Ronaldo Gogoni 1 ano e meio atrás
A Intel vinha acumulando tropeços há vários anos, e a estratégia de focar na produção de chips não se pagou, principalmente com o mercado todo girando ao redor da Inteligência Artificial (IA), ignorada pelo então CEO Pat Gelsinger. Como resultado, o conselho da empresa chutou o executivo para fora, sem cerimônia.
Os quatro anos da gestão de Gelsinger custaram caro à Intel, cujo valor de suas ações caiu consideravelmente de 2021 para cá. Michelle Johnston Holthaus e David Zinsner, os novos co-CEOs, andaram dando declarações públicas sobre os novos rumos da empresa, e sendo bem claros que estão considerando encerrar a manufatura de chips, ou seja, uma migração para a estratégia fabless, tal qual a Nvidia e a rival AMD.

Após uma série de problemas, novo comando da Intel considera deixar manufatura para terceiros, e se concentrar no design de chips (Crédito: Divulgação/Intel)
A Intel se enrolou mais do que o esperado com as mais recentes gerações de seus processadores Core, e a Apple abandonar por completo o x86 em prol do ARM só piorou a situação da companhia. Não obstante, o mercado de PCs está gradualmente se tornando um nicho, apenas quem realmente precisa de máquinas parrudas, ou relativamente mais potentes, de profissionais à Glorious PC Gamer Master Race, continuará usando desktops e laptops.
A grande massa de consumidores finais, que só precisa acessar e-mails e checar as redes sociais, migrou para smartphones e tablets, e mesmo modelos razoáveis e acessíveis dão conta de apps pesados e jogos bem elaborados; na pior das hipóteses, o streaming atende os mais exigentes.
Como se não bastasse, o ARM está comendo o mercado de PCs pelas beiradas, com os chips Snapdragon investindo pesado em chips para laptops, compatíveis com Windows 11, o que levou a Holthaus dar uma declaração meio atrapalhada, de que tais computadores têm "altas taxas de devolução" por parte dos consumidores, o que foi desmentido, com dados, pela Qualcomm.
O fato é que a Intel, sob o comando de Gelsinger, passou anos investindo na produção de seus próprios chips, com apoio indireto do governo dos Estados Unidos, que buscava convencer Nvidia, AMD, e até mesmo a Apple, que de novo, não mais trabalha com x86, a abrir mão dos processos da TSMC em prol da gigante local, através da CHIPS Act, de US$ 280 bilhões em investimentos para a impressão de semicondutores por empresas dos EUA, em território nacional.
O problema, ninguém combinou com as três empresas, ou sequer perguntou se elas querem comprar chips da Intel; a maçã, por exemplo, está muito satisfeita com a TSMC, que já disse não ter intenção de imprimir seus processos mais avançados fora de Taiwan (e vai cobrar mais caro pelos demais), o mesmo valendo para a Samsung, em relação a suas instalações na Coreia do Sul.
Somam-se a investida atrapalhada da Intel em suas placas de vídeo próprias, que dão ponto de audiência, e a decisão consciente de ignorar o crescente interesse em IA, que a Nvidia abraçou com vontade, graças ao investimento antecipado nos núcleos CUDA presentes em suas GPUs, que a permitiu se tornar uma das empresas mais valiosas do mundo.
Morris Chang, fundador da TSMC, considerou tal movimento, em prol de focar em seus processos de impressão, "um erro" que pode ter contribuído enormemente para a remoção de Gelsinger do comando da empresa; o conselho da Intel considerou que a estratégia de negócios do então CEO não estava dando resultados satisfatórios, logo, era preciso mudar tudo, de cima para baixo.

Em seus quatro anos de gestão, ex-CEO Pat Gelsinger quase afundou a Intel (Crédito: Divulgação/Intel)
Os novos co-CEOs têm a missão de colocar a Intel de volta nos eixos, e não têm sido rogados ao expressar a ideia de que a gigante pode, para espanto de muita gente, deixar a manufatura de semicondutores, que hoje já opera de forma independente; em uma entrevista recente, Zinsner disse que os planos envolvem tornar a Intel Foundry uma subsidiária, mas que a desmembrar por completo "é um assunto para outro dia".
Hoje, a Intel é a maior cliente da Intel Foundry, e seus relatórios financeiros listam as transações entre elas como se a gigante já fosse uma empresa fabless, isto é, que não imprime seus próprios chips, só os desenha e deixa a manufatura para terceiros. A impressão de chips fez a companhia perder US$ 7 bilhões no último ano fiscal, e a notícia de um possível desmembramento fez suas ações na Bolsa de Valores subirem, e se manterem estáveis.
A coisa estava tão feia, que Gelsinger chegou a projetar que a Intel só entraria no verde em 2030, seguindo seu plano de focar em chips; como esperado, mais de 15 mil funcionários foram para a rua, afinal, é preciso economizar de alguma forma, e sua boca grande fez a empresa perder um desconto substancial junto à parceira TSMC, que imprime parte de seus chips. Dada a situação, não é de espantar que o conselho tenha lhe dado duas opções, ou ele se demitia, ou seria demitido; Gelsinger preferiu a primeira opção.
Com o encolhimento do mercado de PCs, e os chips ARM comendo espaço mesmo entre os que rodam Windows, a Intel precisará se reinventar radicalmente para continuar no mercado, e terceirizar a impressão de semicondutores, por mais chocante que isso possa ser (principalmente para o governo dos EUA, que não quer suas empresas dependendo da TSMC), e uma mudança traumática, ela pode permitir um respiro para a companhia ajustar seus processos, e se tornar verdadeiramente competitiva e lucrativa, a médio prazo.
Fonte: Reuters