Resenha — Han Solo: Uma História Star Wars (sem spoilers)

Han Solo: Uma História Star Wars está em cartaz em vários cinemas do Brasil. A película dirigida por Ron Howard traz a origem do contrabandista mais carismático da Orla Exterior e seu melhor amigo wookie, e revela eventos apenas mencionados em mídias passadas. Porém, a produção conturbada e rumores controversos prejudicaram a percepção do público e jogaram a expectativa lá embaixo, com muitos esperando uma bomba.

E então, o filme é mesmo tão ruim como todos temiam? Descubra na resenha sem spoilers a seguir.

Um salafrário em desenvolvimento

Os eventos de Han Solo: Uma História Star Wars ocorrem pelo menos dez anos antes de Episódio IV: Uma Nova Esperança. Aqui Han (Alden Ehrenreich, de Ave, César!) é um órfão de Corellia, basicamente um escravo que está tentando sair dessa vida e se tornar um piloto de renome; a meta é se pirulitar do planeta e levar junto sua parceira e amante Qi’ra (Emilia Clarke, de O Exterminador do Futuro: Gênesis). Claro que tudo dá errado e nosso anti-herói promete se tornar alguém poderoso e influente para resolver a situação.

Han se alista como soldado do Império e após um período nada agradável, acaba pro conhecer em uma situação totalmente inusitada aquele que viria a ser seu confidente até o fim de seus dias: Chewbacca (Joonas Suotamo), um wookie que a princípio não vai com a cara de Solo, mas logo eles se unem para atingir um objetivo comum.

Nesse meio tempo Solo e Chewie conhecem Thobias Beckett (Woody Harrelson, de O Povo Contra Larry Flynt), o líder de uma gangue de contrabandistas interestelares que estão em busca de um golpe dos grandes: saquear uma grande quantidade de coaxium, um combustível que devido pequenos contratempos, só pode ser conseguido no planeta Kessel.

Solo, Chewie e Beckett precisam de uma equipe e uma nave rápida o bastante para fazer o percurso antes que o material altamente instável exploda, e é aí que não só Qi’ra ressurge na vida de Solo como somos reapresentados a seu mais antigo desafeto: Lando Calrissian (Donald Glover, de Community), um espertalhão e trapaceiro dono da aqui novinha em folha Millennium Falcon, acompanhado de sua robô navegadora com tendências revolucionárias L3-37 (Phoebe Waller-Bridge, de Adeus Christopher Robin).

Segue-se uma corrida frenética para conseguir cumprir a missão, recheada de cenas de ação com combates em solo e no espaço, fugas espetaculares e finalmente a revelação de como Han Solo concluiu a Corrida de Kessel em apenas 12 parsecs. Apenas como uma palhinha, George Lucas sabia o tempo todo do que estava falando e não confundiu medidas de tempo com de espaço.

Ron Howard ao resgate

Não é segredo para ninguém que a produção de Han Solo: Uma História Star Wars não foi das mais tranquilas. Os diretores originais Chris Miller e Phil Lord (Uma Aventura LEGO, Anjos da Lei 2) tinham como ideia fazer deste filme uma comédia rasgada, fugindo do roteiro de Lawrence Kasdan e forçando improvisações, o que desagradou a presidente da Lucasfilm Kathleen Kennedy. Como resultado ambos foram demitidos antes do fim das filmagens, mas o estrago já estava feito.

A solução foi recorrer a Ron Howard, um diretor de pedigree (Cocoon, Apolo 13,Oscar de Melhor Diretor e Melhor Filme por Uma Mente Brilhante, indicado novamente nas duas categorias por Frost/Nixon) que já havia trabalhado com o estúdio ao dirigir Willow: Na Terra da Magia. Ainda que ele não faça milagres, sua experiência serviu para colocar os trabalhos de volta nos trilhos e dessa forma salvar o que foi possível.

O resultado é um filme que está longe da grandiosidade de Star Wars Episódio VIII: Os Últimos Jedi ou do ritmo perfeito de Rogue One: Uma História Star Wars (que muitos consideram o melhor da Era Disney até o momento), mas é uma agradável e divertida aventura de 135 minutos, digna de uma matinê descompromissada. Não espere por grandes tramas nem por reviravoltas inesperadas, este é apenas um conto de pessoas horríveis fazendo o possível para sobreviver num período caótico.

Falemos da surpresa do filme: o ator Alden Ehrenreich, embora inexperiente está muito bem na pele de um Han Solo em seus primórdios, e há de se levar em conta a pressão colocada sobre ele de viver um dos personagens mais emblemáticos da cultura pop, interpretado por um dos gigantes da Sétima Arte. Sua versão não é tão carismática quanto a de Ford e nem poderia, mas convence o espectador ao mostrar os primeiros passos desajeitados daquele que se tornaria um dos salvadores da galáxia.

