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Google para Apple: "pare de nos bater com o iMessage!"

Campanha do Google busca forçar Apple a implementar o RCS no iMessage, o que nunca acontecerá por iniciativa da maçã

11/08/2022 às 9:46

O iMessage, o mensageiro instantâneo padrão dos dispositivos da Apple, é desde sempre tratado como um dos recursos que justifica sua estratégia do Jardim Murado: nada essencial ao iPhone, iPad e Mac será disponibilizado à concorrência, sem opções de interação entre sistemas, especialmente com o Android, do Google.

Quando há comunicação entre sistemas, ela é mantida ao nível mínimo, com uma experiência de uso propositalmente depreciada; no caso do iMessage, além de diferenciar mensagens do Android em bolhas de texto verdes (usuários da Apple têm bolhas azuis), tudo é convertido para o arcaico formato SMS/MMS, no que o RCS, um novo padrão, foi criado para substituir.

Usuários Android são identificados com balões verdes no iMessage, e a Apple faz questão de piorar a experiência de comunicação entre sistemas (Crédito: Yann Bastard)

Usuários Android são identificados com balões verdes no iMessage, e a Apple faz questão de piorar a experiência de comunicação entre sistemas (Crédito: Yann Bastard)

O RCS (Rich Communications Service) é um formato padrão de comunicação para mensagens instantâneas, a ser administrado pelas operadoras de telefonia, que incorpora a quase totalidade dos recursos disponíveis no iMessage, WhatsApp, Telegram, Facebook Messenger e Cia. Ltda.: ele suporta mensagens com mais de 160 caracteres, transferência de arquivos grandes, mensagens em áudio e vídeo em alta qualidade, adesivos, conversas em grupo, pacote completo.

Há dois empecilhos para seu avanço como uma solução única: primeiro, a Apple se recusa veementemente a adotá-lo; segundo, o Google é o player mais interessado em sua implementação, pois detém uma versão própria, um fork, este, sim, o endossado pela gigante das buscas. O original, por ser um padrão da indústria, carece de recursos básicos como criptografia de dados, e depende de um número de telefone celular funcional, ao invés de ligá-lo ao login em serviços.

Recentemente, o Google lançou um novo site para promover o seu RCS, chamado "Get the Message", uma campanha pública para pressionar a Apple a adotar o formato no RCS, mas muita gente se pergunta por que Mountain View se dá a esse trabalho. O Android é líder de mercado no mundo, responde por 71,86% do market share global (dados de julho de 2022), por que se preocupar com os 28% restantes?

A resposta é muito simples: os Estados Unidos importam. O resto do mundo, não.

iMessage domina os EUA. Culpa do Google

Market share do mercado mobile nos EUA, entre julho de 2021 e julho de 2022 (Crédito: Statcounter)

Market share do mercado mobile nos EUA, entre julho de 2021 e julho de 2022 (Crédito: Statcounter)

Ainda que a diferença seja pequena, o iPhone é líder do mercado norte-americano, com 55,26% de participação, contra 44,43% do Android (dados de julho de 2022). O iMessage é um fenômeno cultural por lá, ao ponto de ser tema de músicas que, enquanto lustram a Apple, zoam o robozinho do Google.

Ainda assim, não é como se o Google não estivesse presente no iPhone, com seus inúmeros produtos e serviços. O Google Search, por exemplo, tem espaço garantido mediante pagamento, e Mountain View desembolsa montanhas de dinheiro todos os anos, sem reclamar. Por que um mensageiro da gigante não poderia emplacar no iPhone, estando disponível como uma opção?

Já terminou de rir? OK, eu espero.

Continuando... não é segredo que o Google tem uma longa e extensa experiência com mensageiros instantâneos, e nada do que a companhia fez deu certo. Hangouts, Google Talk, Allo, Chat, até o Google+ pode ser colocado nesse balaio. Os motivos para a dispensa desses apps vão desde pouca adesão, a práticas desastradas do próprio Google, com uma solução concorrendo com outra interna, ou várias outras, simultaneamente.

Como é possível fidelizar o usuário quando nem o Google sabe o que está fazendo? A mais recente bagunça envolve o Allo, renomeado para Google Meet... enquanto o Meet original continua disponível. Sim, há dois apps oficiais, chamados Google Meet.

