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Marinha dos EUA descobre que automação demais não é bom

Interfaces são importantes e a Marinha dos EUA descobriu isso de uma forma mortalmente custosa

12/08/2019 às 12:55

Progresso não é necessariamente andar sempre pra frente, e algumas vezes, como aconteceu com a Marinha dos EUA, descobrimos que dar um passo atrás pode ser a melhor medida.

Isso não é da marinha dos EUA

Nossa sociedade tem uma sede artificial por inovação, tudo tem que ser inédito e original, quando na prática mudar por mudar não faz sentido. Um conceito chamado Lei dos rendimentos decrescentes exemplifica bem isso. Em todo sistema, a quantidade de rendimentos não acompanha linearmente a quantidade de investimentos. Funciona assim: Se eu tenho uma fábrica que faz 1000 unidades, e invisto em outra para fazer mais 1000 unidades, o meu lucro não aumentou, pois embora eu tenha dobrado a quantidade de produtos produzidos, meu custo também aumentou.

Já se eu otimizar meus recursos e conseguir fazer 1500 unidades com uma fábrica só, aumentei meu lucro em 50%.

Isso se aplica a tudo, inclusive design industrial. Pegue uma faca, por exemplo.

Nada da marinha dos EUA

Desde tempos pré-históricos seu design básico é o mesmo. O material evoluiu incrivelmente (no geral, mas sendo específico lâminas de obsidiana ainda são usadas por cirurgiões) mas a funcionalidade não mudou. A ergonomia da faca é a mesma. Um Cro-Magnum de inteligência mediana poderia ser transportado para 2019 e conseguiria usar perfeitamente a faca mais avançada já produzida, com cabo de fibra de carbono, lâmina de nanotecnologia, etc.

Compare com tecnologias ainda em evolução; millenials não conseguem usar telefones de disco, usuários de celular de 20 anos atrás teriam dificuldade pra operar um iPhone, e talvez nunca descobrissem a Siri, pois o simples conceito de falar com uma Inteligência Artificial no celular era impensável fora da ficção científica.

Claro que é correto tentar novidades, mas uma hora é preciso aceitar que o design atual de um objeto já atingiu seu nível máximo de otimização. Veja por exemplo volantes. Originalmente carros vinham com alavancas, alguém inventou o volante, e pegou. De tempos em tempos surge um desocupado que tenta manches, joysticks, no final, o volante permanece.

Sidestick fora do navio da marinha dos EUA Volante doido que nao e navio da marinha dos EUA

Inovar por inovar pode ter resultados catastróficos, como aconteceu com o USS John McCain, mas antes vamos a uma breve aula de sistemas navais:

Originalmente navios da marinha dos EUA não tinham qualquer controle sobre seus motores, pois nem tinham motores. Quando os primeiros barcos a vapor surgiram, os motores eram estruturas muito complicadas, e controlar sua velocidade exigia um monte de ações, feitas na casa de máquinas. Da ponte o timoneiro dava as ordens através de tubos de comunicação, até que foi inventado o telégrafo, isto aqui:

Acelerador antigo de em navio da marinha dos EUA

Ele tem esse nome por ser literalmente um telégrafo, o timoneiro seleciona a velocidade desejada, um sinal elétrico transmite a informação para um telégrafo idêntico na casa de máquinas. O encarregado aciona o outro telégrafo em resposta, sinalizando que a ordem foi recebida e instrui a equipe a girar as 7583 válvulas e alavancas para alterar a velocidade do navio.

Hoje em dia na maioria dos navios o controle é automatizado, com a turma da engenharia só monitorando tudo, e o telégrafo transmite o comando direto pros computadores que controlam a aceleração, mas a ergonomia continua a mesma:

Acelerador navio da marinha dos EUA

Perfeito, certo? Pra quê mexer? Pra ser diferente, claro, tem que inovar, disruptar, e a Marinha dos EUA achou que o futuro era Star Trek, com tudo LCD Touchscreen, e instalaram em vários navios consoles de navegação sem comandos físicos, exceto a roda do leme:

Ponte de comando de navio da marinha dos EUA

Aí temos: Um sistema de controle novo, com comandos que antes eram físicos, práticos e de entendimento instantâneo transformados em opções em uma tela. Junte a isso tripulações mal-treinadas, equipe sobrecarregada e resulta nisto:

Buraco em navio da marinha dos EUA

Em 21 de Agosto de 2017 o destróier de 6900 toneladas USS John McCain atravessava o Estreito de Cingapura, em curso paralelo ao petroleiro de 30 mil toneladas Alnic MC.

A corrente estava tirando o McCain do curso, o timoneiro tentava compensar usando os motores e o leme, mas o Capitão percebeu que ele estava tendo dificuldades. Para aliviar a carga de trabalho, mandou que transferissem o controle do telégrafo para o console de outro timoneiro, que cuidaria de manter a velocidade.

O controle foi transferido mas por um erro o telégrafo foi configurado na opção destravada, tornando o comando das duas hélices independentes, ao invés do modo normal, onde cada um dos controles, esquerda ou direita acionava as duas na mesma velocidade.

Outro erro foi que o Oficial que fez a transferência de comandos transferiu além do controle do telégrafo o controle do leme, o primeiro timoneiro reportou que não tinha mais controle de leme.

Rombo em navio da marinha dos EUA

O Capitão ordenou que a velocidade fosse reduzida de 20 nós para 10 nós, o que foi feito, mas o segundo timoneiro, sem saber, reduziu apenas um dos motores, pois o controle estava desconectado. O motor da direita continuou acelerando a 20 nós, o da esquerda a 10, e obviamente o navio guinou pra esquerda.

Começou uma confusão na ponte, ninguém entendia o que estava acontecendo. Entre idas e vindas acionaram um comando de backup manual e o timoneiro retomou controle do leme,  mas quando transferiram o comando pra estação de backup, descobriram que o timão estava todo para a esquerda. Isso aumentou a curva, e quando viram era tarde demais, tinham atingido o Alnic MC.

No final 10 marinheiros morreram no USS John McCain, e 48 ficaram feridos, quando os alojamentos foram atingidos em cheio, inundados com água e combustível.

O acidente foi uma sucessão indesculpável de erros, mas um dos culpados principais foi a interface confusa e falta de feedback visual e táctil. A capacidade de transferir o controle entre várias estações na teoria era bem-vinda mas se mostrou fonte de confusão, um erro que jamais aconteceria em navios com estruturas de controle mais convencionais.

Outros acidentes mostraram que os novos controles, criados com a melhor das intenções eram causa de stress e problemas, e interfaces gráficas são lindas mas se toda hora que você olha pra tela tem que procurar aonde naquela configuração estão as informações que precisa, isso não funciona.

Agora a Marinha dos EUA desistiu, uma pesquisa do Comando de Sistemas Navais comprovou que ninguém gostava do novo sistema, e a decisão foi tomada: Vão reverter para os controles manuais, físicos. Telas de toque são lindas mas sendo realista, mesmo em Jornada nas Estrelas quando o Sulu vai acelerar a Enterprise, ele usa uma alavanca.

Acelerador, mas não da Marinha dos EUA

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