Carlos Cardoso 44 semanas atrás
O Quarteto Fantástico foi uma das mais difíceis propriedades dos quadrinhos para ser adaptada. Nem Sandman deu tanto trabalho, mesmo fãs fiéis tinham suas dúvidas, mas -spoilers- deu certo, deu muito certo.

Eles são mais famosos que os Beatles! (Crédito: Marvel Studios/Disney)
Criado em 1961 pelo gênio Jack Kirby e colaboração de Stan Lee, o Quarteto Fantástico foi a Primeira Família da Marvel, em um momento que a editora ia meio mal das pernas, com quadrinhos em baixa e o formato serial saía de moda.
Kirby sacudiu a poeira e propôs algo que Stan Lee adorou: Histórias mais complexas, explorando personagens humanos, com conflitos e problemas, algo que seria a base do Homem-Aranha, lançado no ano seguinte.
Nascidos em uma época sonhadora e repleta de fantasias e aspirações tecnológicas, o Quarteto Fantástico era diferente da maioria dos grupos, seu líder não era o mais forte, e sim o mais inteligente; Reed Richards resolvia problemas mais com a mente do que com os punhos.
Reed Richards, famoso cientista construiu um foguete para ir ao espaço, pilotado por Ben Grimm, seu melhor amigo do tempo da faculdade, na tripulação Susan Storm, namorada de Richards, e Johnny, irmão de Susan. Ben queria adiar o lançamento para estudar melhor o efeito dos raios cósmicos, mas Richards estava com pressa. Susan concordou, afinal tinham que “vencer os comunistas” (ei, é uma história de 1961).

Importante é vencer os comunas! (Crédito: Marvel Comics/Disney)
Eles invadem a instalação do governo, roubam o foguete e decolam, passam por uma tempestade de raios cósmicos e ao invés de câncer espacial, ganham superpoderes.
Reed, em um surto de arrogância digno de Reed Richards, assume o codinome de Senhor (e não Doutor) Fantástico, é a terceira criatura mais inteligente do Universo Marvel, um polímata versado em todas as Ciências, ganhou o estranho poder de se esticar. E sim, nas primeiras histórias ele era apresentado como Dr. Reed Richards.
Susan Richards, née Storm, então namorada de Reed, e nesse tempo todo é a personagem que mais evoluiu. De Garota para Mulher Invisível, se tornou mãe, ampliou seus poderes e se tornou de longe o membro mais poderoso do grupo. Para o povo que reclama dela encarando o Galactus no filme, nos quadrinhos ela já enfrentou três CELESTIAIS ao mesmo tempo. Susan consegue criar campos de força e se tornar invisível.

Ben é 10 (Crédito: Marvel Studios/Disney)
Johnny Storm, irmão de Sue, é o esquentadinho do grupo. Playboy, cheio de marra, pegador e o Tocha Humana, deve ter mais filhos espalhados pelo Universo do que o capitão Kirk. Ele consegue voar, emitir rajadas de fogo e até causar uma imensa explosão de energia.
Ben Grimm, o Coisa, foi o mais afetado pela chuva de raios cósmicos que deu poderes ao Quarteto. Seu corpo é coberto por uma camada impenetrável de pedras, ele é brincalhão e gente boa, mas por dentro sofre por ser um monstro. Reed carrega uma profunda culpa por ter causado indiretamente a transformação de Ben, e nunca ter conseguido revertê-la permanentemente.
O Quarteto se tornou preferido do público por mesclar histórias comuns de quadrinhos com aventuras explorando o lado humano dos personagens, conflitos familiares, relacionamentos e crises conjugais, com Namor constantemente talaricando Reed e dando em cima de Sue, que embora não tenha correspondido fisicamente, já deixou evidente que tinha uma queda bem forte pelo sujeito de sunguinha.

