Ronaldo Gogoni 20 semanas atrás
Antes de mais nada, o óbvio disclaimer: eu sei muito bem que Duet Night Abyss foi lançado em outubro de 2025, mas até sua recente chegada ao Steam, eu não se senti suficientemente animado para testá-lo. O que me compeliu a finalmente ceder foi descobrir o que acontece quando um game muda seu plano de negócios de forma radical durante a fase de desenvolvimento.
A desenvolvedora chinesa Pan Studio decidiu abandonar todas as mecânicas de gacha propostas no plano original, em prol de tornar o título um free-to-play com microtransações, o que acabou essencialmente mudou apenas a moeda de troca: ao invés de dinheiro, você vai pagar para jogar Duet Night Abyss com seu tempo.
A história de Duet Night Abyss, ou DNA, segue o molde do gênero F2P dos games desenvolvidos no oriente: Atlasia é um mundo onde magia e tecnologia coexistem, e em que nações estão em conflito. Você controla um caçador(a) chamado Vita (você pode mudar o nome e o gênero, como de costume) que, durante a invasão do Império à sua cidade natal, você acaba separado de sua melhor amiga e indo parar em uma terra diferente, em meio a intrigas e conflitos típicos do gênero.
Não é preciso forçar muito para perceber que o enredo e mecânicas principais de DNA foram construídos em torno do modelo de negócios de gacha, com personagens e situações sendo introduzidos a conta-gotas para justificar as temporadas para a aquisição de personagens, armas, e afins.
Uma parte interessante do game, entretanto, os personagens controláveis não se restringem a apenas um tipo de arma, como na maioria dos gachas 3D, mundo aberto ou não. Aqui é possível usar armas de combate corpo-a-corpo e de fogo, e trocar entre elas apenas com alguns toques de botões. Essa abordagem o fez ser inevitavelmente comparado a Warframe, que usa mecânicas quase idênticas; a "inspiração" chega ao ponto de algumas armas em DNA serem reproduções perfeitas às do título da Digital Extremes.
Outra característica importada de títulos F2P é a dos hubs públicos, o game incentiva a cooperação entre jogadores e os servidores implementam a opção de enfrentar inimigos e explorar dungeons com companheiros, similar a um MMO mas não sendo totalmente ligado a este gênero. Preferir a companhia de gente real no seu time é até preferível, visto que a IA do jogo é bem burrinha ao controlar seus personagens.
Vamos falar da parte mais óbvia do game: Duet Night Abyss foi planejado para ser mais um gacha, mas a apenas dois meses do lançamento da versão 1.0, os desenvolvedores do Pan Studio decidiram abolir todas as mecânicas ligadas ao gênero. Isso significa que todos os personagens e armas, que não possuem mais diferenças de ranking, podem ser adquiridos apenas jogando, e não há um sistema de "energia" que se esgota e o impede de jogar.
O grande, enorme, gigantesco problema, o plano de negócios e toda a estrutura de DNA já estava pronta, e sem as mecânicas básicas do gacha, a Pan Studio teve que implementar uma paywall nos personqgens e equipamentos desejados que cobra outra moeda. Apenas sai dinheiro, e entra o seu tempo.
Hora de tirar o bode na sala: é fato que quase tudo o que você precisa para avançar pode ser conseguido jogando, mas você terá que fazer um grinding pesadíssimo para reunir os recursos necessários, que sem surpresa, ainsa estão sujeitos à governança do sagrado RNG. Você até pode investir dinheiro real para comprar personagens diretamente e poupar o seu tempo, mas saiba que esses atalhos são bem caros.
A rigor, DNA foi convertido em um game F2P com microtransações pagas, e aqui vai uma pequena confissão: eu menti. Ele ainda possui uma mecânica de gacha na aquisição de tais itens, especialmente os mais interessantes como roupas de banho (não é um F2P oriental sem uma boa dose de fanservice), mas eles são puramente estéticos e não influem em nada na progressão da história, diferente de outros jogos que estimulam o FOMO, a fim de fazer com o que o jogador abra a carteira em busca de waifus limitadas.
A maioria dos Jogos Como um Serviço (GaaS) seguem a lógica "não há almoço grátis", em que não importa como, sempre há algo que o jogador deverá investir para ter uma experiência satisfatória. Não entenda mal, Duet Night Abyss tem um sistema de combate divertido e é visualmente lindo, mostrando mais uma vez que a Unreal Engine 4 ainda tem muita lenha para queimar, a Square Enix que o diga.
Por fim, a localização. Como boa parte dos gachas, mesmo um que abandonou o gênero não tem nenhum suporte ao português, seja o de brasileiro ou o de Portugal; DNA possui opções de legenda e dublagem apenas em chinês, japonês, coreano, e inglês.
A decisão da Pan Studio em fazer de Duet Night Abyss um FP2 com modelo de negócios focado em microtransações diretas é um reflexo das tendências de mercado, em que quando um gênero faz sucesso, logo surgem dezenas de outros similares; o modelo de gacha explodiu em popularidade graças aos games da miHoYo, mas como consequência, todo mundo começou a fazer igual; cerca de dois ou três novos são lançados por semana.
Assim, a desenvolvedora de Pequim devidiu que seria melhor arrecadar provavelmente menos, mas ter mais chances de concorrer com outros F2P, e acenar para uma mudança de paradigma; Ananta, outro gacha que será lançado em 2026, também anunciou que vai seguir os passos de DNA, e o mesmo pode ser dito de Where Winds Meet.
O revés dessa história, Duet Night Abyss exige que você pague para jogar com seu tempo, ao invés de seu dinheiro.
É esperado que mais desenvolvedoras notem que o gênero gacha está saturado e apenas os estabelecidos no topo da lista deverão continuar a lucrar em grandes volumes, e mesmo estes e outros F2P têm seus próprios problemas. A estratégia de DNA ao implementar grinding em abundância pode ser desajeitada, mas ao menos evita que os jogadores gastem o que não têm para completar sua coleção de waifus.
No mais, é esperado que 2026 traga mais jogos similares e, com sorte, voltados a uma estratégia free-to-play equilibrada (Marvel Rivals e o próprio Warframe são bons exemplos), no que as carteiras dos gamers muito agradecem.
Pontos Fortes:
Pontos Fracos: