Ronaldo Gogoni 14/05/2026 às 15:50
A oitava geração de consoles completa 5 anos e meio de janela em maio de 2026, e tanto a Sony quanto a Microsoft já discutem a introdução dos sucessores do PlayStation 5 e do Xbox Series X|S. Tanto Asha Sharma, chefe da divisão Xbox, quanto Hiroki Totoki, CEO da Sony Corporation, já teceram comentários sobre os desafios atuais que envolvem ambas as empreitadas.
Mais recentemente, Totoki disse que a divisão PlayStation poderia inclusive adotar "uma mudança no modelo de negócios", mas boa parte do público se pergunta: nós realmente precisamos de uma nova geração agora e, mais importante, nós poderemos pagar por ela?

Muitos defendem que a geração atual ainda não foi levada ao limite (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)
Em documentos recentes compartilhados pela Sony e declarações dadas a acionistas, Hiroki Totoki disse que a Sony está comprometida com o desenvolvimento do PlayStation 6, mas "ainda não está pronta" para revelar quanto ele irá custar, nem mesmo quando ele será lançado. Rumores indicam que, planejado originalmente para o fim de 2027, ele pode ser adiado para 2028 ou mesmo 2029. Os culpados? IA e o RAMpocalipse, para variar.
A Microsoft não está em uma situação muito diferente: quando questionada sobre o estado do Projeto Hélix, o nome provisório do próximo console (ou consoles) Xbox, a executiva disse que "o custo da RAM irá impactar no preço final e na disponibilidade" do novo sistema, que "tudo está sendo levado em consideração" e que, assim como os rivais japoneses, a companhia de Redmond "não está pronta" para divulgar datas ou preços, se limitando a informar que os primeiros dev kits, em estado Alpha, começarão a ser enviados em 2027, primeiro aos grandes estúdios, como era de se esperar.
Não é segredo que a evolução exponencial das soluções generativas de Inteligência Artificial revirou o mercado tech de dentro para fora, com as principais fabricantes de componentes essenciais, como Nvidia (GPUs) e Samsung, Micron e SK Hynix (memórias RAM e Flash) virando todo o seu esforço para o setor, e os demais que se ralem. Adquirir materiais para qualquer coisa que não seja relacionada à IA se tornou secundário, de mobile a infraestrutura, e games não são exceção.
Totoki acredita, inclusive, assim como outros setores da indústria, que a escassez de RAM, Flash e outros componentes continue por pelo menos todo o próximo ano fiscal japonês de 2027, que se encerra em março de 2028, e está inclusive considerando abordagens diferentes para driblar a situação: o executivo mencionou "simulações" que, entre outras coisas, envolvem inclusive "modelos de negócios diferentes" de modo a adotar uma melhor estratégia.
Ele não deu nenhuma explicação sobre o que seria um modelo de negócios diferente do que a Sony usa hoje; alguns especulam que a companhia japonesa poderia adotar um modelo de consórcio similar ao de celulares, em que o usuário não é dono do hardware e paga uma mensalidade para usá-lo; no cenário de mudança de geração, o sistema poderia ser simplesmente substituído por seu sucessor pela própria Sony, envolvendo ou não pagamentos adicionais.
Vale lembrar que a Microsoft tentou algo do tipo e não deu muito certo; o Xbox All Access foi posteriormente descontinuado.
Com a IA comendo componentes, uma nova geração de consoles poderia ser empurrada para preços sugeridos por volta de insanos US$ 1 mil (~R$ 10 mil no Brasil), um destino parcialmente vaticinado à Steam Machine, que a Valve se recusa a revelar mais detalhes; muitos temem com razão que a crise da RAM, GPUs e memória Flash vai tornar o hobby gamer no que ele era no início, reservado a ricos com dinheiro sobrando, sem contar que a demanda será bem menor.
Isso posto, em vez de Sony e Microsoft jogarem suas fichas na nova geração, não seria mais inteligente, e mais saudável financeiramente falando, explorar a atual pelo maior tempo possível? Explico:
A pandemia da Covid prejudicou as vendas iniciais do PS5 e do Xbox Series X|S, a ponto de ambas as companhias continuarem até hoje permitindo que desenvolvedoras lancem jogos para o PS4 e Xbox One; na geração anterior, tanto o PS3 quanto o Xbox 360 foram completamente abandonados com pouco mais de um ano de seus sucessores lançados.
Essa "sobrevida" dada aos sistemas de 8.ª geração também cobra um preço incômodo: games pensados como multiplataforma são geralmente nivelados por baixo para que possam rodar nos consoles antigos; só agora, em 2026, a Activision anunciou que o próximo Call of Duty não será lançado para PS4 e Xbox One, por exemplo.
Nesse sentido, podemos dizer que o potencial tanto do PS5 quanto do Xbox Series X não foi explorado ao máximo, ambos hardwares não foram forçados ao limite com games que primam por superação técnica, como Ghost of Tsushima, Death Stranding, Ori and the Will of the Wisps e Cyberpunk 2077 (ok, esse com ressalvas), todos lançados entre 2019 e 2020, tecnicamente o "fim da 8.ª geração".
É fato que o Xbox Series X|S vendeu até o momento bem menos que o Xbox One (28,3 milhões vs. 58 milhões) e ambos comem poeira dos 84 milhões do Xbox 360, mas, por outro lado, os números do PS5 já se aproximam dos do PS4 (93,7 milhões vs. 117,2 milhões), ou seja, há uma base instalada hoje de donos de consoles saudável o bastante para que ambas as divisões, PlayStation e Xbox, invistam neles ao invés de querer que eles comprem um novo sistema... e muitos não terão dinheiro para isso.
Claro, isso soa mais como wishful thinking do que qualquer outra coisa; companhias têm como missão dar lucro e, embora todo mundo saiba que o dinheiro está nos games, Sony e Microsoft deixaram nesta geração de vender consoles com prejuízo, o que levou ao inédito e bizarro movimento para aumentar os preços dos sistemas ao longo de seus ciclos, seja por IA ou por tarifas, referidos oficialmente como "condições de mercado desafiadoras".
E não, a situação da Glorious PC Gamer Master Race não está melhor, e nem a dos fãs da Nintendo.
Solução? Não tem, o máximo que podemos fazer é esperar pelo melhor e nos preparar para o pior, mas seria interessante se todos estendessem o máximo possível a longevidade da atual geração, explorando suas capacidades ao máximo com mais e melhores games, ao invés de despejar novos sistemas no mercado e esperar que todos torrem R$ 10 mil em cada com um sorriso no rosto, o que não vai acontecer.