Dori Prata 1 ano atrás
Embora muitos desenvolvedores estejam sempre buscando inovar, causar uma revolução em um gênero está longe de ser algo simples. Assim, é comum vermos alguns estilos de jogos se apoiarem em fundações que remetem ao início dos videogames e os RTSs estariam entre os jogos que precisam passar por uma reformulação. Pelo menos é no que acredita Dave Pottinger.
Tendo passado mais de uma década trabalhando para a Microsoft, o game designer tem um currículo de respeito. Além da trilogia Age of Empires, ele também ajudou a criar o Age of Mythology e participou do desenvolvimento do Halo Wars. Em julho de 2023 ele fundou o Last Keep, estúdio que atualmente está produzindo o Project Citadel, “um jogo de estratégia para a nova geração de gamers,” conforme dito em sua página no Steam.
Mas o que Pottinger e sua equipe esperam entregar para essa nova geração de jogadores? Será que eles realmente conseguirão implementar novidades capazes de diferenciar o novo título do que foi desenvolvido nas últimas décadas?
Quando o Project Citadel for disponibilizado como em Acesso Antecipado na loja da Valve, talvez tenhamos respostas para essas perguntas, mas ao participar do Videogamer Podcast, o game designer falou sobre como vê o atual estágio dos RTSs.
“Você ainda está jogando o mesmo jogo que jogávamos há 20 anos e olhando para alguns desses jogos novos — Stormgate e outros como esse —, eles ainda são amplamente baseados nessa fórmula,” declarou.
A opinião de Pottinger foi baseada em uma experiência que teve recentemente, quando comprou cópias do Age of Mythology: Retold para todos os membros do Last Keep. Após jogarem a remasterização do clássico por cerca de um mês, ele admitiu que foi bom revisitar o passado, mas aquilo mostrou que o gênero parece estagnado.
“Ele não mudou muito,” declarou o desenvolvedor. “Funciona, é um antigo conjunto de regras de ouro, porque elas eram boas naquela época e continuam sendo boas agora, e é legal ver que essas coisas ainda funcionam, mas, ao mesmo tempo, quero fazer algo novo, queremos fazer algo novo.”
Mas o que teria levado as empresas a tratarem os RTSs de forma tão conservadora? Pois de acordo com Dave Pottinger, a explicação estaria no medo de afastar os jogadores ao “quebrar” algumas dessas regras.
“Houve alguns momentos na franquia Age em que voamos muito perto do sol,” explicou. “Tivemos que recuar e remover algumas coisas bastante inovadoras do jogo, estou falando particularmente sobre o combate baseado em formações no Age of Empires III. Caramba, nós demonstramos isso na E3 e tiramos do jogo porque tínhamos medo de que afastaria muitos fãs existentes do Age.”
Contudo, o game designer acredita que devido à nova leva de RTSs que está surgindo no mercado ultimamente, essa seria uma boa oportunidade de implementar inovações. E olhando a descrição do Project Citadel no Steam podemos ter uma noção do que o estúdio estaria planejando.
Além de apontar o jogo como um de estratégia com ritmo acelerado, ele deverá nos oferecer partidas curtas e campos de batalha gerados proceduralmente. Durante os combates ainda teremos a oportunidade de acionar habilidades especiais que poderão mudar completamente a situação.
A promessa é de uma jogabilidade acessível e algo que poderá contribuir para isso é o suporte a controles. Essa é uma característica que não costumamos ver nos RTSs lançados para PC, mas que certamente foi influenciada por um dos jogos criados por Pottinger, o Halo Wars. A dúvida é se tal recurso não acabará simplificando muito a mecânica do jogo, mesmo para quem optar por jogar com teclado e mouse.
Outro detalhe que também chamou minha atenção e me deixou pensando em como isso será afetará a jogabilidade, é a palavrinha roguelike. Assim como muitos jogos independentes produzidos nos últimos anos, o Project Citadel também aproveitará elementos deste subgênero e deve ser por isso que o estúdio diz que “falhe em uma sessão, tente novamente... desta vez com uma abordagem diferente.”
Se essa mistura de estilos funcionará, estou bastante curioso para saber, mesmo tendo que admitir fazer parte do grupo de jogadores que sempre vê com desconfiança a ideia de mudar muito as bases de um gênero tão estabelecido.
Com isso não quero dizer que não acredito que os RTSs precisem de novidades, muito menos que deixaria de jogar um novo título só porque ele não seguiu a receita dos clássicos. Porém, confesso adorar sentar diante do monitor e perder completamente a noção do tempo enquanto tento montar um poderoso exército em algum Age of Empires, movo minhas tropas pela Europa em um Company of Heroes ou salvo o planeta em algum Command & Conquer.
Dizer que continuamos jogando os mesmos jogos lançados há duas ou três décadas pode soar ofensivo, mas pensando em como o gênero funciona de forma tão azeitada, não acho que um título lançado atualmente e comparado àqueles clássicos seja um demérito. Talvez, aquilo que os fãs dos RTSs queiram seja justamente o que fez com que o Ensemble Studios recuasse e focasse em algo mais tradicional. O curioso é que mesmo assim, lembro de ter visto muitas pessoas criticando aquele capítulo da franquia, com muitos reclamando que o jogo não estava à altura do seu antecessor.
Enfim, tomara que o pessoal da Last Keep tenha a capacidade (e a coragem) de implementar as novidades que Dave Pottinger acredita que os RTSs tanto precisam, pois isso tende a ser benéfico para o gênero. Enquanto isso, não reclamarei se as empresas continuarem modernizando os clássicos que por tanto tempo me divertiram, ou mesmo se estúdios se basearem nas regras já consagradas para nos dar novas franquias.