Ronaldo Gogoni 47 semanas atrás
Fato: o Japão é aquele estranho país que não se decide se vive no passado ou 250 anos no futuro, e nessa bagunça, coisas estranhas costumam aparecer na mídia, tal como Umamusume: Pretty Derby.
A franquia multimídia, estrelada por versões fofinhas de cavalos de corrida, reproduz passagens reais nos mínimos detalhes nos mangás e animes, e é uma das duas marcas mais valiosas da Cygames, ao lado da série Granblue Fantasy.
O game, lançado originalmente em 2021 no Japão para iOS, Android e Windows, já era conhecido por estas bandas, mas ninguém esperava que a localização em inglês, disponível também no Steam, faria tanto sucesso a ponto de se tornar um dos líderes de audiência na Twitch.
No mercado de games mobile, onde os Jogos como um Serviço (GaaS) se tornaram a norma entre grandes e pequenas desenvolvedoras, o gênero gacha é sem surpresa o maior gerador de renda, salvo raríssimas exceções como o MOBA Honor of Kings, ainda o campeão nesse sentido. Empresas como a Hoyoverse e a Shift Up faturam muitas verdinhas todos os meses, estimulando jogadores a gastarem muito dinheiro rodando banners de personagens, armas, equipamentos, e visuais alternativos (skins).
Dentre os vários jogos orientais, gachas ou não, os que apelam para o antropomorfismo moe (uma gíria japonesa atribuída a garotas jovens e bonitas) que transforma armas, veículos, animais em garotas humanas atraentes/fofas, é um dos mais estranhos e que sempre atraiu olhares tortos dos ocidentais. Games mobile do tipo são geralmente voltados a um público mais de nicho, com alguns poucos como Girls Frontline (armas de fogo) e a série Touhou Project (youkais, criaturas sobrenaturais do folclore japonês) furando a bolha.
Dentre todos, Umamusume: Pretty Derby talvez seja o de público mais originalmente restrito, isso vindo de alguém que joga outro gacha do tipo, Azur Lane (navios de guerra que também são waifus), desde 2018.
O conceito é bem simples e até um tanto bobo, afinal, Japão: cavalos e éguas de corrida japoneses do passado renasceram como "garotas cavalo" (daqui por diante usaremos o termo uma, "cavalo" em japonês, o oficial), mantendo todas as características de sua vida equina anterior, como resistência e velocidade, além de obviamente terem orelhas e caudas de cavalo.
As melhores umas entre elas são treinadas e competem em torneios oficiais, que nos mangás e animes reproduzem fielmente quase todos os eventos originais, do clima das corridas a ferimentos que os cavalos sofreram, bem como os resultados das competições. O game, por razões óbvias, é mais livre.
Você pode escolher umas para treinar e competir; os elementos gacha estão nas roletas para conseguir treinadores (mais umas) e cartas de suporte, ambos com níveis de raridade. Comparando a Genshin Impact, estes são os equivalentes a personagens e armas, respectivamente.
Como de praxe, você depende da sorte e quantidade de recursos disponíveis para rodar as roletas, e as moedas ingame podem ser repostas com dinheiro real; há também um modo história e outro de concertos musicais, já que por serem todas garotas fofas, as umas também são idols.
Claro que a mecânica principal é a das corridas. Uma vez treinada, sua uma irá competir com outras e a CPU decide o resultado, baseado em quão bem sua personagem foi evoluída em relação às adversárias. Para quem está acostumado com o turfe real, a ideia é oferecer o mesmo tipo de sensação ao apostar no seu cavalo favorito.
E o pessoal está perdendo a cabeça no processo.
"Umamusume: Pretty Derby" is straight Dopamine#umamusumeprettyderby https://t.co/Q0WyoozOgP pic.twitter.com/2chFowIAYk
— Battle Athlete ⬇️↘️➡️+👊 (@BATTLE_ATHLETE) June 29, 2025
Lançada em 25 de junho de 2025, a versão localizada de Umamusume: Pretty Derby alcançou a marca de 28.784 jogadores simultâneos no dia 03/07 no Steam, e só subiu de lá para cá. Nesta quarta-feira (9), o game assinalou um recorde de 50.725 jogadores, e no momento que este post vai ao ar, há mais de 33 mil jogando.
Já na Twitch, a categoria do game conta com mais de 80 mil inscritos (a título de comparação, Death Stranding 2: On the Beach tem 5,7 mil), e streamers grandes, incluindo alguns que não consumiam gachas em primeiro lugar, como Ludwig e Northernlion, se renderam às umas; os arroz-de-festa que jogam de tudo, como a VTuber ironmouse, também aderiram às corridas.
A parte mais interessante é que o game também impulsionou o interesse dos jogadores pelos cavalos reais; a égua Haru Urara, por exemplo, recebeu diversas interações em postagens nas redes sociais. Por outro lado, a Cygames veio a público para desestimular turistas a aparecem sem aviso em ranchos para visitar os cavalos já aposentados, e não os incomodar com atitudes que os estressem, como tirar fotos com o flash ligado.
A empresa também não tolera pr0n e conteúdos violentos, ou que desvirtuem as umas, e estabeleceu regras bem claras sobre criação de conteúdo em parceria com a JRA (Associação Japonesa de Turfe), de modo a não prejudicar a imagem dos cavalos de corrida reais e do esporte, que é muito popular por lá.
Umamusume: Pretty Derby não vai mudar o mercado de games, e como todo gacha deve ser apreciado com parcimônia, para ninguém arrombar o orçamento gastando tudo nas roletas, mas é sempre interessante ver um título de nicho atrair tanto interesse; mesmo considerando a temática anime e personagens fofinhas, continua sendo turfe estilizado, um esporte de nicho (e para endinheirados) na vida real.
De qualquer forma, o game das umas é uma curiosidade no meio dos games que buscam antropomorfizar tudo, mas não vai tão longe como Date Everything!, uma ideia absurda que teve uma execução fenomenal; já para quem quer colocar garotas fofinhas para correr, cantar e dançar, Umamusume: Pretty Derby é uma boa pedida.