Carlos Cardoso 19 semanas atrás
StarLink é a tecnologia do momento, mas para entendermos como ela foi anulada, como funciona guerra eletrônica, jammers, contramedidas, precisamos voltar no tempo, lá para os idos do Século XIX.

Radar Jamming de raiz (Crédito: MGM)
O rádio era uma tecnologia absolutamente de ponta, altamente experimental, e encabeçando tudo estava Guglielmo Marconi, cientista e engenheiro italiano formalmente conhecido como o criador do rádio, por ter montado o primeiro circuito prático de transmissão e recepção.
Em 1899 ele foi convidado pelo New York Herald para usar sua tecnologia na America’s Cup, uma das mais tradicionais competições de iatismo do mundo. O jornal queria colocar um transmissor em um barco acompanhando a corrida em alto mar, que através de código Morse repassaria as posições dos competidores e outras notícias, de minuto a minuto.
O experimento foi um sucesso, e nos anos seguintes empresas concorrentes instalaram sistemas semelhantes. Em 1901, durante as finais da competição, algo inédito aconteceu: quando os operadores da Marconi tentaram transmitir as mensagens, um sinal forte se sobrepôs às ondas deles, ruído intenso e sinais espúrios impediam que qualquer mensagem fosse enviada.
O culpado foi um sujeito chamado John Pickard, operador telegrafista de uma empresa concorrente, que teve a ideia de interferir no sinal usado pela empresa de Marconi.
Ilegal não era, as freqeências de rádio ainda não estavam reguladas pelo governo. O espectro eletromagnético ainda era terra de ninguém.

Marconi demonstrando esse tal de "rádio" (Crédito: Domínio Público)
O caso chamou a atenção dos militares, incluindo os ingleses, que dois anos depois fizeram experimentos de interferência eletrônica.
O primeiro uso em combate quase aconteceu em 1904, durante a Guerra Russo-Japonesa, quando os russos deram a volta ao mundo para tomar uma piaba federal. Era o cerco de Port Artur, na China. Um destróier japonês estava usando sinais de rádio para refinar as coordenadas de alvo para os encouraçados. O cruzador auxiliar Ural, da Marinha Russa detectou a transmissão e pediu autorização para interferir nos sinais. Com medo do seu próprio sinal alardear sua posição, o covarde Almirante Rozhestvensky negou autorização.
A Primeira Guerra Mundial foi relativamente leve em termos de interferência eletrônica, os rádios de combate mal funcionavam, havia pouco em que interferir, mas 20 anos depois a coisa mudou de figura.
A Segunda Guerra foi palco de inovação furiosa, com sistemas de criptografia, radares, rádio de comunicação, sistemas de navegação, rádio-altímetros, tudo que alguém pudesse imaginar, era prototipado, testado e avaliado.
Os ingleses perceberam que os bombardeios alemães estavam ficando mais precisos. Um avião de reconhecimento eletrônico voando sobre território inimigo detectou um sinal de rádio apontado na direção de uma fábrica da Rolls Royce. Depois acharam outro transmissor apontando na mesma direção.
Era o sistema Knickebein, primitivo mas eficaz. Acompanhando a intensidade dos dois feixes de rádio, o bombardeiro alemão identificaria o ponto de maior intensidade, quando os feixes se cruzavam, em cima do alvo. E aí, bombs away, ou o equivalente em alemão.
O que restou de uma das antenas do sistema Knickebein.
Os ingleses começaram interferindo nos sinais com ruído, os alemães alteraram as frequências. Mais tarde os ingleses aprenderam a reproduzir os sinais dos transmissores alemães, emitiam sinais mais fortes mascarados como os inimigos, e redirecionavam os bombardeiros para áreas descampadas.
Vários sistemas de radionavegação foram desenvolvidos pelos nazistas, mas os aliados ficaram tão bons em desenvolver contramedidas, que por volta de 1940 os alemães desistiram da tecnologia.
Em campo, sistemas de interferência eram usados para tentar limitar as comunicações do inimigo. Muitas vezes esses sistemas eram combatidos com o uso de linhas terrestres de telefonia, e até os bons e velhos mensageiros.
No cenário mais estratégico, nem sempre era interessante interferir nos sinais. Os aliados se beneficiaram muito em deixar as linhas de comunicação limpas, para que os nazistas transmitissem suas mensagens via ENIGMA em paz, apenas para serem devidamente decodificadas pelos matemáticos em Bletchley Park.
No ar, uma física britânica de nome Joan Curran descobriu que simples folhas de papel-alumínio eram suficientes para confundir o radar inimigo. Com codinome “Window”, mais conhecido como Chaff, esse tipo de contramedida é usado até hoje.
Nos grandes ataques noturnos com bombardeiros, caças Mosquito equipados com embaralhadores de radar acompanhavam as formações, para confundir os caças noturnos alemães, que dependiam do equipamento para achar as formações inimigas.
O pós-guerra tornou a Guerra Eletrônica um campo essencial do combate moderno. Não só as comunicações, mas as próprias armas dependiam de sinais eletrônicos, que poderiam e deveriam ser interceptados.
Caças com radares de tiro, mísseis passivos (ui!) guiados por radar de terra ou do avião lançador, tudo isso era estudado, analisado, combatido e aprimorado em resposta.
Uma das melhores contra-medidas usadas para combater radares inimigos foram os mísseis AGM-45 Shrike e, depois, o AGM-88 HARM.

