Ronaldo Gogoni 45 semanas atrás
Caloteiros e espertos existem em todo lugar, e o cenário dos streamers não é diferente. A VShojo, uma agência de talentos voltada a promover VTubers, sofreu um êxodo de parceiros após diversas denúncias de calotes.
Alguns criadores de conteúdo alegam que não recebem um centavo sequer há quase um ano, e como se não bastasse, a companhia se apropriou indevidamente de dinheiro arrecadado para uma campanha beneficente, e claro, o gastou.

Calotes e outros problemas causaram êxodo de VTubers da VShojo (Crédito: Reprodução/acervo internet)
Antes de mais nada, vamos contextualizar: VTubers são aqueles streamers que usam avatares virtuais e nomes fictícios como suas identidades online em suas transmissões, geralmente no YouTube e/ou Twitch, cobrindo uma gama de assuntos, de games a filmes a outros temas. A primeira do tipo, KizunaAI, que cunhou o termo, surgiu em 2016.
Streamers usam o software freeware MikuMikuDance (MMD) para criar as personagens e animações, é o mesmo programa que deu "vida" à idol virtual Hatsune Miku. Os avatares são aplicados sobre o stream, e os criadores usam captura de movimentos para animá-los em tempo real. Alguns criadores criam os avatares de forma independente, ou podem contratar artistas para fazê-lo, mas os modelos em geral são compartilhados em regime open source.
Depois que KizunaAI pegou tração, vários outros streamers começaram a aderir ao formato, e houve um boom de VTubers durante a pandemia, como não podia deixar de ser. A VShojo, fundada em 2020 na Califórnia, foi uma forma de unir vários criadores sob um mesmo guarda-chuva, para facilitar a promoção dos mesmos.
O grupo reuniu inicialmente duas VTubers em atividade desde 2017, Zentreya e ironmouse, um dos streamers da Twitch mais populares de todos, com ou sem avatar virtual. Elas são consideradas "fundadoras" da empreitada com Project Melody, a primeira VTuber 18+, embora ainda fossem contratadas (atenção nesta parte).
Em 2022, a VShojo abriu uma filial no Japão, adicionando a seu portfólio a streamer Kson, que atuava de forma independente desde 2016 (de fato, ela surgiu um pouco antes de KizunaAI). Ao todo, o grupo respondia por 21 criadores, a maioria mulheres, gerenciando suas transmissões e receita.
E é aqui que as coisas ficam feias.
Ainda que ironmouse não revele sua identidade, ela não esconde ser de origem porto-riquenha, e que sofre de imunodeficiência comum variável (IDCV), uma condição em que seu sistema imunológico é muito fraco, o que a deixa exposta a uma série de doenças que em situações normais, seriam facilmente debeladas pelo organismo; segundo a streamer, sua voz peculiar é decorrente disso.
Mais de uma vez, a VTuber usou de seu alcance para realizar transmissões beneficentes, em que a renda com doações seria revertida à Immune Deficiency Foundation (IDF), uma organização norte-americana dedicada a tratar pacientes que sofrem de problemas imunológicos. ironmouse diz que sem tal assistência, ela não estaria viva.
Pois bem: em um vídeo recente (acima), ironmouse revelou que está se desligando da VShojo por dois motivos. Primeiro, a agência lhe deve dinheiro, e segundo, a principal razão, a IDF não recebeu cerca de US$ 515 mil (~R$ 2,84 milhões, cotação de 24/07/2025), originado de uma de suas campanhas.
Após as denúncias e em menos de 24 horas, várias outras streamers associadas com a VShojo vieram a público, dizendo que também não estavam sendo pagas, algumas desde setembro de 2024, coincidentemente, a mesma época em que ironmouse realizou seu último stream beneficente, onde ela levantou os US$ 515 mil. Pouco a pouco, estas também anunciaram que estavam pulando fora do barco.
Como se não bastasse...
Kson quitting on live stream is not on the bingo card damn Vshojo pic.twitter.com/BIUOQYANDD
— Chard (@RIgnacio724) July 22, 2025
Em um streaming realizado pouco depois do anúncio de ironmouse, Json conversou ao vivo com o CEO da divisão japonesa da VShojo, Koshi Makino, que admitiu que a grana levantada pela criadora porto-riquenha pode ser sido gasta internamente, para "cobrir custos operacionais" da matriz. Ela então anunciou, no ar, que também está deixando a companhia.
Piora? Claro que piora.
Segundo uma declaração da ex-atrix pr0n japonesa Kaho Shibuya, que hoje tem uma carreira estável como tarento, cosplayer e streamer, baseada em um relato que ouviu de um terceiro (logo, mantenha os dois pés atrás aqui), um funcionário da VShojo teria compartilhado dados pessoais dos streamers com outras pessoas, sem consentimento (lembrando, suas identidades reais não são públicas).
No momento da publicação original deste artigo, das 21 streamers contratadas, apenas uma permanecia na VShojo, esta sendo Froot/Apricot, que anunciou seu desligamento pouco tempo depois; outros criadores que recentemente haviam acordado sua entrada, como PiaPi e Beri, pediram para seus contratos serem anulados, e não se união à companhia.
— Froot💀 (@LichVtuber) July 21, 2025
Na prática, a VShojo implodiu. Com zero streamers no portfólio, seus responsáveis, o CEO Justin "TheGunrun" Ignacio, que fez parte do time original de fundadores da Twitch, o CTO Phillip "MowtenDoo" Fortunat, e o COO Daniel "Apek" Sanders, terão muito provavelmente que responder na Justiça a todos os lesados, sobre quantias devidas e desvio de dinheiro dedicado à caridade.
ATUIALIZAÇÃO: VShojo is no more.
Segundo mensagem publicada por Ignacio no X, anunciando o fechamento da agência, ele "não sabia" para qual propósito o dinheiro arrecadado por ironmouse se destinava, e como esperado, a postagem foi contemplada com uma Nota da Comunidade, desmentindo-o categoricamente:
Ele não só sabia, como parabenizou pessoalmente a VTuber pela campanha.
— VShojo (@VShojo) July 24, 2025
Quanto aos VTubers, a maioria já declarou que deverá seguir de forma independente, e muito provavelmente pensarão duas vezes antes de se associarem de novo a uma companhia prometendo aumentar ganhos e visualizações.
Fonte: Newsweek, Sports Illustrated