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Google Stadia chegou ao fim? Não foi por falta de aviso

Novos rumores indicam que Google está prestes a encerrar o Stadia, seu serviço de games na nuvem, a pedra mais cantada do universo

01/08/2022 às 11:49

O Stadia foi um fracasso completo, e a culpa é do próprio Google. O serviço de games apenas na nuvem da gigante das buscas, lançado em novembro de 2019, acumula tropeços, promessas não cumpridas e "readequações", que incluem fechamento de estúdios, ao longo dos seus quase 3 anos de existência, que não devem se estender muito mais.

Google tratou o Stadia como "o futuro dos games", mas empresa tinha zero expertise (e interesse) no setor (Crédito: Divulgação/Google)

Google tratou o Stadia como "o futuro dos games", mas empresa tinha zero expertise (e interesse) no setor (Crédito: Divulgação/Google)

Para a surpresa de absolutamente ninguém, fontes próximas dizem que o Stadia será desligado por completo entre setembro e outubro, e nem mesmo a porção corporativa, voltada para estúdios criarem seus próprios serviços de streaming e distribuírem jogos, será mantida. O Google nega.

Morreu ou passa bem?

A notícia veio através da conta no Twitter do site Killed by Google, que lista os inúmeros serviços, produtos e empreendimentos que o Google lançou, ou adquiriu, apenas para encerrar em um determinado momento.

Segundo a postagem, o administrador do site é amigo de um gerente regional do Google, que lhe avisou sobre o início do "plano de saída" para o Stadia, sendo efetivamente o encerramento do serviço. Embora não haja uma data fixa, as informações internas apontam para o desligamento ocorrendo no fim do verão do hemisfério norte (inverno por aqui), o que fixaria a janela entre 20 e 30 de setembro.

O tal gerente informa que o Google não pretende transferir os recursos para nenhuma outra plataforma, e que a saída adotada será a mesma do Google Play Music: o desligamento será total, com reembolso de valores pagos que não serão revertidos em acesso a games.

Compras individuais de games também deverão ser reembolsadas, pois não haverá como jogar os títulos da Stadia após o fim da plataforma.

"Um alerta.

Um antigo colega de trabalho e amigo meu hoje é um dos gerentes regionais do Google. Na verdade, foi ele quem me apresentou ao Stadia. O Google realizou um grande seminário de funcionários/varejo na Califórnia no último final de semana, e para encurtar a história, a companhia deu início ao plano de encerramento do serviço.

Não há uma data exata de quando isso vai acontecer, mas disseram que será até o final do verão. Ele também mencionou que o Google não vai tranferir seus serviços ou servidores para nenhuma outra companhia competidora, e o processo será muito parecido com o do Google Play Music (mesma abordagem e estratégia de saída).

Obviamente, não gosto disto tanto quanto alguns de vocês, mas vocês sempre foram super legais e prestativos, então pensei em retribuir o favor e avisá-los.

Havia alguns outros detalhes que eu poderia postar se vocês quiserem, mas nada muito relevante. Acredito que ele também mencionou que todos os usuários serão informados de 30 a 60 dias antes (do desligamento), e que o último mês de serviço será reembolsado e não será cobrado.

Além disso, quaisquer meses de assinatura pendentes serão reembolsados ​​integralmente nas contas bancárias vinculadas.

Vou falar com ele esta noite (28/07) e fazer todas as perguntas que vocês possam ter.

Obrigado novamente, pessoal.

Bênçãos."

O Google, obviamente, nega a informação. Em uma postagem tirando sarro do tweet informando sobre o fim do Stadia, a conta dedicada ao serviço de streaming se limitou a dizer que o game Wavetale ficou disponível gratuitamente para assinantes do plano Stadia Pro, entre 29 de julho e 1.º de agosto de 2022.

No entanto, não é preciso forçar muito para perceber que o Stadia não só tem uma série de problemas, como está no bico do corvo há tempos, o que corrobora a informação de que o Google está prestes a matar a plataforma.

