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Quando a Amazon tentou Nintendo em quebrar a Lei

Segundo Reggie Fils-Aimé, Nintendo deixou de vender consoles na Amazon por um tempo após a companhia pedir por vantagens ilegais

04/05/2026 às 13:50

A Nintendo tem um histórico de companhia implacável na proteção de suas propriedades intelectuais (IPs) e, por conta disso, age dentro dos parâmetros legais como forma de sustentar sua imagem de empresa "boazinha" (nota: isso não existe). Por isso, a declaração recente de Reggie Fils-Aimé, ex-presidente e COO da Nintendo of America, nem chega a ser uma surpresa.

Durante uma palestra recente, o executivo lembrou da tumultuada relação com a Amazon durante a geração do Wii e do Nintendo DS, e como a gigante do e-commerce tentou, sem sucesso, fazer com que a Big N infringisse a Lei para conceder vantagens competitivas a Jeff Bezos.

Satoru Iwata (1959—2015) e Reggie Fils-Aimé, respectivamente ex-presidente da Nintendo e ex-presidente e COO da Nintendo of America, exibem o então novo Nintendo DS, durante a E3 2004 (Crédito: Susan Goldman/Bloomberg/Getty Images)

Satoru Iwata e Reggie Fils-Aimé pararam de vender consoles da Nintendo na Amazon, após proposta da gigante do e-commerce em busca de vantagens ilegais (Crédito: Susan Goldman/Bloomberg/Getty Images)

Nintendo não entrou no jogo da Amazon

Fils-Aimé deu uma palestra na Universidade de Nova Iorque, disponível na íntegra na Twitch, sobre sua trajetória na Nintendo e em geral durante sua longa carreira em marketing, tendo passado por (e ocupado cargos de comando em) companhias como VH1 e Pizza Hut, antes de se unir à Casa do Mario.

É de conhecimento público que a relação entre a Nintendo e a Amazon nunca foi estável. Mais de uma vez, a gigante japonesa removeu seus produtos da lojinha do Bezos, por períodos que se estenderam por vários anos. Uma dessas ocasiões, mencionou Fils-Aimé, deu-se "por volta do fim do ciclo do Wii e do Nintendo DS", mais ou menos entre o fim dos anos 2000 e o início da década seguinte, quando a empresa se preparava para introduzir o 3DS e o Wii U.

A Amazon, após sobreviver ao estouro da bolha das .com e prosperar sobre as ruínas das companhias menos afortunadas (da mesma forma que o Google), se movimentou para expandir seu portfólio de produtos ao longo da mesma década; de uma loja que vendia essencialmente livros e CDs, ela se converteu em um gigantesco shopping center e dominou mercados, como o de livros digitais com o Kindle. As práticas competitivas nada desleais da Amazon estão mais do que documentadas, no que a empresa foi alvo de processos diversas vezes.

Bezos também queria dominar a venda de consoles de videogame e jogos, e tinha um alvo bem específico para esmagar, a rede Walmart. Mas para isso funcionar, as companhias responsáveis pelos sistemas teriam que entrar no jogo, o que nos leva à conversa um tanto tensa narrada por Reggie.

Jeff Bezos caracterizado como Ernst Stavro BLofeld, vilão de "Com 007 Só Se Vive Duas Vezes" (Crédito: Scott Anderson/The Hollywood Reporter)

Jeff Bezos, sempre o vilão (Crédito: Scott Anderson/The Hollywood Reporter)

O ex-executivo da Nintendo não deu nome aos bois e não disse com quem ele conversou; é improvável que Bezos em pessoa tenha ligado para o departamento de marketing da Nintendo of America e, ao invés disso, a tarefa deve ter ficado a cargo de algum alto executivo similar. Mesmo assim, o tom do diálogo e a forma como Reggie relembra os fatos batem com o questionável MO da Amazon para superar a concorrência:

"Naquela época, eu vendia cerca de 10 milhões de unidades do Nintendo DS por ano apenas nas Américas, e estávamos gerando muita receita. Tínhamos muita escala. Ao mesmo tempo, a Amazon queria expandir sua atuação no mercado de videogames. A mentalidade da Amazon naquela época era ter o menor preço do mercado, menor até que o do Walmart.

Um dos executivos deles me ligou e... bem, foi uma ligação que chegou até mim depois de passar por todos os níveis da minha equipe de vendas, e basicamente o que a Amazon queria era uma quantidade obscena de apoio, financeiro inclusive, para poder ter o menor preço e superar o Walmart.

Eu literalmente disse ao executivo: 'Você sabe que isso é ilegal, né? Eu não posso fazer isso'. Você capta a mensagem quando tudo o que houve do outro lado da linha é silêncio, como se dissesse 'mas é isso que eu quero'.

Nós literalmente paramos de vender para a Amazon, porque eu não ia fazer nada ilegal. Eu não ia fazer nada que colocasse em risco o relacionamento que a Nintendo tinha com outros varejistas.

Mas isso também mandou uma mensagem: 'Você não vai nos intimidar. É assim que nós (a Nintendo) fazemos negócios'. E é assim que, com o tempo, você adquire respeito."

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O Switch 2 e games da Nintendo estão disponíveis para compra na Amazon e em diversas outras lojas, mas a casa do Mario não concede vantagens a ninguém (crédito: C. Emanuel B. Laguna/Meio Bit)

A Amazon só voltou a ter acesso aos sistemas da Nintendo em 2017, quando o Switch foi introduzido, no que Reggie diz que o acordo entre as partes foi "uma aproximação de benefício mútuo"; ainda assim, ambas as partes teriam voltado a se estranhar em 2025, quando rumores de uma nova remoção de produtos da lojinha do Bezos começaram a circular; as duas empresas negaram na época.

De qualquer forma, o episódio narrado por Reggie pinta um quadro mais detalhado de um episódio que nunca foi esclarecido. Por um lado, mostra que os executivos da gigante japonesa prezam pela imagem da companhia a ponto de não concederem vantagens competitivas a nenhum revendedor, não importa o tamanho dele.

Por outro, é mais um panorama da empresa e do método de trabalho de Jeff Bezos, que várias vezes adotou métodos sujos e legalmente questionáveis para fazer da Amazon a maior loja de departamentos digital do mundo.

Fonte: Nintendo Everything

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