Resenha — Jogador Nº 1 (sem spoilers)

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Jogador Nº 1 é um baita livro, sem dúvida. A história de Ernest Cline, embora clichê prende a atenção do leitor e estimula o bichinho do saudosismo principalmente nos mais velhos, embora seja voltado para os jovens apresentando toda uma cultura pop/gamer que eles não vivenciaram, com toneladas de referências a filmes, séries, games, livros, músicas e elementos de 30 anos atrás, o tipo de coisa que enlouqueceria qualquer estúdio tentado a adaptá-lo para o cinema.

Só que a Warner conseguiu contornar os problemas e conta com ninguém menos que Steven Spielberg no comando da película, e a versão cinematográfica de Jogador Nº 1 é uma aventura digna das melhores matinês que o diretor já nos entregou.

Aumente o som e acompanhe nossa resenha, livre de spoilers.


A Fantástica Fábrica Gamer

A trama do filme acontece num futuro próximo, em que décadas de exploração desenfreada dos recursos naturais da Terra esgotaram o planeta e a economia está indo para o ralo, sem uma perspectiva de melhora futura. Todo mundo desistiu de fazer alguma coisa e grande parte da população mundial prefere fugir da realidade, fazendo uso do sistema de entretenimento virtual mais potente e popular já criado: o OASIS, uma mistura de Second Life com o Holodeck para as massas.

Dentro do ambiente virtual você pode fazer qualquer coisa, desde assistir aulas a trabalhar e é claro, jogar e basicamente ser qualquer personagem que desejar. Há uma infinidade de mundos criados com base em diversas marcas, estúdios de cinema, séries, livros, games, o que você imaginar. Seu criador, o excêntrico e recluso James Halliday (Mark Rylance) o criou com a ajuda de seu ex-amigo Ogden Morrow (Simon Pegg), mas nos eventos do filme o pai do OASIS já está morto há cinco anos.

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Só que antes de morrer ele entrou em modo Full Willy Wonka, anunciando uma caça ao Ovo de Páscoa (ou easter egg para os puristas) e escondeu três chaves no OASIS, fornecendo dicas baseadas em seus gostos pessoais (filmes, games e séries dos anos 1980 principalmente) para que fossem encontradas. Quem chegar primeiro ao ovo herdará toda a sua fortuna e a propriedade do OASIS, e o concurso disparou uma cultura da nostalgia com jovens redescobrindo coisas que eles nunca experimentaram porque não eram nascidos na época.

Só que passados cinco anos ninguém conseguiu fazer um ponto sequer, até que um pobretão de Ohio chamado Wade Watts (Tye Sheridan), que no OASIS é um caça-ovo chamado Parzival (outro nome para Sir Percival, o cavaleiro da Távola Redonda que segundo as Crônicas Arturianas encontrou o Santo Graal, o cálice que Jesus de Nazaré teria utilizado na Última Ceia) desvenda a primeira dica e consegue a Chave de Cobre, sendo o primeiro a pontuar no placar desde o início da caça ao ovo de Hallyday.

Corra, Parzival, Corra

A partir do momento em que Parzival coloca as mãos na primeira das três chaves, tem início uma corrida frenética atrás das duas restantes e do ovo de Halliday, e enquanto ele e os outros caça-ovos Aech, Art3mis, Daito e Shō trabalham juntos como uma equipe para desvendar as dicas deixadas pelo criador do OASIS (o que não acontece no livro, onde apesar de aliados eles competem entre si), o CEO da Innovative Online Industries Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn, que está pegando gosto em interpretar vilões), a corporação que fará de tudo para colocar as mãos no OASIS e passar a cobrar mensalidade e outras coisas joga pesado e passa a caçá-los dentro e fora do game, ao vê-los como uma ameaça a seus negócios.

Há diferenças entre o livro e o filme, como os desafios em busca das chaves serem todos diferentes (o que é bom, adiciona surpresa) e da mudança de foco (Halliday fez da caça uma espécie de mea culpa), mas o principal é o ritmo. Tudo acontece num espaço de tempo muito curto, e para dar sentido a essa abordagem todos os personagens vivem conveniente próximos fisicamente na vida real, o que faz sentido: se Daito e Shō vivessem mesmo no Japão e Art3mis em Vancouver, a ação fora do OASIS seria bem mais cadenciada.

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Faz sentido para a trama que Parzival e cia. possam se encontrar facilmente no mundo real, mas a sensação de conveniência criada para não gerar barrigas na narrativa é bem evidente.

Há outras mudanças mais profundas. O caça-ovos Shoto foi renomeado para Shō, provavelmente para evitar ligações com a palavra “shot”, ou “tiro” em inglês e mudou de nacionalidade, sendo agora chinês (interpretado pelo novato Philip Zhao) e não japonês; claro, isso foi feito de modo que o filme precisa ser apelativo à China. Por outro lado, toda e qualquer referência à vida pessoal de Aech foi limada do filme, numa provável tentativa de evitar reclamações de alguns públicos.

