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Meio Bit Explica: O que são os Mísseis Hipersônicos?

Entenda como os Mísseis Hipersônicos estão mudando a estratégia global e redefinindo o equilíbrio militar atual!

11 semanas atrás

Mísseis hipersônicos são a coqueluche do momento (isso entrega a idade) e Irã e Rússia ameaçam seus inimigos com essas armas indefensáveis. O quanto há de hype nos mísseis hipersônicos (DSCLP)?

A imagem mostra um grande foguete voando sobre a Estátua da Liberdade, na cidade de Nova York. O foguete é preto com uma faixa vermelha, branca e verde na lateral. Ele está voando para o lado direito da imagem, com uma chama laranja brilhante atrás dele. Ao fundo, é visível o horizonte da cidade, com prédios altos e arranha-céus. A água abaixo é de um azul profundo e há alguns barcos visíveis na superfície. O céu está claro e azul.

Imagem meramente ilustrativa (Crédito: Qwen Edit 2512)

O primeiro problema é que a mídia não sabe o que são mísseis hipersônicos, eles partem do princípio de que, pelo nome, são mísseis que se movem acima de Mach 5, mas qualquer míssil balístico minimamente decente voa a mais de cinco vezes a velocidade do som. Em verdade isso não é novidade desde o primeiro:

A imagem mostra um grande míssil sendo carregado em um caminhão. O míssil é preto e branco e tem nariz pontudo. O caminhão é verde e tem quatro rodas. Há várias pessoas ao redor do caminhão inspecionando o míssil. Ao fundo, há árvores e um campo de terra. O céu está azul e o tempo parece ensolarado.

Sim, a V2 de Werner Von Braun atingia Mach 5 em parte de sua trajetória (Crédito: Domínio Público)

 

Velocidade hipersônica nunca foi problema para mísseis. Ou melhor, é o grande problema. Um míssil Trident II D5 lançado de submarinos cai na categoria de míssil balístico intercontinental, ou ICBM. Tem alcance de mais de 12 mil quilômetros, podendo atingir até 1.800 km de altitude, para performar o arco de sua trajetória, bem, balística, e atingir alvos mais próximos.

Como todo míssil ou foguete, seu combustível acaba bem antes disso, ainda na fase de subida, de lá ele vai só no embalo, e depois que atinge o apogeu, desce feito um desesperado, e esse é o problema.

A energia potencial é transformada em energia cinética, e ela tem que ir para algum lugar. Nessa descida ele atinge Mach 24. Depois que entra na atmosfera, o veículo de reentrada (que contém a ogiva termonuclear, sistemas de navegação, escudo de calor, etc.) encontra resistência, tendo sua velocidade reduzida para Mach 20 no momento da detonação.

Aqui um teste de veículos de reentrada de mísseis Peacekeeper. Sem ogiva, claro.

Isso por si só tornava impossível a interceptação. Mach 20 é algo absolutamente insano. Se você explodir uma caixa de TNT a 1mm atrás do míssil, a Mach 24, equivalente a mais de 29000km/h, a velocidade da onda da explosão não conseguirá alcançar o veículo. Ele não é mais rápido que uma bala, ele é dez vezes mais rápido.

Um rifle sniper Barrett M82 dispara um projétil calibre .50 a Mach 2.4.

Interceptar um ICBM com explosivos se tornou inviável; as pesquisas se voltaram para ataques cinéticos, em que veículos interceptariam o míssil ou ogivas inimigas e, com a simples energia da colisão, os destruiriam.

Isso, obviamente, não é nada fácil. É algumas ordens de magnitude mais difícil do que acertar uma bala com outra bala, algo que ocasionalmente acontece em guerras, graças à Probabilidade, mas é virtualmente impossível de ser feito de propósito.

Os engenheiros resolveram tentar mesmo assim, e EUA, Rússia, China e Israel desenvolveram sistemas para interceptar mísseis inimigos na região exoatmosférica.

A imagem mostra um grande foguete branco com vários adesivos nas laterais. O foguete está montado em uma plataforma branca com um guindaste no lado direito. Ao fundo, um lindo pôr do sol com tons laranja e rosa. O céu está cheio de nuvens e o horizonte é visível ao longe. O sol está se pondo, lançando um brilho quente sobre a cena. O clima geral da imagem é pacífico e sereno.

Míssil do Ground-Based Midcourse Defense (Crédito: Department of War)

O sistema americano, o Ground-Based Midcourse Defense, usa um foguete de dois estágios para acelerar um veículo de ataque a 25 mil km/h, que entra em curso de interceptação com o míssil inimigo. A velocidade somada é de mais de 30 mil km/h, com o veículo usando um grande telescópio frontal infravermelho para identificar o alvo, fazendo milhares de microcorreções por segundo, até a interceptação.

