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Nintendo usa DMCA para derrubar documentário no YouTube [ATUALIZADO]

Heroes of Hyrule, RPG tático cancelado que sairia para o DS, foi tema de reportagem no YouTube bloqueada pela Nintendo

12/12/2022 às 11:08

ATUALIZAÇÃO: o YouTube restaurou o vídeo; você pode assisti-lo aqui.

Segue abaixo o texto original.


Fato: a Nintendo é a companhia mais conservadora do mercado de games, no que se refere à proteção de suas propriedades intelectuais (IPs). A casa de Mario, Zelda, Pokémon e cia. já deixou claro, inúmeras vezes, que considera suas marcas seus bens mais preciosos, o que a leva e entrar frequentemente em atrito com todo mundo,  fãs e consumidores fiéis inclusos.

Os incansáveis advogados da Big N já encrencaram com tudo o que é possível imaginar, mas o último caso está sendo encarado como censura: a Nintendo usou a DMCA (Digital Millennial Copyright Act), lei de proteção a direitos autorais, para bloquear um documentário no YouTube.

Nintendo tem histórico de ser ultra protecionista em relação as suas IPs (Crédito: Reprodução/Nintendo)

Nintendo tem histórico de ser ultra protecionista em relação as suas IPs (Crédito: Reprodução/Nintendo)

Heroes of Hyrule, o Zelda Tactics que nunca foi

Em outubro de 2022, o canal do YouTube DidYouKnowGaming?, especializado em documentar histórias de bastidores e desenvolvimento da indústria, e por cavar fundo em projetos, games e acessórios esquecidos ou nunca lançados, como o teclado Work Boy, publicou um vídeo com detalhes interessantes sobre Heroes of Hyrule, um título para Nintendo DS que seria desenvolvido pela Retro Studios, desenvolvedora responsável pela série Metroid Prime.

O estúdio iniciou os trabalhos em 2004, no que o game traria uma abordagem similar à vista em Final Fantasy Tactics Advance, game lançado para o Game Boy Advance um ano antes. O plot é inclusive um "copy paste" do título portátil da Square Enix, no que o protagonista não é Link, mas um garoto que encontra um livro sobre heróis derrotando o vilão Ganon; dois terços do jogo se passariam dentro do livro, e o restante, no "mundo real", tal qual FFTA, no que as batalhas também se passam num livro.

A abordagem, no entanto, era diferente. Em Heroes of Hyrule, os heróis não ganhariam pontos de experiência através de combate, ao invés disso, teriam que explorar o ambiente e resolver quebra-cabeças, para coletar habilidades e power-ups. O jogador, na pele do leitor do livro, também podia colocar itens do mundo real no livro, para que estes pudessem conceder mudanças de status e poderes aos heróis.

Artes conceituais de Heroes of Hyrule: protagonista (esq.) e um castelo (Crédito: Reprodução/Retro Studios/Nintendo/DidYouKnowGaming?/YouTube)

Artes conceituais de Heroes of Hyrule: protagonista (esq.) e um castelo (Crédito: Reprodução/Retro Studios/Nintendo/DidYouKnowGaming?/YouTube)

O jogador deveria explorar tanto o mundo fantástico quanto o real para avançar na história, já que o livro teria páginas faltando, e cabia ao protagonista vasculhar o mundo e coletá-las. Da mesma forma, certas áreas só poderiam ser acessadas pelo leitor, se os heróis coletassem as chaves necessárias para destrancá-las; cada página adicionada ao tomo se reverteria em uma nova área para desbravar.

Segundo Paul Tozour, ex-desenvolvedor da Retro Studios, a equipe sofreu com burnout generalizado após o desenvolvimento de Metroid Prime 2, e trabalhar em uma franquia diferente seria uma forma de aliviar o estresse. Ele e Mark Pacini, diretor do primeiro Prime, compilaram suas ideias em um documento de 22 páginas, entre descrições e artes conceituais, e o apresentaram a Satoru Iwata, o então presidente e CEO da Nintendo.

O executivo, no entanto, não demostrou interesse na ideia de Heroes of Hyrule, e não só a podou sem cerimônia, como ordenou que a Retro Studios iniciasse os trabalhos de Metroid Prime 3: Corruption para o Nintendo Wii, que sairia em 2007.

Não obstante, Iwata os incumbiu de reviver a franquia Donkey Kong Country, um projeto que não era interessante para Tozour e outros da Retro Studios, no que acabou com estes deixando a companhia. Donkey Kong Country Returns só daria as caras em 2010, também no Wii.