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Samantha Cook/Art3mis, a Manic Pixie Dream Girl da vez também mudou bastante. No livro ela é uma caça-ovos independente e até um tanto egoísta, visando apenas chegar na frente dos outros e taxa Wade/Parzival (que também não é gordo ou narigudo como o original) de maluco quando ele propõe uma guerra total contra a IOI, mas como a trope manda ela ainda vira a vida do protagonista do avesso a ponto dele cogitar abandonar a caça ao ovo para ficar com ela (o que ela não faria nunca, ainda que ela tenha de fato uma quedinha por Parzival), mesmo sem nunca tê-la visto na vida real.

No filme a personagem, interpretada por Olivia Cooke é quase uma Freedom Fighter, coordena um grupo de caça-ovos com o objetivo secundário de não deixar a Evil Corp™ controlar o OASIS e chegar ao ovo de Halliday e chega a cobrar mais comprometimento de Wade, sendo ela a que tem a ideia de atacar a fortaleza final e de convocar um exército de caça-ovos, e ela trabalha muito melhor em equipe sob a lente de Spielberg do que sob a pena de Cline.

As referências

O livro é uma insanidade de menções a uma infinidade de franquias e marcas, dos games mais famosos aos mais obscuros e transformar isso em um filme é absolutamente impossível, não da mesma forma. Primeiro, muitas dessas licenças são caríssimas ou pertencem a companhias rivais, no caso os personagens da Marvel/Disney (a Warner é dona da DC).

Ainda assim algumas coisas precisavam permanecer por serem relevantes à trama e para manter o interesse do público, como o Gundam RX-78-2 (o primeiro e mais icônico, pilotado por Amuro Ray) mas outras dançaram sem dó como o Leopardon do Parzival, o robô gigante da série japonesa do Homem-Aranha. A Warner, por conveniência e para amenizar os custos de licenciamento puxou a sardinha para seu lado e deu grande destaque aos personagens que possui; há desde os da DC, como Batman (o do Michael Keaton!), Coringa, Exterminador e Arlequina, da subsidiária NetherRealm Studios como Goro de Mortal Kombat e outros como o Gigante de Ferro, que desempenha um papel importante na batalha final.

Há referências também a personagens de empresas que a Warner representa comercialmente, como a Capcom graças à presença de Ryu, Chun-li e outros de Street Fighter e a Blizzard, com a Tracer de Overwatch e Jim Raynor de StarCraft, além de claro a Lara Croft, já que Tomb Raider acabou de ser lançado nos cinemas.

Ah sim: o planeta Transsexual também foi podado, portanto nada de The Rocky Horror Picture Show 24/7.

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Ainda assim há uma série de easter eggs que não o ovo de Halliday, com referências a séries, filmes e games não só dos anos 1980 como de décadas mais recentes, desde os Battletoads a personagens do game Battleborn, além de Art3mis possuir a famosa moto vermelha do Kaneda, de Akira (com adesivos da Mulher-Maravilha e do Super-Herói Americano). Para quem gosta de caçar ovos Jogador Nº 1 é um prato cheio, mas como o ritmo do filme é frenético o espectador corre o risco de não prestar atenção à trama. Já a música incidental, a cargo do bruxo Alan Silvestri é fantástica e as licenciadas são clássicos absolutos, como deve ser.

Minha dica: assista primeiro para curtir a história, e veja uma segunda vez para identificar todas as inúmeras referências do filme.

Conclusão

A versão de Steven Spielberg para Jogador Nº 1 não é igual ao livro e isso não é bom nem ruim, apenas diferente. As sequências mais sombrias e distópicas foram completamente omitidas, de modo a criar um senso de urgência que resolve toda a trama em não mais do que em alguns dias, o que na obra original leva quase um ano entre Wade encontrar a primeira chave e o encerramento da trama.

Há algumas modificações mercadológicas, como a localização chinesa de Shō e a suavização da história, já que este é um filme para atingir todas as faixas etárias e não só os saudosistas. Como esperado Spielberg fez do filme uma fábula para crianças e adolescentes, mais leve e acessível onde tudo de resolve dentro do OASIS, quase nunca fora dele e por causa disso, quase não há menção de como o mundo real está indo para a vala.

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Isso não quer dizer que Jogador Nº 1 é dispensável, longe disso. Comparado ao livro, como sempre acontece ele perde em muitos aspectos mas você não precisa lê-lo para curtir a película, e como obra individual ele cumpre o que promete: um desfile de personagens da cultura pop e gamer dos últimos 40 anos e uma aventura digna da Sessão da Tarde: foco na amizade e lealdade, uma causa a ser defendida disfarçada de caça ao tesouro e uma Evil Corp™ a ser derrotada, com boas doses de aventura e romance adolescente.

Se você está procurando um filme que lhe proporcione duas horas diversão sem culpa e que ao mesmo tempo massageie seu coração nostálgico, Jogador Nº 1 é perfeito.

Nota:

Cinco de cinco discos do Oasis.


Warner Bros. Pictures Brasil — Jogador Nº 1 – Trailer Oficial 1 (leg) [HD]

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Autor: Ronaldo Gogoni

Profissional de TI auto-didata, blogueiro que acha que é jornalista e careca por opção. Autor do Meio Bit e Portal Deviante, podcaster/membro fundador/Mestre Ancião do SciCast e host/podcaster do Sala da Justiça.

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