Dori Prata 08/05/2023 às 10:14
Uma das coisas mais irritantes na indústria de videogames é a maneira superprotetora como as empresas e profissionais tratam suas criações. Durante muito tempo as histórias de bastidores permaneceram trancafiadas a sete chaves, mas felizmente isso está mudando e uma pessoa que resolveu abrir a boca foi Timothy “Tim” Cain.
Tendo iniciado sua carreira como um programador freelancer na Interplay, seu primeiro trabalho, o The Bard's Tale Construction Set, foi lançado em 1991. Porém, seria apenas em 1994 que ele começaria a marcar seu nome para sempre na história. Foi naquele ano em que Tim Cain deu início (sozinho) a um projeto baseado no sistema GURPS, um jogo pós-apocalíptico com visão isométrica que se tornaria referência, seu nome? Fallout.
Com o desenvolvimento tendo se estendido por três anos e meio, o jogo que nos colocava para tentar sobreviver num mundo devastado por uma guerra nuclear entre Estados Unidos e China conquistou vários admiradores. Além da impressionante imersão proporcionada, Fallout encantava por nos colocar para tomar várias decisões morais e a sensação era de estarmos jogando um típico RPG de mesa.
Porém, mesmo com a criação de uma continuação e dois spin-offs, a franquia não foi suficiente para corrigir os vários erros cometidos pela Interplay nos anos seguinte, o que levou a empresa a declarar falência duas vezes. Na segunda, uma medida para diminuir o prejuízo foi vender a franquia Fallout para a Bethesda Softworks em 2007, o que muitos fãs consideram como um início do fim.
Nas mãos dos novos comandantes, a marca abandonou a visão isométrica e adotou um estilo mais parecido com os dos jogos de tiro em primeira pessoa. Além disso, para os mais puristas a Bethesda nunca conseguiu entregar uma experiência tão imersiva e complexa quanto a dos originais, mas Tim Cain não parecer concordar muito com as críticas.
Tendo recém-inaugurado um canal no Youtube, o game designer tem aproveitado o espaço para contar um pouco da sua história com a criação de jogos e num desses vídeos ele opinou sobre a fase moderna da franquia que ajudou a criar.
“A Bethesda sabe como fazer bons jogos,” afirmou Tim Cain. “O Skyrim é um bom jogo. É divertido, é viciante, é relaxante de uma certa maneira. Eu adoro entrar em seus jogos e apenas relaxar, andar pelo mundo e explorar.”
Numa área em que os egos costumam ser bastante inflados, seria natural vermos alguém como Cain reclamando das muitas mudanças que outros profissionais fizeram à sua criação, mas não é o caso. Ao falar sobre o trabalho da Bethesda, ele foi só elogios.
“Quando você sai da Vault [101], quero dizer, aquilo foi incrível de se ver. O jogo em si é muito divertido. Sei que não foi do gosto de todos, mas foi incrível. E aquilo revitalizou o Fallout.
Eu joguei muito o Fallout 3. O joguei múltiplas vezes e tentei diversas construções [de personagens]. O mesmo com o Fallout 4 e o New Vegas.”
Mas além de ter dito estar feliz por a franquia estar em tão boas mãos e recebendo jogos constantemente, Tim Cain ainda aproveitou para agradecer os modders. Para ele, várias ótimas ideias têm surgido dessas pessoas e por isso acredita que a Bethesda deveria prestar atenção nessas criações e aproveitar algumas delas no Fallout 5.
Qualquer pessoa que já tenha jogado algum Fallout conhece as Vaults (ou refúgios, na tradução oficial presente no Fallout 4 e Fallout 76). Construídas por uma empresa chamada Vault-Tec, essas instalações subterrâneas tiveram como objetivo salvar a população dos Estados Unidos no caso de uma guerra nuclear, com 122 delas estando prontas quando as primeiras bombas começaram a cair, em 2077.
O problema é que como apenas cerca de mil pessoas poderiam viver nesses abrigos, seria preciso 400 mil deles para salvar todos os americanos e ao custo de US$ 400 bilhões cada, conseguir isso seria algo impossível. Então, o Programa Social de Preservação foi posto em prática, onde os governantes poderiam observar como os sobreviventes reagiriam ao estresse do isolamento e assim os melhores seriam escolhidos para repovoar o planeta.
Porém, de acordo com um vídeo gravado por Tim Cain, a sua ideia inicial para as Vaults era um pouco diferente da versão que conhecemos. Segundo ele, os refúgios deveriam servir como enormes laboratórios em que seriam construídas naves especiais movidas a energia nuclear e que permitiriam aos humanos deixarem a Terra.
Prepare-se para o futuro — desde que seja um dos escolhidos (Crédito: Reprodução/PlanK-69/DeviantArt)
“Se você leu o que os cientistas falavam sobre as consequências de uma guerra nuclear nos anos 1950, sabe como isso pode ser deprimente,” contou Cain. “A ecologia é destruída pela radiação. Na verdade, não será necessário voltar para a superfície da Terra e eu fiquei tipo, e se esse for o caso? Numa situação assim, o chefe do Enclave e os altos funcionários do governo poderiam oferecer a construção de uma nave espacial, que viajaria para as estrelas mais próximas.”
Tal conceito teria sido elaborado em conjunto com o designer chefe do primeiro Fallout, Chris Taylor, e dizia que as espaçonaves deveriam ser autossuficientes, para assim aumentar a chance de sobrevivência.
Tim Cain ainda defendeu que essa versão seria mais plausível, já que não faria muito sentido salvar apenas uma pequena parcela da população dos Estados Unidos e depois liberá-la num ambiente radioativo. Mas como sabemos, não foi por este caminho que eles decidiram seguir e o resto é história.