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Dragon Age: The Veilguard — Entre magos e dragões

Dez anos após o último jogo, Dragon Age: The Veilguard traz um ótimo sistema de batalhas, personagens interessantes e um mundo lindo

2 anos atrás

Uma década após o lançamento do terceiro capítulo da série principal (Inquisition), Dragon Age: The Veilguard finalmente está entre nós e aquilo que nasceu no meio do caos gerado pelo modelo Jogo Como Serviço (GaaS) chega cercado por uma mistura de expectativa com desconfiança. A boa notícia é que com esse RPG, a BioWare parece ter voltado ao caminho certo.

Dragon Age: The Veilguard

Crédito: Divulgação/BioWare

Iniciado lá em 2015, o desenvolvimento do projeto Joplin aconteceu em um momento complicado do estúdio. Após as dificuldades encaradas durante a produção do Mass Effect: Andromeda e do Anthem, parte da equipe precisou ajudar aquelas que estavam dedicadas a ambos os jogos.

A situação levou à criação do Joplin a ser interrompida várias vezes, até que em outubro de 2017, a BioWare e a Electronic Arts decidissem que o próximo Dragon Age precisaria adotar elementos de um GaaS, para assim faturar com as microtransações.

Na época os fãs já demonstravam preocupação, mas a situação se agravou quando o desenvolvimento recomeçou, passando a ser conhecido internamente como Morrison e aproveitando parte do código no Anthem.  Porém, aquela ainda não seria a última mudança que a produção enfrentaria.

Após a editora perceber o sucesso registrado pelo Star Wars Jedi: Fallen Order e ter que cancelar a iniciativa que visava recriar o Anthem, no início de 2021 ficou decidido que o Morrsion não traria elementos multiplayer, focando novamente em um jogo para apenas um jogador.

Na época, o projeto já havia adotado uma jogabilidade mais voltada para a ação e passado pela troca de diversos profissionais veteranos na franquia, com várias demissões atingindo a BioWare nos anos seguintes. A desconfiança de muitos foi que a essência da franquia poderia ter se perdido, mas uma pergunta permanecia: será que mesmo assim poderíamos receber um bom jogo?

O lobo temido

Crédito: Divulgação/BioWare

A história do Dragon Age: The Veilguard começa cerca de dez anos após os eventos mostrados no Dragon Age: Inquisition e nos coloca na pele de um herói que, mesmo podendo ter o nome que quisermos, será tratado pelos demais personagens como Rook.

Novamente se passando em Thedas, dessa vez o enredo girará em torno de Solas, um elfo ancião que os fãs poderão lembrar do jogo anterior e conhecido como uma espécie de deus da mentira.

Por motivos que não citarei para não estragar a surpresa de quem for jogar, Solas resolve realizar um ritual cujo objetivo é romper o Véu, uma barreira invisível que separa o reino material do espiritual. Porém, o processo é interrompido pelo protagonista e sua equipe, o que desencadeia uma série de eventos catastróficos.

Por se tratar de um jogo em que o enredo é tão importante, não entrarei em detalhes sobre o que nos levará a cruzar Thedas, pois quase tudo que abordar poderá entregar informações importantes da história. O que posso dizer é que um dos pontos altos do Dragon Age: The Veilguard está nos personagens que encontrarmos pelo caminho e na própria dualidade apresentada por Solas.

Assim como nos capítulos anteriores, neste o nosso relacionamento com os demais heróis é uma parte muito importante na tentativa da BioWare de criar um universo rico, imersivo e interessante. Cada personagem que entra para a nossa equipe possui uma história que nos incita a querer conhecê-la cada vez mais e por isso boa parte do conhecimento que adquiriremos do seu mundo se dará por meio de conversas.

Escolhas

Dragon Age: The Veilguard

Crédito: Reprodução/Dori Prata/BioWare

Além disso, por muitas vezes teremos que tomar decisões que impactarão não somente a maneira como a equipe nos vê, agradando uns e desagradando outros, mas o mundo como um todo. Para quem está acostumado com os jogos da BioWare, isso não é novidade, mas fico feliz por continuarem neste caminho.

Principalmente em um RPG, ter a sensação de que estamos moldando a história é algo muito importante e em Dragon Age: The Veilguard isso acontece desde a criação do nosso personagem, que vale dizer, acontecerá com um editor bastante robusto.

Porém, a escolha que afetará diretamente como os outros nos tratarão é a de facções. Ao todo teremos seis delas à nossa disposição, podendo ir desde um grupo que luta contra líderes corruptos, até uma ordem militar dedicada a combater os monstros do lugar.

Já outra decisão que precisaremos tomar antes mesmo da aventura começar e que influenciará diretamente a jogabilidade, é a classe do nosso personagem. Embora tenhamos apenas três delas (Combatente, Mago e Errante), aos poucos entenderemos como cada uma delas se desdobra em outras três, para assim alcançar diversos arquétipos dos RPGs.

Como sempre faço quando tenha essa oportunidade, quis jogar o Dragon Age: The Veilguard como um necromante e por isso optei por criar um mago. Com uma típica árvore de habilidades, o jogo nos permite investir em caminhos que nos levarão a uma especialização, cabendo ao jogador experimentar e decidir qual estilo melhor lhe serve.