Já o finlandês Joonas Suotamo está totalmente à vontade como Chewie, visto que ele se tornou o titular desde Os Últimos Jedi dada a impossibilidade de Peter Mayhew continuar no papel, devido complicações de saúde (em Star Wars Episódio VII: O Despertar da Força Suotamo atuou apenas como dublê). Com mais tempo de tela, o ator mostrou desenvoltura e desenvolveu uma química quase instantânea com o Han Solo de Ehrenreich, e é a amizade e cumplicidade da dupla um dos pilares do filme.

Os destaques ficam para Donald Glover, que previsivelmente rouba a cena como o canastrão Lando e Emilia Clarke, que está muito interessante como a ambígua Qi’ra, que inevitavelmente irá aparecer em outras mídias da franquia. Já a “revolucionária” androide L3-37 de Phoebe Waller-Bridge é deliciosamente hilária, sendo um contraponto excelente ao pragmatismo de C-3P0 e o niilismo e sarcasmo de K-2SO. As participações de Thandie Newton (a Maeve de Westworld) como a mercenária Val, esposa e parceira de Beckett e Paul Bettany (nosso sintozoide favorito) como o lorde do submundo Dryden Vos são também muito boas.

O que você não verá: jedi, siths ou qualquer menção à Força. Assim como em Rogue One, este é um filme sobre pessoas que vivem uma realidade bastante diferente dos outrora cavaleiros da finada República, mas diferente deste Han Solo passa longe do núcleo Darth Vader/Grand Moff Tarkin/imperador Palpatine. Você verá pessoas comuns, não tão nobres com problemas reais e que dependem apenas de suas habilidades naturais para sobreviver, já que a galáxia está tentando te matar a todo momento. A sequência em que Han Solo é mostrado como um soldado raso do Império, em uma campanha de invasão é bem didática quanto a isso.

Para terminar, há uma série de easter eggs espalhados fazendo referência a eventos e personagens tanto do cânone da franquia, quanto de elementos da linha Legends (o antigo Universo Expandido) e até de Indiana Jones. É só procurar.

Conclusão

Han Solo: Uma História Star Wars não é perfeito, longe disso. Dos quatro filmes da franquia produzidos pela Disney ele é sem dúvida o mais fraco, culpa do início desastrado da produção que culminou com a saída de Lord e Miller. Ron Howard é um excelente diretor, ninguém tem dúvidas disso mas talento tem limites, e mesmo assim ele conseguiu fazer da película uma divertida matinê, digna de uma Sessão da Tarde.

A atuação de Alden Ehrenreich não é estelar, mas ele consegue passar a ideia de um Han ainda em formação, menos calejado pelo tempo e ainda distante do salafrário imortalizado por Harrison Ford, mas ele chegará lá eventualmente e já dá pistas disso mesmo aqui. Uma das partes mais legais, entretanto é ver o início de sua parceria para a vida toda com Chewbacca e dado o tempo de tela, foi possível comprovar que Joonas Suotamo está bem confortável; de fato, a Lucasfilm escolheu bem o sucessor de Peter Mayhew.

Diferente de Rogue One, Han Solo não é um filme sombrio mas também não é uma aventura de mocinhos contra vilões. Aqui todo mundo é mau-caráter, estamos falando do mundo de assassinos, mercenários, caçadores de recompensas, trapaceiros e outras figuras menos iluminadas, então todos vão tentar puxar o tapete uns dos outros por toda a história. Há boas doses de ação e humor, piadinhas clássicas, esperadas inversões de expectativa e até a boa e velha frase clássica de Star Wars, aqui um pouco diferente.

No fim Han Solo: Uma História Star Wars pode não ser tão grandioso quanto as mais recentes produções, mas não chega a ser dispensável e é uma agradável programação para um fim de semana com a família e amigos, como toda farofa cósmica deve ser. O que é a essência de Star Wars desde o início.

Nota:

Quatro de cinco travesseiros Billy Dee Williams.

O Meio Bit compareceu à cabine de imprensa de Han Solo: Uma História Star Wars a convite da Disney.

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Autor: Ronaldo Gogoni

Profissional de TI auto-didata, blogueiro que acha que é jornalista e careca por opção. Autor do Meio Bit e Portal Deviante, podcaster/membro fundador/Mestre Ancião do SciCast e host/podcaster do Sala da Justiça.

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