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Russos usando componentes comerciais em seus mísseis

Os russos sempre surpreendem. Não só eles não usam tecnologia de ponta, como seus componentes são ocidentais, comprados em lojas

10 semanas atrás

Os russos estão usando seu armamento mais moderno na Ucrânia, o que está sendo um presente de Natal antecipado para os EUA, OTAN e todo mundo que tenha curiosidade sobre a elusiva tecnologia bélica de Putin e seus amigos.

Bombardeiro russo Tu-160 lançando um míssil Kh-101 (Crédito: Reprodução Internet)

Sendo honesto essa guerra está sendo ótima para os dois lados, vide a quantidade de equipamentos de ponta capturados por russos e ucranianos. Algumas vezes sistemas inteiros caem nas mãos do inimigo.

Existem várias formas de espionagem industrial/militar, na Segunda Guerra Mundial espiões poloneses capturaram planos das máquinas Enigma e entregaram para os ingleses, que mais tarde conseguiram colocar as mãos em uma unidade inteira.

Também nos anos 1940 espionagem era praticada abertamente por velhinhas belgas, que ficavam em suas varandas, tricotando e observando os trens passando com tropas e veículos alemães. Elas “erravam” propositalmente um ponto, para sinalizar o tipo de carga e trem. Mais tarde as roupas eram vestidas por outros agentes que chegavam aos Aliados.

Quando armas caíam em mãos inimigas, bombas voadoras que não explodiam, aviões que pousavam sem explodir, era só alegria nos laboratórios que destrinchavam os equipamentos, descobriam como eles funcionavam e aproveitavam as boas idéias.

Spitfires Mustangs ingleses capturados e pintados com as cores do Reich (Crédito: Domínio Público)

Para evitar isso valia tudo, oficiais da Kriegsmarine eram instruídos a destruir as máquinas Enigma caso fossem abordados ou forçados a se render, e os aliados, que haviam desenvolvido equipamentos primitivos de radar Interrogate: Friend or Foe, para diferenciar amigos de inimigos, tinham botões de autodestruição dos rádios, caso o piloto fosse obrigado a abandonar a aeronave.

Botão duplo (para evitar acidentes) de destruição dos rádios IFF britânicos (Crédito: RAF)

Algumas vezes a xerocada acontece até entre amigos de conveniência. Durante a 2ª Guerra Mundial alguns bombardeiros B-29 americanos tiveram que pousar na União Soviética. Foram bem-recebidos, mas enquanto isso os engenheiros da Tupolev examinaram cada centímetro do avião, que era tecnologia quase de ficção científica, na época.

O resultado foi o Tu-4, um avião que é uma cópia IDÊNTICA do B-29, a ponto dos pedais terem “BOEING” em alto-relevo, pois os russos não quiseram mudar nada. Até o ferramental foi adaptado para usar medidas imperiais.

Em 1958, durante um arranca-rabo entre Taiwan e China, os americanos mandaram para Taiwan mísseis Sidewinder, recém-desenvolvidos, muito mais avançados do que qualquer coisa no arsenal russo. Infelizmente um deles não explodiu, ficou alojado em um MiG chinês, que conseguiu voltar para casa. Em alguns dias o míssil estava em Moscou, e em três anos os russos lançavam seu próprio míssil, o ATOLL. Na foto abaixo, os dois.

Um é o ATOLL, o outro o Sidewinder. Kibe? Não, magina (Crédito: Contraditorium)

Óbvio que os russos também tinham muitos programas originais, o próprio foguete Vostok que lançou Yuri Gagarin era um míssil balístico intercontinental, com tecnologia 100% russa, e uma ajudinha de ex-cientistas nazistas, mas até aí todo mundo fez isso.

Mesmo assim a tecnologia russa nunca foi “de ponta”, eles são ótimos em construir máquinas pé-de-boi, que agüentam muita pancada, mas não são exatamente sofisticadas. O ponto fraco deles sempre foi a eletrônica, e mais tarde, o software, que o digam os sistemas antiaéreos do Moskva.

Por isso não foi muita surpresa quando apareceram unidades de controle de mísseis de cruzeiro russos Kh-101, e elas não eram exatamente high-tech. Projetado em 1971, o míssil com codinome na OTAN AS-15 "Kent", dependendo da versão pode ter alcance de até 3000 km carregando uma ogiva termonuclear ou convencional. Por enquanto na Ucrânia os russos estão usando convencionais.

Tupolev Tu-95 "Bear", carregando uma penca de Kh-101s (Crédito: Mod Rússia)

Como quase tudo da época, o Kh-101 era totalmente analógico, o que surpreendeu é que mesmo nas versões mais modernas, ele continua sendo. Os mísseis capturados foram examinados e suas unidades de navegação usam os mesmos componentes pré-históricos dos Anos 70, basicamente barro fofo e pedra lascada.

Outros equipamentos russos capturados revelaram informações mais suculentas ainda.

Placa do sistema de navegação de um Kh-101 capturado. (Crédito: Ministério da Defesa da Ucrânia)

Normalmente equipamentos militares são construídos com componentes robustos, caros que só eles, preparados para resistir a condições bem mais severas do que os chips do seu Hitach Magic Wand.

No caso dos equipamentos russos, como os sistemas antiaéreos Pantsir-S1, ou o veículo de comando e controle de defesas aéreas Barnaul-T, os ucranianos se surpreenderam.

Nos bons e velhos tempos os russos se gabavam de sua superioridade e independência do Ocidente, agora optaram pelo caminho mais fácil, e só o Barnaul-T, acharam chips feitos pela Intel, Micrel, Micron Technology e Atmel Corp.

Segundo o War Zone, na versão modernizada do Míssil Kh-101, o que não era tecnologia dos Anos 60, era feito com chips da Texas Instruments, Atmel Corp. Rochester Electronics, Cypress Semiconductor, Maxim Integrated, XILINX, Infineon Technologies, Intel, Onsemi, e Micron Technology.

Uma das placas de um Barnaul-T capturado. Bem mais decente, mas cheia de componentes civis (Crédito: MOD Ucrânia)

Nenhum desses chips tem certificação militar, são componentes que qualquer um compra na Internet, e com ou sem embargo, são encontrados em qualquer lugar, principalmente na China, com uma imensa indústria de reciclagem de componentes eletrônicos.

Há relatos de que os russos estão canibalizando eletrodomésticos importados, como máquinas de lavar, para obter componentes para seus mísseis e sistemas bélicos. É uma interessante inversão da clássica passagem, dessa vez estão transformando arados em espadas.

Componentes reforçados para uso em aplicações militares. (Crédito: Carlos Cardoso)

Não seria a primeira vez. Reza a lenda que por volta da virada do Século, Saddam Hussein teria comprado 4000 Playstations 2, que seriam usados como máquinas Linux em cluster, para todo tipo de computação maligna, como cálculos para armas nucleares.

Saber que os russos estão usando chips comerciais em seus equipamentos é mais que uma curiosidade, é uma informação estratégica. Esses chips são muito mais vulneráveis a todo tipo de interferência, e têm suas capacidades bem conhecidas. É só saber explorá-las.

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