Google Stadia, mentiras e falsas promessas

Anunciado em 2018 como "Project Stream" e oficializado em 2019, o Google posicionou o Stadia como "o futuro dos games", assinalando para uma realidade em que os títulos serão exclusivamente executados na nuvem, sem a existência de uma opção local, algo que nem a Sony, com o PS Now, hoje PS+ Premium (indisponível no Brasil), a Microsoft, com o Xbox Cloud Gaming, ou a Nvidia, com o GeForce Now, se atreveram a fazer.

O anúncio oficial da plataforma, realizado durante a Game Developers Conference (GDC) 2019, mostra o quão megalomânica a gigante das buscas se mostrou, ao entrar em um mercado onde não tinha nenhuma experiência direta.

Claro, em determinados momentos da história o mesmo pode ser dito da Microsoft, da Sony ou mesmo da Nintendo (a SEGA nasceu vendendo máquinas de pinball, e não se enquadra), mas estas empresas se permitiram aprender, estudar e com o tempo, aperfeiçoar seus produtos e hoje, dividem o mercado de consoles em um triunvirato.

O mesmo não se aplica ao Google. A empresa usou sua posição de uma das gigantes de tecnologia, para "mostrar como se fazem as coisas", em uma clara tentativa de liderar o que julgou como uma evolução natural do setor, desejada por quase a totalidade dos detentores de direitos autorais: a "Netflixação" dos games, onde o usuário paga apenas pelo acesso, mas não possui cópias dos títulos, sejam físicas ou digitais.

O próprio formato do serviço Stadia mostra isso. Ele só existe na nuvem, e embora haja a possibilidade de usuários poderem comprar jogos individuais, independente de terem ou não uma assinatura, os títulos não podem ser executados localmente, apenas via streaming.

Mais importante, o Google não fez por onde aprender ou evoluir, e julgou que por "dar a largada" do formato de streaming-only para games, todos a seguiriam, o que não aconteceu. A presença de Phil Harrison como líder do Stadia também não inspirou confiança.

Um executivo de carreira no mercado de games, Harrison se tornou infame por suas passagens em companhias como Sony, Atari, Gaikai e Microsoft, onde foi vice-presidente executivo, por seu histórico de nunca cumprir suas promessas mirabolantes, um modus operandi que prejudicou as vendas iniciais tanto do PlayStation 3, quanto do Xbox One.

Como Gerente de Projeto do Stadia, Harrison voltou a fazer das suas. Vejamos alguns pontos críticos:

1. Escala e disponibilidade

Sundar Pichai disse que o Stadia chegaria a quase todos os países do globo (Crédito: Reprodução/Google)

Sundar Pichai disse que o Stadia chegaria a quase todos os países do globo (Crédito: Reprodução/Google)

Esta é talvez a promessa mais furada, principalmente porque não saiu da boca de Phil Harrison, mas de Sundar Pichai, CEO da Alphabet Inc., empresa holding do Google. O executivo comentou que inicialmente, o Stadia seria disponibilizado em 19 países, mas com o tempo, o serviço chegaria a mais países e regiões, cobrindo quase que a totalidade do globo.

Bem, não foi isso o que aconteceu. Pouco tempo após, o Stadia foi movido para o departamento de Hardware da gigante, este supervisionado pelo ex-Motorola Rick Osterloh; a plataforma acabou sujeita à mesma estratégia de mercado reservada à linha Pixel (o Chromecast é uma rara exceção, mas note que o modelo Ultra nunca veio para o Brasil), ficando restrita a apenas 22 países.

E não há nenhum indício de que a oferta será expandida, mesmo que o Google não encerre o serviço.