Aqui entra a Corrida Armamentista

Os russos não ficariam parados e criaram técnicas para dificultar a vida dos inimigos. Além das ogivas verdadeiras, os mísseis passaram a carregar ogivas falsas, com a mesma assinatura térmica. Balões metálicos e chaff confundiam os radares de terra, mas a grande arma era o MIRV, sigla em inglês para Veículo de Reentrada com Múltiplos Alvos Independentes. A tecnologia permitiu miniaturizar ogivas nucleares, a eletrônica que a acompanha, escudo de calor e sensores, a ponto de um único míssil poder levar vários desses veículos. Um Peacekeeper, por exemplo, conseguia levar dez.

Russos e americanos tentaram regular o uso de MIRVs por tratados, mas o máximo que conseguiram, com o START (2010-2026), foi contar cada ogiva MIRV como uma ogiva individual, no total permitido pelo tratado.

O que manteve o mundo vivo durante a Guerra Fria foi a ineficiência dos sistemas de defesa; um ataque em massa resultaria em uma retaliação em massa, milhares de mísseis voando para todos os lados. Mesmo com irreais 90% de taxa de acerto (e nenhum chegou nem perto disso), a Destruição Mútua Assegurada (MAD, em inglês) estava garantida.

Com o fim da União Soviética, os americanos passaram a se preocupar com agentes isolados, como Irã e Coreia do Norte, países com (ou pretensão a) acesso a armas nucleares, e doidos o bastante para lançar um ataque em pequena escala contra os EUA ou seus aliados.

THAAD interceptando um míssil iraniano na alta atmosfera

Sistemas de defesa como o THAAD (Terminal High Altitude Area Defense) foram desenvolvidos para proteger regiões estratégicas desses ataques. Os players menores, e aí a Rússia pós-União Soviética passa a fazer parte do grupo, entenderam que não têm como montar um arsenal estilo Guerra Fria; sairia caro demais e, bem, ninguém deixaria.

Entram os Mísseis Hipersônicos

Apesar de toda sua velocidade, os mísseis balísticos seguem trajetórias... balísticas, guiados apenas pela gravidade. Alguns possuem capacidade de manobra bem limitada, geralmente na fase terminal, para atingir o alvo com mais precisão.

Isso torna o trabalho de interceptá-los muito mais engenharia do que matemática. As contas em si são “simples”; o caro é construir os mísseis com precisão suficiente para que os números calculados pelos computadores sejam respeitados pelos sistemas mecânicos. Um motor que desligue um segundo além do esperado pode colocar um veículo a centenas de km da posição desejada.

Um míssil hipersônico, na verdade, significa um míssil com manobrabilidade em velocidade hipersônica, e, durante a Guerra Fria, mesmo ogivas com capacidade de manobra mínima já causavam problemas, quando os computadores feitos com barro fofo e pedra lascada levavam vários segundos para calcular uma trajetória de interceptação.

Nos tempos modernos, o povo começou a desenvolver veículos de reentrada muito mais ágeis, mesmo tendo que enfrentar problemas como o calor, difícil para uma ogiva convencional, mas quase impossível para uma que tenha que manobrar sem perder o controle e ser pulverizada por uma parede de ar dura como aço.

O objetivo era um veículo de reentrada que, ao atingir altitude e velocidade suborbital, ao invés de seguir um arco balístico, transforma altitude em velocidade, seguindo uma trajetória paralela ao solo, movendo-se na vertical e na horizontal, confundindo qualquer interceptador.

Sua altitude, bem mais baixa que a de um míssil balístico, também torna a detecção por radar mais ineficiente, para tristeza dos terraplanistas.

Quem tem mísseis hipersônicos hoje em dia?

Excelente pergunta, Padawan. Rússia e China têm programas avançados, com mísseis operacionais e em desenvolvimento.

Na Ucrânia a Rússia está usando vários modelos, alguns mais hipersônicos do que outros. O Kinzhal um dos mais simples, é lançado de aviões e segue uma trajetória balística inicial, usando motores para acelerar na fase final, o que dificulta sua interceptação. Somente 37% são abatidos pelas baterias Patriot ucranianas.

A imagem mostra um modelo 3D de uma aeronave militar, especificamente um ZIRCON 3M22. A aeronave é mostrada em três ângulos diferentes, com o corpo principal da aeronave voltado para o lado esquerdo da imagem. O corpo principal é longo e cilíndrico, com nariz pontudo e cauda pontuda. A cauda é alongada e possui uma ponta pontiaguda na extremidade.O motor é mostrado no canto superior esquerdo da carroceria, que é o foco principal do modelo. É um Scramjet que depende de fluxo de ar supersônico. O motor tem um diâmetro de 60 cm (24 pol.) E um comprimento de 9 m (30 pés). No canto inferior direito, há um tipo de ogiva, que parece ser uma possível arma nuclear convencional. A ogiva é mostrada como uma forma triangular com duas hélices na parte inferior. O fundo é branco e há texto na imagem que diz “Fonte: GlobalSecurity.org”.