Evil Nintendo Strikes Again

Esta não foi a primeira vez que o canal DidYouKnowGaming?, que reúne historiadores especializados na indústria dos games, cobre uma história a respeito dos bastidores da Nintendo. No caso de Heroes of Hyrule, Dr. Lava teve acesso ao documento criado por Mark Pacini e Paul Tozour, o mesmo apresentado a (e rejeitado por) Satoru Iwata, por uma entrevista concedida pelo último.

Nintendo demonstra seu amor pela história dos games (Crédito: Reprodução/YouTube)

Nintendo demonstra seu amor pela história dos games (Crédito: Reprodução/YouTube)

Ninguém esperava, no entanto, que a Nintendo subisse nos tamancos com a história, e tomasse a atitude mais antipática e controversa possível: através do Content ID, ferramenta do YouTube para clamar direitos autorais sobre vídeos compartilhados na plataforma, a casa do Mario bloqueou inteiramente o documentário.

O Content ID permite ao dono do copyright escolher a punição aplicada a um vídeo, que pode ser uma advertência, restrição da monetização, reversão da mesma para si (o que a Nintendo já fez no passado), ou a retirada do ar, o que foi o caso.

O ato da Nintendo pegou muito mal não só entre o público, mas também na mídia, visto que o DidYouKnowGaming? é essencialmente um canal jornalístico, focado em desenvolver reportagens e documentários sobre a história dos games. A atitude da companhia japonesa está sendo encarada como censura, uma tentativa de impedir a circulação de uma história que a empresa não quer que venha à tona.

No Twitter, o perfil do canal disse o seguinte (tradução do texto em imagem):

A Nintendo removeu nosso vídeo sobre Heroes of Hyrule do YouTube. Este era um documentário e trabalho jornalístico sobre um game em que a Retro Studios começou a trabalhar há quase 20 anos. Esta é uma tentativa de uma grande companhia em silenciar quaisquer reportagens das quais ela não goste, e um tapa na cara na preservação da história dos games. Estamos explorando todas as opções possíveis para restaurar o vídeo.

Já Dr. Lava disse em seu perfil pessoal que além de buscar recursos legais para restaurar o vídeo, há outras reportagens na fila para serem postadas no canal; ele só não esclareceu se elas envolvem, ou não, a Nintendo.

Na minha opinião, a Nintendo teria usado o Content ID para derrubar o vídeo sobre Heroes of Hyrule, devido a uma suposta quebra de um Acordo de Confidencialidade (Non-Disclosure Agreement, ou NDA). No passado, a gigante japonesa usou este mesmo argumento para, em 2013, barrar a publicação de um livro de Marcus Lindblom, diretor de localização de Earthbound, sobre como ele teve que adaptar conceitos do original Mother 2 para o público ocidental.

Quando o processo de financiamento coletivo para a publicação do livro teve início, Lindblom entrou em contato com a Nintendo, que inicialmente foi contra, e o lembrou de que ele assinou um NDA, no que ele era legalmente proibido de dar detalhes sobre o desenvolvimento do game. Na época, o projeto foi cancelado, e a história só foi contada em 2016, no livro Legends of Localization Book 2: EarthBound, desta vez, nos termos da Big N.

É provável que, como ex-desenvolvedor da Retro Studios, uma subsidiária da Nintendo, Paul Tozour tenha em algum momento assinado um NDA, se comprometendo a nunca revelar detalhes e histórias dos bastidores da companhia, sem que a mesma estivesse no controle da narrativa.

Assim, a gigante entenderia a revelação de que Heroes of Hyrule quase veio a existir, como uma violação de seus direitos sobre suas IPs, o que a Nintendo entende que ela, e somente ela, pode administrar.

Como dito antes, este não é nem de longe o único caso em que o departamento jurídico da Nintendo sai distribuindo marteladas. A companhia já implicou com:

Isso sem contar inúmeros games baseados em suas IPs criados por fãs, sem interesse comercial, como o excelente AM2R, Pokémon Uranium, Mario Battle Royale, Zelda: Breath of the NES (um demake de The Legend of Zelda: Breath of the Wild para o Nintendinho), e muitos outros; todos receberam o temido Cease and Desist da Nintendo, e desapareceram por completo.

Exatamente por isso, muitas iniciativas interessantes nunca saem da fase de projeto, embora pudessem render games excelentes. Foi o caso da adaptação do desenho animado The Super Mario Bros. Super Show!, que era apenas um exercício conceitual e nunca foi compartilhado, para não enfurecer os advogados da Nintendo.

Para variar, a Nintendo não se pronunciou sobre o bloqueio do vídeo do DidYouKnowGaming? sobre Heroes of Hyrule, e conhecendo a empresa, nunca o fará.

Mario não perdoa (Crédito: Reprodução/Nintendo)

Resta aguardar para descobrir se o canal conseguirá reverter a decisão do YouTube, e restaurar (ou não) o documentário.

Fonte: Kotaku

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