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HoloLens militar oferece risco para soldados dos EUA

Versão militar do HoloLens não cumpre com expectativas da Microsoft; segundo testador, headset transforma soldados em alvos fáceis

17/10/2022 às 11:10

IVAS, a versão do HoloLens para o Exército dos Estados Unidos, ainda está longe de ficar pronto. Em desenvolvimento desde 2018, o headset de Realidade Aumentada com funções especializadas, inclusive para situações de combate, estaria aquém das expectativas da Microsoft, mas os militares querem adotar o gadget a todo custo.

O projeto anda mal visto dentro do governo dos EUA, no que uma auditoria concluiu que o alto comando quer enfiar o IVAS goela abaixo das tropas, no que muitos consideram o equipamento desajeitado. Um testador inclusive afirmou, segundo o site Business Insider, que a versão atual pode acabar facilitando o trabalho do inimigo.

Soldado dos EUA treina com 2.ª geração do IVAS (Crédito: Divulgação/US Army/DoD)

Soldado dos EUA treina com 2.ª geração do IVAS (Crédito: Divulgação/US Army/DoD)

Vamos recapitular: originalmente, o HoloLens seria lançado como um produto para o usuário final, mas como a Microsoft estava traumatizada com o Kinect, um sensor poderosíssimo que pesquisadores o adotaram em massa por ser vendido a preço de banana (US$ 149), onde acabou empregado em funções diferentes das planejadas (os gamers o odiaram), o foco do headset foi mudado para indústria, educação e, claro, developers developers developers.

Hoje, a versão "acessível" do HoloLens, que em tese qualquer um pode comprar (voltada para empresas e instituições educacionais, não o afegão médio), custa US$ 3,5 mil, preço fixado de propósito para manter curiosos longe do produto; a versão para desenvolvedores só pode ser adquirida mediante aprovação de projetos pela Microsoft (nada de games), e a industrial, para o chão de fábrica, sai por US$ 4.950.

No mais, a encarnação atual do Kinect é um sensor especializado, também exclusivo para desenvolvimento, indisponível para usuários finais.

Como o povão e desenvolvedores independentes não são mais o público que a Microsoft quer, a solução foi correr atrás de clientes de grande porte, e governos, em especial as Forças Armadas, contam com o cheat de dinheiro infinito à disposição. O IVAS (Integrated Visual Augmentation System, ou Sistema Integrado de Aumento Visual em português) foi apresentado como um sensor especializado similar ao que as tropas já usam, com funções agregadas diversas, como um "tudo em um".

O IVAS deveria fornecer visão noturna e térmica, além de informações contextuais via Realidade Aumentada, e segundo a Microsoft, uma "consciência situacional aprimorada" a fim de "permitir o compartilhamento de informações" via Azure Cloud Services, e tomadas de decisão "em uma variedade de cenários", o que inclui situações de combate.

A forma do contrato, firmado durante a administração de Donald Trump, prevê a entrega de 120 mil unidades do acessório em 10 anos, ao custo de US$ 21,88 bilhões, em regime de OTA (Other Transaction Authority, ou Outras Autoridades Transacionais), que permite a autoridades militares, como o Exército, firmar parcerias com empresas para o desenvolvimento conjunto de tecnologias para fins militares.

IVAS visto de perto (Crédito: Divulgação/Microsoft/US Army/DoD)

IVAS visto de perto (Crédito: Divulgação/Microsoft/US Army/DoD)

O projeto enfrenta desde sempre resistência dentro da Microsoft, no que funcionários são contra o uso do HoloLens, desenvolvido originalmente para aplicações educacionais, como uma ferramenta de guerra. No entanto, o CEO Satya Nadella manteve o cronograma, e afirmou que a empresa não privaria suas tecnologias de "instituições que nós (o povo) elegemos em democracias, para proteger a liberdade que nós gostamos".

Oficialmente, a gigante de Redmond diz que o IVAS foi desenvolvido especialmente para uso em treinamentos e "para defender as tropas" em ambientes hostis, o que pode ser entendido como ser usado em situações reais de conflito, ao ser teoricamente capaz de permitir que soldados possam identificar tropas inimigas à distância, em diversos tipos de visão e com informações adicionais relevantes, dependendo da situação.