Há também o Mensagens, o app padrão que usa RCS, o Google Voice, de voz com um número provido pelo app, o Hangouts, que será descontinuado no fim de 2022, e os mensageiros embutidos em outras soluções, como Gmail, GDocs, Google Play, Google Assistente, Google Stadia...

A bagunça dos mensageiros do Google não é de hoje (Crédito: Ron Amadeo) / imessage

A bagunça dos mensageiros do Google não é de hoje (Crédito: Ron Amadeo)

Este é um dos problemas que o Google falha desde sempre em resolver. A companhia não possui um app estável e reconhecível para mensagens instantâneas, permitindo soluções de terceiros, como o WhatsApp e o Telegram, ganharem terreno. O mesmo vale para o iMessage, com a vantagem que a aplicação da Apple é nativa.

Exatamente por isso, Mountain View tenta há anos convencer Cupertino a adotar o RCS, que irá favorecer seus produtos, mas que no sentido prático, não trará nenhuma vantagem ao ecossistema fechado da Apple. O que nos traz à estratégia que a empresa de Tim Cook adota:

"Vocês que lutem"

A música do Drake zoando os balões verdes no iMessage tem razão de ser. Por padrão, as mensagens recebidas pelo app nativo da Apple se dividem entre quem tem um iGadget, e quem não tem. Qualquer texto ou imagem enviada de um iPhone, iPad ou Mac para outro, usando a solução da casa, é identificada por um balão de texto azul.

Tudo o que não atende esse pré-requisito ganha o tratamento do balão verde, mas com uma pitada maquiavélica: o conteúdo é por padrão tratado, e entregue, como uma mensagem SMS ou conteúdo de mídia MMS, que possuem limitações severas, quando comparados aos recursos dos mensageiros modernos.

A Apple deixa bem claro que mensagens fora do iMessage são piores (Crédito: Divulgação/Apple)

A Apple deixa bem claro que mensagens fora do iMessage são piores (Crédito: Divulgação/Apple)

Para depreciar a comunicação entre sistemas, mensagens de texto via SMS, que para os padrões de hoje, são enviadas a iPhones por dispositivos Android, podem chegar truncadas e quebradas, rearranjadas de maneiras pouco convenientes. Vídeos e fotos são comprimidos ao máximo de modo a se adequarem ao formato MMS, detonando completamente a experiência.

Sem falar que diferente das mensagens enviadas entre usuários do iMessage, SMS implica em custos ao recebedor. Em muitos casos, o usuário simplesmente bloqueia a comunicação de donos de Android, relegando-os a apps de terceiros, que estão longe de serem populares nos EUA, de novo, o mercado que realmente importa ao Google. Por lá, o iMessage tem muito mais público do que WhatsApp, Facebook Messenger ou Telegram.

Isso faz com que a nova campanha do Google, para convencer a Apple a adotar o RCS, soe mais como um pedido de clemência à maçã, para deixar de fazer bully com sua solução, e permitir que ela possa encontrar espaço no iMessage, um ato que traria enormes benefícios a Mountain View, que viabilizaria sua versão do protocolo, e às operadoras, que poderão ganhar mais grana, mas praticamente nenhuma relevante a Cupertino.

O que esbarra em outro problema: a Apple dita novas tendências, mas não segue as apresentadas por outros (até certo ponto). No passado, Steve Jobs esteve disposto a permitir que a tecnologia do iMessage fosse implementada como o padrão em mensagens instantâneas, mas nos seus termos; as chances da empresa seguir uma diretriz do Google tendem a zero, a menos que ela seja forçada judicialmente a isso.

Leve em contam que o iMessage é precioso para a maçã, e assim como ele nunca será lançado para o Android, é improvável que a companhia abra as portas para implementar nele soluções de terceiros, sem que ela ganhe algo com isso.

No mais, o Google vai continuar tentando convencer em vão à Apple a entrar para o RCS, enquanto a maçã manterá sua posição de Jardim Murado, e não vai se misturar com a gentalha.

Fonte: Ars Technica, ExtremeTech

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