Susan Susan... (Crédito: Marvel Comics/Disney)
Em algumas fases as histórias começaram a abordar temas mais abrangentes, e durante a passagem de John Byrne pelo título, ele transformou o Quarteto Fantástico em uma verdadeira antologia de ficção científica, considerada uma segunda Era de Ouro dos personagens.
Foram feitas quatro tentativas para trazer o Quarteto para a grande tela: 1994, 2005, 2007 e 2015. Ter demorado tanto se explica pelo dinheiro; são personagens que exigem muitos efeitos visuais, bem caros. O filme de 1994 só saiu (ok, a rigor não saiu) por ser uma artimanha do estúdio para não perder os direitos sobre os personagens; deram US$ 1 milhão para Roger Corman, o Rei dos Filmes B, para que ele fizesse um filme que nunca seria lançado.
Os efeitos são constrangedores como você pode imaginar, mas mesmo depois disso, com mais dinheiro, continuou algo difícil.
O Sr. Fantástico tem um poder muito difícil de ser visualizado sem ficar ridículo. Os produtores de Ms. Marvel nem tentaram, alteraram os efeitos da Kamala Khan para que ao gritar “engrandalhecer!” ela não se esticasse, mas gerasse construtos de luz sólida.
No geral os filmes posteriores ao de Roger Corman penaram por falta de coragem, não de dinheiro. Os diretores não entenderam que, assim como Velozes e Furiosos, Quarteto Fantástico é sobre Família, não sobre ameaças cósmicas, mas se você vai colocar uma ameaça cósmica, mostre Galactus como um gigante alienígena, não como uma fucking nuvem. Covardes.
O filme de Josh Trank acabou com a carreira dele, como diretor E como roteirista. Depois do Quarteto em 2015 ele só fez Capone em 2020, depois disso, absolutamente nada. Merecidamente. O filme parece escrito por alguém que recebeu uns 3 gibis, olhou as capas e achou que já sabia tudo sobre os personagens. É um show de vergonha alheia, até os fãs racistas que planejaram protestar contra a escalação de Michael B. Jordan como Johnny Storm terminaram com pena do ator por se envolver com aquela bomba.
A coisa foi tão feia que a Marvel, em uma edição do Justiceiro matou de forma gratuita o elenco do filme... mesquinho? Com certeza.

Isso foi muito mesquinho (Crédito: Marvel Comics/Disney)
Trazer os personagens para o Universo Cinematográfico Marvel era um problema; eles nunca apareceram ou foram mencionados nos filmes anteriores, e Reed Richards com certeza seria útil contra Thanos. A saída foi usar o bom e velho Multiverso, que ninguém liga e parece um recurso fácil de resetar problemas e varrer tudo para debaixo do tapete.
A solução que a Marvel deu foi colocar o Quarteto em um Universo Alternativo, mas fazer esse Universo INTERESSANTE. Ao invés de mais um filme de origem, fizeram como Superman e jogaram a gente no meio da História.
O filme se passa em 1964, 4 anos após o surgimento do Quarteto. Com seus poderes e inteligência, eles transformaram a Terra em uma utopia, sem exércitos, guerras, fome e escassez. É um mundo retrofuturista claramente inspirado na estética de Loki, misturando toca-discos com carros voadores, robôs com TVs de tubo. Também lembra o injustamente pouco falado Tomorrowland.
Susan está casada com Reed, e descobre que está grávida. Eles são heróis do mundo todo, celebrados nas ruas, enfrentando ameaças como invasões espaciais, o Toupeira, o Pensador Louco e vários monstros, em uma montagem que vai fazer fãs de quadrinhos gritarem feito garotinhas lembrando de histórias que leram décadas atrás.
Durante essa montagem vemos uma singela homenagem; quatro pessoas celebrando o quarteto... são os atores do filme de Roger Corman, de 31 anos atrás.