2. Hardware (ou a falta dele)

Phil Harrison fala sobre o hardware dos servidores do Google Stadia (Crédito: Reprodução/Google)

Phil Harrison fala sobre o hardware dos servidores do Google Stadia (Crédito: Reprodução/Google)

Lendo apenas a listinha fria, o hardware que Phil Harrison disse ser o dedicado ao Stadia parecia bom, ao menos para streaming. Processadores x86 customizados com clock fixo de 2,7 GHz, 16 GB de RAM, velocidade de transferência de até 484 GB/s, 9,5 MB de cache L2 + L3 (acredite, isso é muito) e potência gráfica de 10,7 TFLOP/s, indicavam desempenho próximo ao de um PC gamer intermediário para premium.

O Google prometeu que este hardware, separado dos servidores empregados em serviços que a companhia já oferece, como Google Search, Gmail, YouTube, e seus vários mensageiros instantâneos (qual é o da vez? Hangouts? Chat?), entre outros, conseguiria rodar jogos em 4K a 60 fps de maneira estável, mas há problemas mesmo em 1080p, e em alguns casos, mesmo a execução em 720p não é suave.

Ao mesmo tempo, servidores dedicados são um problema para o Google, que não se mostra nem um pouco animado a investir em uma infraestrutura à parte de seu parque de servidores principais, que, sempre bom lembrar, não conseguem rodar jogos na nuvem.

3. A suposta vantagem em latência

Mesmo com os supostos 7.500 nós, a rede do Stadia não é tão rápida (Crédito: Reprodução/Google)

Quando o assunto é jogos via streaming, a latência é o fator mais crítico. Um atraso na execução de comandos significa a diferença entre o sucesso e a falha em um game, e é por isso que muitos torcem o nariz para o formato em cenários competitivos, com a jogatina local ainda reinando suprema.

Microsoft e Sony entendem que o streaming não cobrirá todos os casos de uso, principalmente em jogos de FPS e de luta, mas o Google insistia que o Stadia, mantido pela rede estabelecida pela companhia e seus mais de 7.500 nós, em todo o mundo, isso não seria um problema. De fato, não importa onde você esteja, tem um servidor do Google perto de você.

Mesmo assim, o Stadia não demonstrou ter vantagens sobre serviços concorrentes, como testes de comparação realizados com concorrentes, como o GeForce Now da Nvidia, demonstraram. O site PC Gamer ainda cravou a faca e girou, ao lembrar que o GeForce Now alcança 120 fps, e o Stadia, não.

O último a sair...

Dado o histórico do Google em matar serviços, muitos estúdios se mostraram receosos em trabalhar com o Stadia, e suas preocupações só aumentaram quando o estúdio interno foi fechado, levando à demissão da líder do projeto Jade Raymond, produtora veterana responsável pelos primeiros títulos da franquia Assassin's Creed.

A coisa ficou ainda mais feia quando circularam informações de que Phil Harrison elogiou o trabalho do Stadia Games and Entertainment (SG&E), dias antes de fechá-lo. Hoje Raymond está na Sony, após a aquisição da Haven Studios.

Jade Raymond, quando ainda estava na Ubisoft (Crédito: reprodução/ZCooperstown/Wikimedia Commons)

Jade Raymond, quando ainda estava na Ubisoft (Crédito: reprodução/ZCooperstown/Wikimedia Commons)

Só não vamos entrar no mérito da discussão sobre streamers pagarem a desenvolvedoras, revivida pelo diretor de Journey to the Savage Planet, game que após a aquisição da Typhoon Studios pelo Google, se tornou o único título original (em partes) do SG&E, porque isto não está diretamente ligado aos problemas do serviço.

De qualquer forma, a verdade é que hoje o Google Stadia é um zumbi: não mostrou a que veio, não ameaça os concorrentes, que entenderam o streaming de games como uma alternativa aos jogos executados localmente, e não uma solução para o futuro, e não recebe investimentos substanciais há anos, se é que recebeu algum após o lançamento.

Pode até ser que o Stadia não seja encerrado em breve, mas agora, talvez seja melhor para o Google praticar o desapego, e deixá-lo ir; existem outros players que fazem melhor, e entregam em mais lugares.

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