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Reino Unido: compra da Activision por Microsoft afeta competição

Órgão regulador britânico afirma que compra da Activision pela Microsoft ameaça competição nos mercados de games, streaming e assinaturas

23 semanas atrás

A Autoridade para Competição e Mercados do Reino Unido (CMA), o órgão britânico que supervisiona o livre mercado, concluiu a primeira fase de investigações acerca da compra da Activision Blizzard King (ABK) pela Microsoft, e se tornou o primeiro a acender o sinal amarelo para a transação.

Em seu relatório preliminar, a CMA anotou que a compra representa uma ameaça à inovação e à competição, no que a Microsoft pode exercer domínio sobre concorrentes não só no mercado de games, mas também no de streaming de jogos pela nuvem, ainda em sua infância, e no de serviços por assinatura.

Sede da Activision em Santa Monica, Califórnia (Crédito: Divulgação/Activision Blizzard)

Sede da Activision em Santa Monica, Califórnia (Crédito: Divulgação/Activision Blizzard)

Em seu relatório (cuidado, PDF), a CMA detalhou os diversos pontos críticos que encontrou no processo de aquisição, firmado em janeiro de 2022 por R$ US$ 68,7 bilhões. Esta não só é a maior transação do mercado de games em toda a história, mas a maior a ser paga em espécie (dinheiro vivo), independente do setor.

O órgão do governo do Reino Unido afirma que a compra da Activision pela Microsoft pode levar à redução da competitividade no mercado interno; no que tange ao mercado de games, ela cita o risco da gigante de Redmond restringir o acesso a franquias de grande sucesso e alcance, como Call of Duty, World of Warcraft e Candy Crush, apenas aos seus sistemas, depreciando as plataformas da Sony e Nintendo; por extensão, o mesmo se aplicaria ao mercado móvel, hoje representado por Apple e Google.

Note que duas das referidas marcas citadas acima não possuem versões para consoles, mas é fato que hoje, a ABK possui um grande número de franquias multiplataforma famosas e populares, como Overwatch, Diablo, StarCraft, Tony Hawk's, Crash Bandicoot e Sypro, e outras que poderiam ser retomadas, como Guitar Hero, The Lost Vikings, Rock N' Roll Racing, Heretic/HeXen, King's Quest Skylanders, entre outras.

Microsoft e Activision na mira

No entanto, o ponto de maior preocupação para a CMA está no fato de que, para a agência, a indústria dos games se encontra em uma fase de transição. A expansão da internet banda larga, hoje largamente disponível, acessível e com velocidades altíssimas, viabilizou a implementação da distribuição digital em larga escala, permitindo que serviços de games por assinatura, como o Xbox Game Pass, e via streaming, como o Xbox Cloud Gaming, se tornassem viáveis.

Para a CMA, tanto a distribuição digital quanto o streaming oferecem uma "janela de entrada" para empresas de menor porte, sejam estúdios ou distribuidoras, que tinham menor espaço no formato fechado dos consoles.

O órgão acredita que a compra da Activision colocará um poder de barganha imenso nas mãos da Microsoft, que promoverá seu ecossistema integrado (consoles Xbox, Windows, Game Pass, Cloud Gaming, plataforma Azure para nuvem, e 24 estúdios internos) como a opção padrão para quem quiser ser visto, jogado, e comprado.

A aquisição da Activision Blizzard pela Microsoft pode não ser tão boa quanto muitos pensam (Crédito: Divulgação/Microsoft)

A aquisição da Activision Blizzard pela Microsoft pode não ser tão boa quanto muitos pensam (Crédito: Divulgação/Microsoft)

A CMA também não se deixa levar pelas afirmações de Phil Spencer, chefe da divisão Xbox, e Bobby Kotick, CEO da Activision, de que jogos continuarão a ser distribuídos para plataformas concorrentes, e de que as exigências dos reguladores serão atendidas. Basta lembrar que dois títulos de peso, Starfield e The Elder Scrolls VI, foram anunciados como exclusivos Xbox. Para a agência britânica, tais afirmações podem mudar ao sabor do vento.

Os reguladores também foram direto no ponto das afirmações da Microsoft e Activision, ao desmembrarem consoles, assinaturas e streaming como serviços não-relacionados. Por exemplo: embora Spencer diga que Call of Duty ainda será lançado para consoles PlayStation, isso diz respeito apenas ao formato de venda tradicional, seja cópia física ou digital, enquanto nada foi dito sobre sua inclusão no PS+. O mesmo vale para sua presença garantida no Xbox Cloud Gaming, sem mencionar rivais no streaming como Amazon Luna, GeForce Now e Google Stadia.

Para a CMA, a Microsoft deverá garantir liberdade de acesso aos games da Activision, independente da plataforma escolhida pelo usuário; se ele quiser jogar Call of Duty via streaming, ele deverá conseguir fazê-lo em seu serviço de escolha, ao invés de ser obrigado a assinar o Xbox Game Pass Ultimate, sendo este o plano que dá acesso ao serviço Xbox Cloud Gaming.

CMA pode influenciar mais reguladores

O órgão regulador britânico solicitou uma segunda fase de investigações, mais profunda e minuciosa, que deverá analisar todos os pormenores referentes à aquisição da Activision pela Microsoft.

Embora este fosse um cenário muito possível de acontecer, dadas as dimensões do negócio, é fato que os ânimos dos oficiais responsáveis por supervisionar a competição e o livre mercado não andam dos melhores, dada a onda crescente de aquisições na cena tech, com a compra fracassada da ARM pela Nvidia sendo o caso mais recente.

Conceito de núcleo Cortex de arquitetura ARM (Crédito: Divulgação/ARM)

Conceito de núcleo Cortex de arquitetura ARM (Crédito: Divulgação/ARM)

Em um processo que se arrastou por quase um ano, os quatro principais órgãos reguladores, sendo a CMA, a Comissão Europeia para a Competição, a FTC norte-americana, e o governo da China, se posicionaram contra o negócio, afirmando que ele daria vantagens injustas à companhia de Santa Clara, prejudicando seriamente a inovação e a competição.

Os governos britânico e chinês também expressaram preocupação com uma possível transferência da empresa de semicondutores para os EUA, no que ela poderia ser considerada crítica pela Casa Branca, e ter seus designs restritos apenas a mercados que o governo considerasse adequados; já a FTC apontou que a Nvidia poderia praticar espionagem industrial, ao passar a ter acesso a informações de concorrentes diretos, clientes da ARM.

Além da CMA, a Microsoft deve considerar que a Comissão Europeia, comandada pela comissária linha-dura Margrethe Vestager, é extremamente avessa ao crescimento de companhias externas ao bloco em detrimento das internas, e nos EUA, mudanças recentes na FTC dificultarão o processo de aquisição de concorrentes, para proteger o mercado e a livre concorrência. E ninguém sabe o que virá de Pequim.

Só nos resta aguardar os próximos capítulos, para descobrir se a decisão da CMA poderá influenciar a visão dos reguladores dos EUA, UE e China sobre a aquisição da Activision pela Microsoft, se o processo será concluído, ou se terá o mesmo destino da compra da ARM pela Nvidia.

Fonte: Gov.UK

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