E digo experimentar, porque ao contrário de muitos RPGs que vemos por aí, essa criação da BioWare nos encoraja a testar, com os pontos investidos no aperfeiçoamento dos personagens podendo ser restaurados a qualquer momento e sem penalizações para isso. O mesmo vale para os outros membros da nossa equipe — sete ao todo, incluindo alguns conhecidos dos fãs —, que evoluirão e seremos nós os responsáveis por definir como os pontos recebidos por isso serão utilizados (ou reutilizados).

Tempo real x estratégia

Dragon Age: The Veilguard

Crédito: Divulgação/BioWare

Já quando partimos para as batalhas, o que a BioWare implementou poderá agradar alguns, mas não satisfazer outros. Aqui boa parte dos combates funcionará como em um jogo de ação e independentemente da classe escolhida, durante os confrontos teremos acesso a quatro ações principais: golpe fraco, golpe forte, pulo e esquiva. Além disso, elas também possuem acesso a duas armas principais.

O que me deixou surpreso foi perceber que, no Dragon Age: The Veilguard, mesmo um mago pode ser um lutador bastante ágil, realizando esquivas até durante um ataque e se movendo rapidamente pelo campo de batalha. Além disso, uma das armas que ele utiliza possui um alcance mais curto e a cada três acertos, é possível detonar uma explosão no inimigo ao usarmos o golpe forte.

Outro ponto que considerei interessante é que as armas podem ter golpes elementais diferentes. Assim podemos atingir um monstro a distância com magia de eletricidade e na sequência nos aproximarmos deles para desferir golpes de fogo com a arma secundária. Tudo isso acontece de forma bastante dinâmica, já que a troca de armas pode ser feita ao simplesmente apertarmos o direcional para baixo.

Jogando nos consoles ou no PC com um controle, o sistema de atalhos implementado pela BioWare pode ser confuso no início, mas aos poucos criaremos uma memória muscular que fará com que os combates aconteçam com fluidez. Quer que um companheiro dispare uma magia ou golpe específico? Você pode fazer isso ao apertar L2/LT + o direcional correspondente, com o mesmo valendo para suas próprias habilidades, mas trocando o direcional por outros botões.

Crédito: Divulgação/BioWare

No entanto — e aí entre o ponto principal do sistema de batalhas do jogo —, os confrontos não precisão acontecer apenas focando na ação. Contando com uma roda de habilidades que será acionada ao apertarmos (e segurarmos) o R1/RB, Dragon Age: The Veilguard também acaba funcionando como um jogo mais estratégico.

Isso porque, ao acionarmos tal recurso, a ação será interrompida e neste momento poderemos escolher com calma a maneira como o nosso personagem ou os aliados se comportarão. Assim teremos a oportunidade de decidir qual inimigo um membro da equipe deverá focar seus ataques, se ele deverá acionar alguma das suas habilidades ou decidir em qual adversário lançaremos alguma magia/golpe.

Com essa roda de habilidades também poderemos criar combos entre os nossos parceiros. Esses ataques são muito mais poderosos e debilitantes que os demais, podendo mudar completamente o rumo de uma batalha. Porém, nem todos os aliados possuem golpes que se complementam, fazendo com que a escolha de quem levar conosco em nossas missões se mostre mais importante do que apenas uma questão de querermos conhecer mais de suas histórias ou investir num relacionamento amoroso.

A bela Thedas

Crédito: Divulgação/BioWare

Outro ponto que me surpreendeu muito positivamente no Dragon Age: The Veilguard foi sua qualidade técnica. Após experimentar alguns jogos mais recentes da EA que mostraram instabilidade na taxa de frames, confesso que estava preocupado com o estado do RPG, mas o que encontrei foi um jogo muito bem otimizado para o PlayStation 5.

Jogando no modo desempenho não notei queda nos frames e mesmo assim pude conhecer um mundo lindo, repleto de detalhes e com uma ótima variedade de cenários. Das ruas movimentados de Treviso ou Minrathous, às estepes áridas e prejudicadas pela Podridão de Anderfels ou as catacumbas da Grande Necropolis, o mundo do jogo está repleto de lugares muito bonitos e que muitas vezes me fizeram parar para admirá-los ou até mesmo usar o modo de foto.

No entanto, para chegar a esse resultado a equipe da BioWare precisou sacrificar algo que não deverá agradar a todos. Hoje é comum as empresas investirem na criação de jogos de mundo aberto, mas não será isso o que você encontrará neste Dragon Age. Aqui as incursões acontecerão em cenários que, mesmo podendo ser grandiosos, se desenrolam de maneira mais guiada, como se fossem extensos corredores.

Mesmo adorando explorar enormes mundos abertos, particularmente não vejo problema em eles não serem usados. No fim das contas, de nada adianta um título que nos permite ir para qualquer ponto do mapa como quisermos, se o que encontramos é um lugar vazio, repetitivo e sem atrativos. Também não acho que valha a pena abdicar da beleza visual ou do desempenho, só para dizer que o mundo tem centenas de quilômetros quadrados.

Crédito: Divulgação/BioWare

Dragon Age: The Veilguard não é um jogo que revolucionará a indústria, mas serve como um ponto importante na história da BioWare. Após tantos anos de espera, mudanças e motivos para descrença, ele coloca não só a franquia nos trilhos, mas também um estúdio que por tanto tempo foi adorado por muita gente e que nos últimos anos andava desacreditado.

Antes de encarar sua campanha, eu estava com medo de que esse novo Dragon Age seria uma bela decepção, mas o que recebi foi uma das experiências mais marcantes do ano e um jogo que me entreteve o tempo todo, além de sempre me deixar com vontade de voltar ao seu mundo.

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