O elenco do filme de Roger Corman (Crédito: Reprodução Internet/Marvel Studios/Disney)
Um jantar do Quarteto é interrompido por uma ameaça cósmica: Uma chuva de fogo e meteoros anuncia a chegada do Arauto de Galactus, o Devorador de Mundos, que não é Norrin Radd, mas sua amada Shalla-Bal, mas calma, Nerd Raivoso. Ela não é a NOSSA Surfista Prateada, a história se passa no Universo 828 (28 de Agosto, aniversário de Jack Kirby), o que abre portas para o “verdadeiro” surfista aparecer em novos filmes.
Ela vem avisar que a Terra vai ser destruída por Galactus, Devorador de Mundos, uma entidade com bilhões de anos de idade, que existe para manter o equilíbrio cósmico; os Celestiais criam mundos, Galactus os destrói.
Quem reclamou que o Escoteiro Azulão apanhou muito no filme dele, não vai gostar aqui; Reed cria planos para estudar e deter Galactus, mas depois que viajam para o espaço e encontrar o Devorador de Mundos devorando um mundo, usando as máquinas em sua nave para absorver a energia vital do planeta, o Quarteto Fantástico percebe que estão completamente, absolutamente, comicamente despreparados para lidar com uma ameaça cósmica daquele nível.

Moebius foi um dos poucos artistas capazes de captar a grandiosidade de Galactus (Crédito: Marvel Comics/Disney)
Eles são recebidos por Galactus, que está interessado no filho ainda não-nascido de Susan e Reed; preocupado com a possibilidade do bebê nascer com algum problema por causa dos poderes dos pais, Reed fez todos os exames possíveis, mas não detectou nada de anormal, mas Galactus revela que o bebê é uma fonte do Poder Cósmico, uma energia primordial originada dos Celestiais, e nessa versão os membros do Quarteto foram expostos a “raios celestiais”, durante sua primeira viagem ao espaço.
Galactus pede a criança em troca de poupar a Terra, o que faz com que todos piquem a mula, em uma perseguição espacial de primeira qualidade, que envolve até surfar na borda de um buraco negro. Ah sim, e nisso Franklin Richards decide nascer.
É feito um parto no espaço, em gravidade zero, felizmente sem sangue, do contrário o interior da nave deles pareceria cenário d’O Enigma do Horizonte.
De volta para a Terra, Reed Richards precisa planejar como enfrentar uma entidade cósmica como Galactus, proteger sua família e seu planeta.
Falaram que Johnny Storm seria politicamente correto, não seria mais mulherengo, mas não é isso; ele apenas não tem tempo pra pegar ninguém, continua o ladrão de corações de sempre, nos quadrinhos prequel lançados pela Marvel ele tem até fã-clube por correspondência, e quando resolve dar uma ideia numa moça, ele joga muito, muito além da própria divisão.
A melhor mudança é que ele é extremamente inteligente, decifra sozinho uma linguagem alienígena. Ben Grimm é mostrado como um excelente piloto, algo mais falado do que demonstrado nos filmes anteriores. Além disso ele é um ótimo cozinheiro, e até fez o parto da Sue. Uma pilha de pedras bem prendada.
Susan Richards, além da alma do Quarteto é uma arqueóloga e diplomata. Definitivamente não é “do lar”.

Mulher porreta (Crédito: Marvel Studios/Disney)
Outra grande mudança: O mundo do Universo 828 depende do Quarteto para tudo; há ameaças, monstros, vilões, mas não há outros heróis. Não há um Homem de Ferro, um Thor, um Tio Ben (exceto o Coisa). As mortes que vimos no MCU não foram desrespeitadas, não perderam seu significado.
Quarteto Fantástico: Primeiros Passos é uma espécie de reboot, uma amostra de como o MCU pode crescer e mudar sem perder sua força original; é o Multiverso sendo muito bem usado, agregando novos personagens de continuidades incompatíveis, mas com muitas histórias para contar.
No final de Thunderbolts* há uma cena pós-créditos que mostra a nave do Quarteto chegando no Universo 616, o “oficial” do MCU. Dada a qualidade do Universo 828, nem estou com pressa, gostaria de mais histórias antes dessa migração, o que só prova a qualidade do filme. Fazer o Multiverso interessante não é para qualquer um.
4,8/5 Sunguinhas do Namor