Dori Prata 1 ano e meio atrás
Pouco mais de uma década após o lançamento do primeiro jogo, em 2018 a GSC Game World fez a alegria dos fãs ao anunciar o Stalker 2: Heart of Chornobyl. Embora a série tivesse recebido outros dois capítulos nesse tempo, aquela seria uma verdadeira continuação, o que fez com que a expectativa alcançasse um nível perigoso. Agora, com o recente lançamento do aguardado título, o que estamos vendo é uma mistura de reclamações e apoio aos desenvolvedores.
Desenvolvido pelo estúdio ucraniano com a poderosa Unreal Engine 5, a ideia inicial era que o Stalker 2 (ou S.T.A.L.K.E.R. 2) chegasse aos computadores e Xbox Series S|X em 2021, mas ele acabou adiado para dezembro do ano seguinte. Porém, o que os criadores não poderiam imaginar era que a Rússia invadiria a Ucrânia.
Com o projeto sofrendo com uma situação atípica, outros compreensíveis adiamentos se seguiram, chegando ao ponto de a GSC Game World publicar um vídeo onde afirmava que a produção foi interrompida, já que eles precisavam se dedicar a proteger seus funcionários e familiares.
Contudo, eventualmente o trabalho retornaria e com o lançamento do Stalker 2 acontecendo, muitas pessoas ficaram decepcionadas com o que encontraram. De bugs para todos os lados a um desempenho instável mesmo em máquinas mais parrudas, as críticas recaíram ainda sobre a estrutura de algumas missões e numa inteligência artificial capenga.
Tudo isso puxou a nota do jogo para baixo, com ele alcançado apenas um 73 (PC) e 75 (Xbox Series X) no Metacritic. Mesmo não sendo um desempenho horrível, esperava-se muito mais de um dos títulos mais promissores do ano e como a média obtida nesses agregadores costuma ter um impacto nas vendas, algumas pessoas ficaram incomodadas, reacendendo o debate sobre notas dadas aos jogos.
Entre elas está Raphael Colantonio. Tendo dirigido jogos como Arx Fatalis, Dark Messiah of Might and Magic, Dishonored e Prey, ele usou o X para explicar porque considera que a criação da GSC Game World foi injustiçada.
“O ecossistema do Metacritic encoraja os desenvolvedores a criarem jogos seguros e chatos,” defendeu. “Desde que um jogo seja polido no lançamento, você garantirá um 80%, não importa o quão chato o jogo possa ser. Enquanto isso, o Stalker 2 recebe um 73 porque é um pouco áspero nas bordas no lançamento. Injusto, enganoso.”
Conforme as pessoas foram interagindo com ele, Colantonio aproveitou para aprofundar seu raciocínio, admitindo que esse é um assunto complexo e que da maneira como funciona, o sistema do Metacritic faz com que os estúdios prefiram apostar em títulos mais fáceis de serem produzidos e lapidados.
Para o game designer, o problema está no fato de as pontuações dadas pelos veículos de imprensa e consequentemente mostradas pelo agregador serem estáticas, não acompanhando a evolução dos jogos e conforme a percepção do público sobre eles muda.
Talvez o melhor exemplo nesse sentido seja o No Man's Sky. Se olharmos sua pontuação no Metacritic, embora a versão para PlayStation 5 ostente um 82, para o console anterior da Sony ela possui apenas 71. Essa nota poderia parecer mais correta em 2016, quando o jogo foi lançado, mas se no Nintendo Switch ela está em 83, refletindo melhor quando o título saiu no híbrido, será que no PS4 ela não deveria estar perto disso?
Bom, ao ser confrontado na rede social, com a pessoa dizendo que a queixa de Raphael Colantonio não faz sentido, já que um jogo que funciona merece pontuação melhor que um com problemas, ele argumentou:
“Um jogo ruim sem bugs tem uma pontuação melhor que um ótimo jogo com bugs. Faz sentido para você? Isso significa que a essência do jogo não está sendo levada em consideração, significa que três meses depois, quando o ótimo for corrigido, ele continuará com uma pontuação de me***,” disse.
Para Colantonio, o ideal seria as pessoas esperarem um pouco antes de publicarem suas avaliações, dando assim a possibilidade de os estúdios aperfeiçoarem suas criações. Porém, aí entramos em outro debate: de quanto tempo estamos falando? Até quando os sites e revistas teriam que segurar suas opiniões sobre um título porque ele (supostamente) será melhorado?
Pois essas perguntas nos levam a outro problema e que tem sido muito criticado pelos consumidores há alguns anos: o correto não seria as desenvolvedoras só colocaram seus produtos no mercado quando eles estivessem minimamente “consumíveis”?
A justificativa para tantos jogos chegarem inacabados às lojas costuma estar na pressão feita por editoras e acionistas, por isso compreendo os criadores correrem para cumprir prazos e a estarem quase sempre se vendo obrigados a trocar o pneu com o carro em movimento. Logo, seria justo colocar toda, ou grande parte da culpa no sistema de avaliação e agregadores de notas?
Esse é um problema para o qual aparentemente não há solução e por mais que alguns defendam que deveríamos ignorar os agregadores, eles são muito mais importantes do que gostaríamos. Um exemplo aconteceu com o Fallout: New Vegas, jogo que renderia um bônus para a Obsidian Entertainment caso conseguisse uma média 85. Sabe porque isso não aconteceu? Ele ficou com “apenas” 84.
Se você gosta da série S.T.A.L.K.E.R., se interessa pelo desenvolvimento de jogos ou simplesmente tem curiosidade em saber como é viver com bombas explodindo próximo de onde vive e trabalha, recomendo assistir o documentário War Game: The Making of S.T.A.L.K.E.R. 2.
Produzido pela própria GSC Game World e disponível gratuitamente no YouTube, a produção conta com legendas em português e faz um belo (e importante) relato dos meses que se seguiram à invasão russa em Kiev.
Nele podemos entender como os jogos criados pelo estúdio foram influenciados pela cultura ucraniana, o que inclui viverem próximos à região devastada pelo desastre de Chernobyl e sob a pressão exercida pela União Soviética. Estamos falando aqui de histórias que vão muito além de um mero jogo, seja ele bom ou ruim.