Ronaldo Gogoni 9 anos atrás
Personagens virtuais não são nenhuma novidade. Max Headroom, "desenvolvido" para a TV britânica, é considerado o primeiro apresentador de TV virtual (na verdade, um ator). Nos anos 1990 e 2000, várias empresas tentaram criar indivíduos digitais para desempenhar funções na mídia, como Ananova (a verdadeira primeira 100% digital), e a brasileira Eva Byte, ex-apresentadora do Fantástico.
Nenhuma dessas iniciativas revolucionou o jornalismo, ninguém consegue se conectar com um personagem "quase real" por diversos motivos, e o Vale da Estranheza é um deles.
O Japão sabe disso, e não é coincidência que a idol virtual Hatsune Miku faça tanto sucesso: ela é um anime ambulante projetada em shows ao vivo, nada diferente do que o grupo musical Gorillaz fez há tempos. Claro, os nipônicos também têm sua cota de ideias estranhas.
Miku, assim como as demais personagens associadas à marca Vocaloid, como personagens animados, são mais facilmente aceitos pelo público, pois não causam aquela repulsa que um modelo quase humano gera, e por serem empregados em mídias de entretenimento, acabam tendo vidas úteis muito mais longevas do que os “jornalistas virtuais”. A japinha digital de cabelos verdes foi criada em 2007, e continua popular.
Por isso não surpreende que um artista japonês tenha percebido o óbvio: YouTubers por si só são personalidades tão descartáveis quanto artistas pop, logo, criar um do zero e promover seu canal não é nada tão difícil assim.
E assim nasceu KizunaAI.
Criada por um desenvolvedor que não quer se identificar, que muito provavelmente usa o software MikuMikuDance para as animações, KizunaAI é uma YouTuber como qualquer outra, com a única diferença que ela só existe no mundo virtual. Ela aborda uma série de assuntos em seus vídeos, e até “joga” alguns games populares. Acima ela testa Inside, dos mesmos criadores de Limbo.
O canal da YouTuber virtual já é bem popular: inaugurado em novembro de 2016, no momento da publicação deste post, ele conta com mais de 200 mil assinantes. Seus vídeos têm uma média de 25 a 30 mil visualizações, mas o acima é o campeão, com mais de 415 mil execuções. Embora seja um caso isolado, ser popular no YouTube tem muito de originalidade e querendo ou não, a grande sacada de KizunaAI não está no conteúdo, mas na forma.
Tudo o que ela faz é comum, mas um apresentador virtual, ainda que conte com uma atriz por trás, é algo que até então ninguém havia pensado em fazer. Mesmo não tendo sido a primeira YouTuber virtual (esta seria Ami Yamato), KizunaAI é a primeira criada especificamente para entretenimento, apoiada na estética anime.
É exatamente este o problema da maioria dos canais no YouTube hoje: mais do mesmo. São poucos aqueles que se destacam pelo diferencial em seus assuntos (como o canal Aviões e Músicas, recomendado), e acabam apelando para estratégias mais banais. O tanto de canais com conteúdos que variam do ridículo ao lixo se proliferam porque nós adoramos besteirol.
Outra alternativa é chocar por chocar, e foi dessa forma que PewDiePie se estrepou de verde e amarelo. Em uma análise fria, essas pessoas precisam de sua audiência para se sentirem completos, é uma espécie de solidão virtual de pessoas que atingem milhões de espectadores por vídeo, mas não interagem diretamente com quase ninguém, e para manter as visualizações altas, acabam apelando cada vez mais.
É o que o filme Like Me, apresentado na última semana no SWSX 2017, aborda. A personagem principal é Kiya, uma adolescente com um forte desejo de ser aceita e se conectar com as pessoas. Como todo introvertido da atualidade, ela acaba abrindo um canal no YouTube, onde publica vídeos que fazem as estripulias de PewDiePie e cia. parecerem brincadeiras de criança.
Obviamente que a coisa desanda. Ela se envolve com um espectador nitidamente bem mais velho, e devido à rejeição a suas tentativas de chamar-lhe a atenção, acaba produzindo e publicando vídeos cada vez mais controversos: de filmagens de assaltos e sequestros que ela executa, à produção de snuff movies.
Daí para a frente, é só ladeira abaixo.
Embora o objetivo do filme seja chocar, não é tão alienígena a ideia de que um caso como esse pode realmente ocorrer. As pessoas estão em busca de sempre atingir o público e conseguir audiência, e sempre haverá aqueles dispostos a dar um passo além e cruzar a linha.
Não há previsão de lançamento de Like Me nos cinemas, é provável que ele acabe restrito a festivais; de qualquer forma, sempre há a Locadora do Paulo Coelho.