Dori Prata 1 ano e meio atrás
Durante a guerra, uma arma que pode ser muito importante para influenciar a opinião pública e alavancar o moral das tropas, é a propaganda. Então, nos dias atuais, onde alguns perceberam que a mentira pode eleger políticos e contaminar a opinião da população, nada mais natural do que recorrer à desinformação para conseguir vantagens e no caso da guerra da Ucrânia, o escolhido agora pela Rússia como plataforma de divulgação foi Stalker 2: Heart of Chornobyl.
Desenvolvido pelo estúdio ucraniano GSC Game World, o jogo lançado em 20 de novembro é a aguardada continuação de uma série que se tornou um orgulho nacional. Além de mostrar a capacidade do povo daquele país para criar títulos de qualidade e bastante imersivos, ele passou a ser visto de forma ainda mais emblemática, servindo como um símbolo de resistência.
O desenvolvimento do Stalker 2 iniciou em 2018 e após sofrer alguns adiamentos, o projeto viu as tropas militares russas praticamente baterem à sua porta. Com a invasão chegando à cidade onde a sede do estúdio se encontra, Kiev, em março de 2022 a GSC Game World se viu obrigada a suspender os trabalhos, passando a focar em ajudar os funcionários e seus familiares.
Enquanto isso, alguns daqueles profissionais foram para o campo de batalha e pelo menos um deles, Volodymyr Yezhov, acabou morrendo em dezembro de 2022, durante a batalha de Bakhmut. A informação depois foi confirmada pelo estúdio, que lamentou o ocorrido e disse que “os jogadores sempre lembrarão dele.”
Volodymyr Yezhov, one of the developers of @stalker_thegame , died in a battle near Bakhmut, defending Ukraine from russian invaders.
Volodymyr was a father of two sons.
Eternal glory to the Hero! pic.twitter.com/jgzZxaZEXO— Defense of Ukraine (@DefenceU) December 26, 2022
Tudo isso nos ajuda a entender o motivo que levou a Rússia e usar o Stalker 2 como uma ferramenta de desinformação que passou a circular nos últimos dias. Segundo o site 404 Media, tudo começou quando alguns jornalistas receberam um e-mail com um vídeo supostamente criado pelo site Wired e que alertava sobre como o jogo estava servindo como um Cavalo de Troia.
“Um programa incorporado foi descoberto no código do jogo e ele coleta dados do jogador para os servidores da desenvolvedora,” diz um trecho do vídeo, que cita ainda que as informações são passadas a cada segundo. Entre esses dados estariam o endereço IP, nome, dispositivo e a localização da pessoa. Além disso, mesmo quem não aceitar a coleta de dados, opção que nos é dada ao rodar o jogo pela primeira vez, será afetado.
Mas qual seria o objetivo da GSC Game World ao fazer isso? De acordo com o vídeo, o estúdio teria feito um acordo com o governo ucraniano para que assim ele pudesse encontrar pessoas disponíveis para servir do seu lado da guerra. Em contrapartida, a GSC Game World garantiria os recursos necessários para concluir a produção do Stalker 2, que como dito anteriormente, enfrentou muitas dificuldades durante sua produção.
O vídeo encerra afirmando que “é melhor jogar usando uma VPN ou boicotar o jogo para sua própria segurança”, mas há dois detalhes que ajudam a reforçar que tudo isso não passou de uma mentira: o primeiro é que o correspondente mencionado como fonte, Roman Bochkala, não deu tal declaração, já o segundo, é que o Wired nunca produziu esse material.
Algumas pessoas acreditam que tudo não passou de uma peça criada por uma célula russa especializada em produzir desinformação, um grupo adepto da ideia de que “uma mentira dita mil vezes torna-se verdade” e que teria lançado a Operação Matryoshka. Com ela, o objetivo é desviar a atenção dos jornalistas e checadores de fatos, dificultando assim a vida daqueles que apenas querem saber o que realmente está acontecendo na guerra, além de tentar minar a imagem do presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy.
Segundo pesquisadores do Atlantic Council’s Digital Forensic Research Lab, aquilo que nos habituamos a chamar de fake news também visa descredibilizar tanto a OTAN quanto os veículos de notícias, publicando constantemente essas mentiras em grupos do Telegram e em redes sociais, para depois esperar que o público ajude a espalhar essas histórias.
Chegar a utilizar um jogo para atingir o inimigo pode parecer absurdo, mas ao voltar suas forças para o Stalker 2, o alvo, na verdade, pode ser o público interno. Com a popularidade da série sendo bem alta na Rússia, a expectativa pela continuação estava elevada e tentar manchar a imagem de seus criadores causando o medo seria uma maneira de afastar os russos do título.
Contudo, por mais chata que essa situação seja, a julgar pelo passado recente, ela não deverá abalar a GSC Game World. Em março de 2023 a desenvolvedora foi atacada por hackers russos que ameaçaram divulgar materiais do jogo, o que gerou a seguinte resposta:
“Somos uma empresa ucraniana e como a maioria dos ucranianos, passamos por muitas coisas que são muito mais aterrorizantes: casas destruídas, vidas arruinadas e a morte de nossos entes queridos. Tentativas de nos chantagear ou intimidar são completamente inúteis.
O nosso compromisso inabalável em apoiar nosso país permanece inalterado — continuaremos a fazer todo o possível para apoiar a Ucrânia. E isso não mudará no futuro, sob nenhuma circunstância.
Apesar das tentativas de nos quebrar, continuaremos fortes e corajosos. Porque quando você acredita em algo e o ama de todo o coração, você tem que defendê-lo a todo custo.”
Fonte: Gamespot