvez a pessoa mais verdadeiramente humana do filme, e uma das mais completas que a Walt Disney Animation Studio cria em anos. Ela não é bidimensional, não é uma princesa (mas canta mesmo assim, culpa da Vanellope) e faz o que lhe der na telha.

A Disney definitivamente precisa de mais personagens como Shank em seu portfólio.

Autocrítica sim, mas de mão leve

Ao pular de um velho fliperama para a internet, WiFi Ralph diminui a pegada na nostalgia e se foca na relação que as pessoas tem com a internet. O eBay, por exemplo é retratado como um enorme galpão com vários quiosques de leilão, em que os usuários dão lances frenéticos nas coisas mais esquisitas e aparentemente inúteis do mundo, mas que valem alguma coisa para alguém.

Ralph faz de tudo para levantar a grana para consertar a máquina de Vanellope, e isso inclui fazer versões próprias de todos os vídeos que viralizam no YouTube: de cabras a abelhas, unboxings, receitas e muito mais. E para seu azar, o grandão quebrou a regra número um da internet: “nunca leia os comentários”.

Disney / Vanellope e as princesas da Disney em momento descontraído / WiFi Ralph

A Disney também aproveitou para criticar sua própria forma de fazer filmes, na cena em que Vanellope invade a sala das princesas da casa do Mickey (aliás, o rato e sua turma não aparecem em nenhum momento). Por anos elas foram criticadas por serem personagens rasos, com motivações fracas e que precisam de um homem para serem salvas, e Moore e Johnson jogam isso na cara do espectador, como já visto no trailer (o interrogatório, no entanto é bem maior).

Este é talvez o momento mais divertido do filme, que permitiu à Disney fazer um mea culpa e dar mais uma espetada (o trabalho das princesas se resume a aparecer em quizes), mas o passeio da tampinha pelo site Oh My Disney serve mais para lembrar o público de que a companhia, chefiada por Bob Iger detém as marcas mais poderosas do planeta em termos de entretenimento, de Star Wars à Marvel.

Ao mesmo tempo, o filme não ousa tanto assim: uma piada sobre Kylo Ren ser uma criança mimada foi barrada.

Por baixo de tudo isso, é de um filme da Disney que estamos falando, e WiFi Ralph também possui sua liçãozinha de moral. Se no primeiro filme Ralph era o vilão que não queria se aceitar como era, aqui ele quer que tudo permaneça igual, incluindo sua amizade com Vanellope. E por isso mesmo, ele tem ataques enormes de ciúme quando a nanica começa a se afeiçoar com Shank.

Disney / filme aprofunda o desenvolvimento da amizade entre Ralph e Vanellope / WiFi Ralph

Como um “pai” superprotetor, ele não dá espaço à Vanellope, que quer ter mais independência e não precisar de um vilão de um jogo antigo do lado dela o tempo todo, como um grude insuportável. E isso leva ao plot final do filme, com consequências desastrosas para todos e para a internet.

É aí que o filme “perde a conexão”: a trama poderia muito bem ser conduzida sem um vilão acessório, e os fãs do primeiro filme sentirão falta de personagens como o casal Conserta Félix Jr. (Jack McBrayer) e sargento Calhoun (Jane Lynch), que aparecem pouco; o plot onde eles adotam todos os 15 corredores sem lar de Sugar Rush, uma trupe de crianças insuportáveis poderia ter sido melhor explorado.

Conclusão

WiFi Ralph não é perfeito, como um produto completo Os Incríveis 2 é uma obra melhor, mas tecnicamente enche os olhos. O contraste entre personagens caricatos como Ralph e Vanellope, com outros mais realistas como Shank ou mesmo as princesas é algo legal de se ver, e todo mundo já se pegou imaginando como a internet seria se fosse um lugar que pudéssemos visitar, mesmo como NPCs de cabeças quadradas.

A trilha sonora, a cargo de Henry Jackman (que pela primeira vez assume sozinho, tendo trabalhado em filmes como Capitão América: Guerra Civil, Kong: Ilha da Caveira e Kingsman: O Círculo Dourado em companhia de outros) é bem competente. Na soma das partes, o filme é uma divertida matinê, para crianças e adultos. E como sempre, recheada de easter eggs.

Particularmente, ele cria um ambiente virtual mais crível do que o visto em Jogador N° 1, só que sem a mesma magia. Mas isso pode ser meu coração nostálgico falando mais alto.

Disney / Vanellope e as princesas / WiFi Ralph

No fim, WiFi Ralph — Quebrando a Internet não é genial como Detona Ralph, mas diverte ao imaginar a web como uma cidade real, com cidadãos dos mais diversos e únicos e que não são os usuários. As brincadeiras e piadas com as tropes mais antigas e recentes, desde a referência a Kim Kardashian no título à presença de YouTubers famosos, como Miranda SingsIhasCupquake estão lá para entreter o público jovem, tanto quanto massageou o espírito nostálgico dos velhacos gamers na primeira aventura.

Nota adicional: a localização brasileira, com as vozes de Tiago Abravanel e MariMoon respectivamente como Ralph e Vanellope, entre outros é no geral bem executada (a YouTuber e ex-VJ evoluiu bastante em seis anos), mas derrapa FEIO com Merida, ao trocar seu belo sotaque escocês (que no original em inglês é indecifrável, mas fiel; aliás, todas as princesas são dubladas pelas atrizes originais) por gírias da quebrada, mandando a Vanellope “lacrar”.

E não saia da sala do cinema até o final, a Disney preparou surpresas desconcertantes para os espectadores.

Nota:

Quatro de cinco Shanks.

Disney / nota: quatro de cinco Shanks / WiFi Ralph

WiFi Ralph — Quebrando a Internet estreia nos cinemas brasileiros no dia 03 de janeiro de 2019. Separe desde já a grana para a pipoca.

O Meio Bit compareceu à cabine de imprensa de WiFi Ralph — Quebrando a Internet a convite da Disney.

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