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Um filme sobre calculadoras que você não pode perder

Se você leu o excelente Calcinhas no Espaço conhece Katherine Johnson, jovem que como nunca fez textão no Facebook nem tirou a roupa em protestos não é popular entre as militantes, mas foi uma das mais respeitadas matemáticas da NASA, numa época em que isso não era profissão de mulher, que dirá negra. Agora sua vida vai virar filme!

2 anos atrás

3951h

Quando a equipe de Alan Turing em Bletchley Park terminou o Colossus ele era o computador mais sofisticado de seu tempo, mas embora fosse bom o suficiente para decodificar as transmissões nazistas, em termos de performance não era muita coisa do ponto de vista atual. Digamos assim, o framerate dele rodando Crysis devia ser péssimo.

Como todo computador da época Colossus era dedicado, não era um computador de uso geral. Mesmo com o advento de máquinas mais versáteis, não era possível escrever programas realmente complexos, levava-se mais tempo programando do que fazendo na mão, mas isso não quer dizer que não havia uma alternativa para executar cálculos complexos com precisão e segurança. O truque era algo que chamamos em computação de chinês.

Alan Turing tinha uma descrição mais elegante, mas imagine uma sala com um escaninho onde você entra com um problema. Lá dentro um monte de chineses com ábacos começam a fazer contas, cada um lidando com parte de um problema complexo. Ao final a resposta sai em um outro escaninho.

Esse conceito não foi inventado por Turing, já era conhecido e chamado de… Computador.

Essas unidades de computação fizeram todos os cálculos do Projeto Manhattan, e a curiosidade é que usavam saias.

Não que fosse grande desejo da sociedade da época colocar mulheres na rua trabalhando mas a necessidade levou a isso. A maioria dos homens estava na guerra, a força de trabalho feminina tomou os espaços vazios e ainda havia o bônus de que elas eram melhores que homens nas tarefas exigidas de uma boa computadora.

Esse modelo foi usado por basicamente todo mundo, inclusive a nascente indústria aeroespacial. As mulheres não só faziam milhares de cálculos como cuidavam da coleta de dados. Não havia ainda sensores digitais, um experimento em túnel de vento, com dezenas de mostradores tinha os valores anotados em planilhas, em tempo real e depois plotados em gráficos. Tudo manualmente, por mulheres.

Não foi um começo imediato. A NACA (National Advisory Committee on Aeronautics), antecessora da NASA foi fundada em 1915. Em 1917 construíram o Langley Research Center (LaRC), um dos mais antigos centros de pesquisa aeronáutica do país, mas só em 1922 uma engenheira chamada Pearl Young seria a primeira mulher a trabalhar lá, mas mudanças maiores ainda iriam ocorrer.

Em 1941 ficou evidente que o país não poderia prescindir de parte de sua população educada e habilitada para trabalho. O presidente Roosevelt então assinou um ato proibindo qualquer tipo de discriminação de raça, credo ou nacionalidade nas contratações do serviço público, e os órgãos foram sutilmente estimulados a contratar profissionais negros.

O Centro de Pesquisa de Langley foi um desses órgãos, e descobriram que havia uma excelente oferta de mulheres, negras com formação em matemática, que até então se restringiam a trabalhar como professoras.

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O trabalho delas era de primeira classe, mas elas mesmas eram tratadas como segunda. A segregação era ativa, ficavam em um prédio isolado e quase nunca apareciam em fotos. Quando o Centro sofreu uma expansão montaram um projeto de construção de alojamentos para as “computadoras” em uma universidade para jovens negras da região. Não, as computadoras negras não tinham direito ao alojamento, era para as brancas.

Uma dessas jovens negras se chamava Katherine Johnson. Em 1953 ela soube que a NASA estava contratando jovens com formação em matemática. Aceita, ela só trabalhou duas semanas como computadora. Os engenheiros da Divisão de Trajetória e Controle a requisitaram para um trabalho e Katherine impressionou tanto que esqueceram de devolver.

Ela acreditava fielmente que não era melhor nem pior do que ninguém: não aceitava o papel que a sociedade esperava dela. Fazia questão de participar de todas as reuniões. Katherine alegava que ela havia feito o trabalho então era função dela participal da reunião. Que nunca uma mulher, muito menos uma mulher negra havia feito aqui, era irrelevante para ela e para seus colegas homens.

Em 1961 a NASA estava com problemas para computar a trajetória para o vôo de Allan Sheppard, primeiro astronauta americano. Chamaram Katherine, que por acaso era especialista em geometria. Ela encarou o problema de trás pra frente. Pediu para dizerem aonde queriam que a cápsula pousasse e então calculou o momento exato em que deveria ser lançada.

Quando John Glenn fez o primeiro vôo orbital da NASA, as computadoras já haviam sido substituídas por computadores, mas os engenheiros pediram para Katherine conferir, na mão, se as contas estavam corretas.

Ela ajudou a calcular a trajetória da Apollo XI, fornecendo a base matemática e algorítmica para os programas da equipe da Margaret Hamilton, além de conferir na unha vários dos programas mais críticos.

Quando a Apollo XIII sofreu o clássico acidente Katherine Johnson calculou tabelas de órbitas e trajetórias alternativas para caso os computadores de bordo falhassem.

Ela escreveu 26 trabalhos científicos, mas como não era praxe colocar o nome de mulheres co-autoras só cinco estão identificados nos sites da NASA, mas é sabido que até se aposentar, em 1986, Katherine trabalhou com projetos de missões a Marte e com o Space Shuttle.

Katherine Johnson hoje tem 97 anos, vive com a certeza do dever cumprido e, mesmo que a contribuição das computadoras, principalmente as negras, tenha sido apagada da História, seu trabalho foi tão importante e tão vital que os próprios astronautas faziam questão de conhecer as equipes e agradecer sua dedicação.

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Agora a história de Katherine Johnson será contada, direito e para todo mundo ver. Sua vida virou o filme Hidden Figures, com Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe e Kirsten Dunst.

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O filme estreia na gringa 13/1/2017. Como é da FOX deve chegar aqui na mesma época, se fosse da Paramount era capaz de ser lançado em 2025, direto pra DVD. Aqui o trailer:


Hidden Figures | Official Trailer [HD] | 20th Century FOX

Nota: o texto deste artigo foi retirado do excelente livro Calcinhas no Espaço, pois eu sou preguiçoso demais para escrever a mesma histórias duas vezes.

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