Isso na teoria. Na prática, o projeto HoloLens está uma bagunça, com desentendimentos entre membros da equipe, que podem ou não estarem relacionados ao IVAS; não obstante, o engenheiro brasileiro Alex Kipman, líder do projeto original e também idealizador do Kinect, saiu da Microsoft, sob denúncias de assédio sexual e comportamento inadequado. Segundo fontes, havia uma recomendação interna de que "nenhuma funcionária mulher, em hipótese alguma, deveria ser deixada sozinha com Kipman".

A Microsoft estaria pronta para pular fora do carro da Realidade Aumentada, no que fontes afirmam que planos para um HoloLens 3 foram cancelados (a empresa nega), por ser um hardware caro demais para acompanhar a nova onda, o Metaverso, este focado no usuário final. Há quem diga que a gigante vai fazer uma parceria com fabricantes, entre elas a Samsung, para estas responderem pelo hardware.

Nisso, o IVAS ficou mais perdido que cachorro em dia de mudança. Em outubro de 2021, o projeto foi paralisado por, em tese, não atender às expectativas do Exército, mas, simultaneamente, o Departamento de Defesa estava conduzindo uma auditoria (cuidado, PDF), cuja conclusão foi de que o alto comando estava disposto a adotar o headset de qualquer jeito, sem considerar a opinião da parte mais crítica, as tropas, ao ignorar o Design com Foco no Soldado (Soldier-Centered Design).

Este conceito, simples na proposta, defende que as necessidades das tropas devem ser priorizadas no desenvolvimento de novos equipamentos; o Exército e a Microsoft teriam considerado sugestões dos soldados quanto à primeira geração do IVAS, que era basicamente o HoloLens com outro nome, mas o comando não teria definido critérios, e decidido por conta como o projeto deveria ser tocado.

A impressão atual do governo Biden (que não vai com a cara das big techs) é de que o Exército jogou bilhões de dólares dos contribuintes no lixo, com uma perfumaria desnecessária em prol de modernizar por modernizar, sem considerar se o IVAS vai ser útil, ou não. Tal mentalidade teve consequências desagradáveis para a Marinha, mais de uma vez.

Voltando na situação confusa do HoloLens, a Microsoft sabia que o headset não estava bom o bastante, mas os militares forçaram a mão, dizendo que "os testes foram promissores". Bom, não foi bem assim.

Microsoft sabia que versão atual do IVAS estava aquém do esperado, mas o Exército insistiu em prosseguir com os testes (Crédito: Divulgação/U.S. Army) / hololens

Microsoft sabia que versão atual do IVAS estava aquém do esperado, mas o Exército insistiu em prosseguir com os testes (Crédito: Divulgação/U.S. Army)

Um novo relatório do Exército, ao qual o site Business Insider teve acesso, corrobora as preocupações da Microsoft, e traz detalhes interessantes. Não só a atual versão do IVAS é grande e pesada, limitando a mobilidade dos soldados, como a visão periférica acaba prejudicada.

Calma que melhora: o headset de Realidade Aumentada emite uma série de luzes quando em uso, o tornando perfeitamente visível a centenas de metros de distância. Um testador foi curto e grosso quanto ao IVAS:

"Essa coisa vai acabar nos matando."

Em nota, a Microsoft afirma que o IVAS falhou em 4 dos 6 testes de avaliação em campo, que a empresa submeteu ao aparelho, e o entendimento geral é de que o acessório não está suficientemente bom para uso, se é que estará um dia (provavelmente não).

Claro, o Exército não quer admitir que jogou dinheiro fora. Segundo o Brigadeiro General Christopher D. Schneider, o IVAS "teve sucesso na maioria dos critérios de avaliação" dos militares, mas que "alguns aspectos" ainda deverão ser melhor trabalhados; segundo um porta-voz, a corporação "continua comprometida" com o projeto, e que ele "no geral, é considerado bem sucedido".

Se o IVAS for mesmo aprovado, essa posição do Exército dos EUA deve durar até o momento em que ele entrar em uso em uma situação atual, e um soldado americano virar alvo fácil de um combatente inimigo, com as luzes do headset denunciando sua posição.

Fonte: Business Insider

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