Um Zircon russo (Crédito: GlobalSecurity)

O 3M22 é um míssil hipersônico de cruzeiro primariamente antinavio, com velocidade entre Mach 8 e Mach 9, e alcance de até 1 mil km, usando uma trajetória semibalística. Alguns foram usados contra a Ucrânia e, embora sejam vendidos como indefensáveis, na fase terminal ele desacelera para Mach 4 ou 5, tornando viável sua interceptação por sistemas como o Patriot.

O mais sinistro dos mísseis hipersônicos russos é talvez o mais convencional, o Oreshnik, um IRBM (Míssil Balístico de Alcance Intermediário), podendo atingir alvos a até 6 mil km de distância, com velocidade terminal de Mach 10.

Isso impossibilita sistemas de guiagem, então a precisão dele não é muito boa, o que não é problema quando carrega ogivas termonucleares, mas em seu uso com explosivos convencionais, acaba prejudicando.

Ele é um míssil MIRV, com 6 ogivas independentes, que podem levar submunições. Projetado para uma velocidade terminal muito alta, ele só é vulnerável nas fases de lançamento e intermediária, em fase final de vôo nem mesmo Patriots ou THAADs conseguem lidar com o Oreshnik.

Um míssil hipersônico Oreshnik, cada uma das 6 ogivas MIRV se divide em submunições 

E o Irã, tem ou não Mísseis Hipersônicos?

Marromeno. Eles têm o Fattah-1, um míssil com um segundo estágio com capacidade de manobra exo e intraatmosférica. O veículo de reentrada tem um motor de combustível sólido e superfícies de controle, e velocidade terminal em torno de Mach 10+, embora o Irã diga que atinge Mach 15.

A capacidade de manobra do veículo de reentrada, embora limitada, causa bastantes problemas para os interceptadores; felizmente, o Irã tem poucos desses.

Já o Kheibar Shekan é um míssil que vem sido usado bastante, dentro do possível. É um míssil balístico convencional, com um veículo de reentrada maior, com velocidade de Mach 8+, que cai para Mach 2 ou 3 na fase final, mas como tem capacidade de manobra, é outro que é bem chato de ser interceptado.

A imagem mostra um desfile militar com um grande caminhão carregando um grande míssil. O caminhão é decorado com um padrão camuflado e tem um banner na lateral que diz "Jammu e Caxemira". O míssil é amarelo e vermelho e está montado no topo do caminhão. O desfile acontece em uma rua com linhas de energia e árvores ao fundo.Em primeiro plano, há um grande grupo de soldados vestindo uniformes verdes e chapéus verdes, marchando em formação. Eles seguram faixas e bandeiras, e alguns deles seguram instrumentos musicais. O céu está azul e o tempo parece ensolarado e claro.

Míssil balístico Kheibar Shekan, o segredo aqui está na pontinha (Crédito: Wikimedia Commons / M. Sadegh Nikgostar)

Qualquer um desses mísseis pode ser usado para lançar armas químicas, biológicas ou mesmo nucleares, no caso uma “bomba suja”, que o Irã tem capacidade de produzir.

A defesa contra esses mísseis ainda é muito deficiente, uma lição da Ucrânia que os burocratas da guerra ainda não entenderam. Ataques de mísseis precisam de múltiplos sistemas redundantes, focados em fases diferentes do voo, e somente com vários interceptadores para cada míssil, é possível uma taxa de acerto aceitável, próxima de 100%.

Isso custa muito dinheiro.

E os EUA?

É curioso perceber que os EUA estão atrasados no desenvolvimento de mísseis hipersônicos, por acharem que não precisavam deles; a mentalidade da Guerra Fria ainda reinava. Com os russos ou chineses seria tudo ou nada; ninguém iria querer partir para a Destruição Mútua Assegurada, e os players regionais não se meteriam com os EUA pelo medo de serem aniquilados.

Grupos menores não teriam acesso a essas armas, então não vale o esforço desenvolver tecnologias semelhantes.

Só que o mundo mudou, hoje os terroristas Houthi do Iémen lançam mísseis contra Israel, a milhares de km de distância. Rússia aterroriza a Ucrânia com mísseis de todos os tipos, incluindo hipersônicos, e a perspectiva é que logo surjam mísseis mais rápidos e baratos, aumentando a dificuldade de interceptação.

A boa e velha corrida armamentista está de vento em popa, com gente de todos os lados criando armas e contramedidas, explorando esse novo e desafiador campo de batalha. Qual vencerá? Quem viver, verá.

Você não, Aiatolá Khamenei.

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