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Shuji Utsumi: Sega mira no passado, mas sem deixar de inovar

Mesmo reconhecendo a importância de suas franquias mais antigas, o presidente da Sega no ocidente, Shuji Utsumi, diz que eles não ficarão presos ao passado

1 ano e meio atrás

Por mais que tenha perdido um tanto da sua relevância após desistir do mercado de consoles, a Sega é uma gigante, uma empresa com uma história fascinante e um portifólio muito pesado. Porém, para o presidente das divisões europeia e americana da empresa, Shuji Utsumi, eles não querem ser conhecidos apenas como uma companhia retrô.

Crédito: Reprodução/Jezael Melgoza/Unsplash

Antes de se juntar a Sega, lá em 1996, Utsumi participou do processo de lançamento do primeiro PlayStation nos Estados Unidos e sua carreira ainda conta com passagens pela Warner Music, Disney Interactive e Q Entertainment. Pois essa larga experiência na indústria tem lhe permitido tomar algumas decisões importantes.

Uma das que causou mais espanto foi o cancelamento do Hyenas, título multiplayer que estava sendo desenvolvido pela Creative Assembly e já havia consumido vários milhões de dólares do cofre da editora. Depois, Shuji Utsumi voltou sua atenção para algumas das franquias mais importantes que eles possuem, mas que andavam esquecidas.

Isso levou a Sega a anunciar novos capítulos para marcas como Streets of Rage, Shinobi, Golden Axe, Crazy Taxi, Jet Set Radio e, mais recentemente, Virtua Fighter, movimento que deixou muitos fãs bastante empolgados. “Temos alguns grandes pilares, como Sonic, Persona e Yakuza,” declarou o executivo. “Mas, ao mesmo tempo, temos outras propriedades que realmente mostram o estilo, a atitude e o contexto da Sega.”

Segundo o presidente, desde que eles façam esses retornos da maneira correta, os jogadores irão adorar e mesmo reconhecendo o desafio que terão pela frente, pois a expectativa é alta, se eles acertarem, poderão “trazer de volta o que é ser a Sega.”

Shuji Utsumi

Shuji Utsumi (Crédito: Divulgação/Sega)

E para alcançar esse objetivo, a estratégia da empresa é resgatar uma sensação que eles conseguiram emplacar nos anos 90, que era de terem um espírito mais rock and roll, enquanto a Nintendo era mais associada ao estilo pop.

“Os jogadores amavam a Sega porque lhes mostramos um novo estilo de vida e atitude,” explicou Shuji Utsumi. “Quero trazer de volta esse sentimento, mas não somos apenas uma companhia nostálgica, precisamos ser inovadores. Precisamos atrair os jogadores modernos também.” Para ele, por mais que exista o respeito às propriedades intelectuais antigas, é preciso inovar e os estúdios que estão trabalhando para resgatar essas franquias são capazes de fazer isso.

Com o interesse do público ocidental pelos jogos japoneses tendo crescido nos últimos anos, hoje a Sega olha para o final dos anos 90 e início dos 2000, período em que seus game designers entregaram alguns títulos emblemáticos e mesmo assim a empresa não resistiu.

Crédito: Reprodução/Mahmoud Yahyaoui/Pexels

“Na época a Sega era uma desafiante,” justificou Utsumi. “O PlayStation foi muito bem-sucedido, então, quando o Dreamcast saiu, o PlayStation 2 era o grande alvo — ele era uma máquina muito legal, então tivemos que pressionar nossos jovens desenvolvedores a serem criativos. Os produtos que saíram eram muito impressionantes, acredito, mas você sabe, o PlayStation 2 nos derrotou, então não posso dizer muito sobre o quão bem-sucedidos eles foram!”

Curiosamente, mesmo com Shuji Utsumi reconhecendo a força do passado da empresa que dirige, ele fez questão de ser categórico ao falar sobre a possibilidade de realizarem o sonho de parte de seus fãs. Ao ser questionado sobre a possibilidade de termos o lançamento de versões miniatura do Saturn ou do Dreamcast, ele disse:

“Eu não irei na direção dos minis. Não sou seu. Quero abraçar os jogadores modernos. Nós não somos uma companhia retrô. Realmente apreciamos o nosso legado, o valorizamos, mas, ao mesmo tempo, queremos entregar algo novo — caso contrário, nos tornaremos história. Não é isso que estamos buscando.”

Contudo, essa justificativa para a Sega não apostar na criação de versões miniatura dos seus dois últimos consoles não parece ser toda a verdade. Além do investimento em novos capítulos para algumas das suas franquias mais antigas e do licenciamento para que elas sejam levadas para outras mídias, a empresa também estuda outras formas de lucrar com elas.

Crédito: Reprodução/Taylor R/Unsplash

Segundo uma entrevista concedida por Utsumi à BBC, uma das maneiras que eles pretendem fazer isso é explorando um mercado em que várias outras companhias já estão, o de assinatura de jogos.

Embora hoje diversos títulos da empresa estejam disponíveis em serviços fornecidos por terceiros, a ideia seria passar a oferecer seu catálogo com um modelo de assinatura próprio e considerando a quantidade de títulos importantes que a Sega possui, é possível que o interesse seja grande.

No entanto, algumas pessoas já estão se questionando sobre o real apelo que uma nova “Netflix dos games” poderia ter. Entre elas está a diretora de produções da No More Robots, Sophie Smart.

“Como alguém cujo primeiro console foi um Mega Drive, o que eu mais adoraria é ver a Sega prosperando e isso parece um passo em uma direção moderna,” disse, para depois revelar seu temor de que os jogos da empresa possam ser removidos dos serviços em que estão presentes atualmente. “Isso pode significar que os consumidores gastarão mais dinheiro ao possuir vários serviços de assinatura.”

Jogos do Mega Drive no Nintendo Switch Online (Crédito: Divulgação/Sega)

Caso realmente siga com o plano de criar seu próprio Game Pass, essa não será a primeira experiência da Sega na área. Na época do Mega Drive eles já se arriscaram com algo parecido e uma atitude que ajuda a reforçar a intenção revelada por Shuji Utsumi aconteceu recentemente, quando a empresa anunciou que alguns dos seus jogos seriam removidos das lojas digitais.

Mas seja focando no passado, seja buscando inovar em suas criações, o executivo reconhece que a empresa precisa recuperar o prestígio que tinha antigamente. “Quero fazer a Sega brilhar novamente,” disse. “De alguma forma a Sega está perdendo a confiança, mas por quê? A Sega possui um ótimo grupo de RPGs, a Sega possui propriedades intelectuais incríveis, a Sega é uma marca realmente muito conhecida. Então eu pensei: ‘ei, agora não é hora de ficar na defensiva, e sim [numa postura] mais ofensiva’.”

Mas será que essa falta de confiança não se deve justamente ao passado relativamente recente da empresa. Desde que eles interromperam prematura, mas justificadamente o ciclo de vida do Dreamcast, a impressão de boa parte do público foi de que a Sega passou a viver por aparelhos, com os mandos e desmandos contribuindo para isso.

De alguns anos para cá percebo que essa sensação diminuiu, principalmente pela boa qualidade de diversos títulos produzidos por eles. Contudo, esse não é um processo simples de ser revertido e os mandachuvas da companhia sabem que, desde que eles consigam nos entregar bons jogos, os consumidores virão.

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