Míssil AGM-88 HARM (Crédito: USAF)
Ambos utilizam o princípio de guiagem através do sinal de radar inimigo. Os mísseis detectam o transmissor de radar, e miram nele. O inimigo tem duas opções: Desligar o radar ou ser morto.
As versões modernas do HARM possuem diversos recursos, incluindo um sistema de navegação inercial que memoriza a localização do transmissor do radar inimigo, então mesmo que desliguem tudo, será tarde demais.
No combate ar-ar, bombardeiros passaram a levar sistemas de contramedidas para embaralhar os radares inimigos, já os mísseis ganharam um modo chamado “lock on jam”, que ao invés de usar o próprio radar, usa o transmissor inimigo como guia.
Sistemas de detecção instalados em caças conseguem identificar radares inimigos com base em suas assinaturas de rádio, com isso plotam gráficos indicando alcance teórico e letalidade de cada sistema. Ao contrário do que os filmes mostram, mísseis não são facilmente rastreáveis.
Na guerra naval moderna temos um paradoxo; submarinos carregam sistemas de sonar ativos (ui!) que custaram bilhões de dólares em desenvolvimento, mas que nunca são usados. O objetivo é ouvir sem ser ouvido, ver sem ser visto, então usam sonares passivos a maior parte do tempo. Quando atingem profundidade de periscópio, raramente usam radares, mas um mastro de guerra eletrônica, que capta sinais emitidos por embarcações e navios inimigos. As comunicações são feitas via sinais direcionais comprimidos, ou mesmo links laser apontados para satélites.
Nos navios de superfície é comum trabalharem em regime EMCON, controle de emissões, sem transmissões desnecessárias.
No espaço, satélites espionam e analisam transmissões o tempo todo, seja de rádio em freqüências militares, transmissões automáticas de telemetria, e até mesmo sinais de telefonia celular.
Alguns anos atrás satélites comerciais com radar sem-querer descobriram ter capacidade de rastrear baterias de mísseis Patriot.
O Boeing EA-18G Growler é hoje “a” plataforma de guerra eletrônica, e pode fazer basicamente de tudo, de identificar e categorizar locais de lançamento de mísseis, a identificar um telefone celular em específico em meio a uma multidão, ou voar em formação com outros Growlers e convencer um radar inimigo que uma esquadrilha inteira está voando em sua direção.

Boeing EA-18G Growler (Crédito: US Navy)
O Growler trabalhou bastante nos últimos tempos, nos ataques americanos no Irã, e Venezuela, quando identificaram e desabilitaram mísseis terra-ar inimigos, instalações de radar e postos de comando, além de embaralhar a comunicação civil nas regiões próximas.
Em 23/2/2022 a Rússia atacou o sistema de satélites de comunicação VIASAT, afetando profundamente a capacidade ucraniana de manter comunicações no teatro de combate. Foi um ataque hacker ousado e bem-sucedido, em parte pelo fato da VIASAT utilizar satélites geoestacionários discretos.
Um oficial do governo ucraniano pediu ajuda e foi prontamente atendido; centenas, depois milhares de terminais StarLink foram enviados para o país, o que mais tarde se tornou oficial como o programa Starshield, da SpaceX, que hoje utiliza terminais Starlink até em drones.
Os russos tentaram contra-atacar, primeiro rastreando os terminais e bombardeando, mas a tecnologia phased array da StarLink permitiu um truque: um buraco no chão bloqueia o sinal em quase todas as direções, menos para cima, e o terminal consegue emitir um feixe restrito, quase indetectável.
Starlink se tornou uma pedra no sapato de Putin, a ponto dos russos desistirem de tentar interferir, e comprarem terminais via atravessadores, habilitarem com usuários-laranja, e instalarem para seus próprios soldados e até em drones. E em... cavalos.
As manifestações por liberdade em mais de 200 cidades do Irã, no começo de 2026 resultaram em incontáveis atos de repressão e violência, com dezenas de milhares de mortos. O governo de Teerã bloqueou todo o acesso externo à internet. Em resposta a SpaceX liberou acesso à StarLink para qualquer terminal em território iraniano, todos contrabandeados, claro.
Vídeos começaram a aparecer, posts relatando as atrocidades dos apoiadores do aiatolá, mas subitamente eles diminuíram, quase cessaram. O Irã se gabou de ter conseguido banido a StarLink, coisa que nem a Rússia havia feito.
O Irã posicionou jammers, equipamentos de interferência eletrônica em suas principais cidades, cobrindo as áreas mais comumente ocupadas por manifestantes. A polícia secreta apreendeu muitas antenas, inclusive cargas com algumas centenas que iriam ser distribuídas.
A solução seria viajar para fora da cidade, carregando o terminal StarLink, o que é perigoso, fatalmente seria barrado em alguma blitz. As pessoas preferiram não arriscar a vida.
Quanto ao jammer em si, nada de espantoso. Ninguém nunca disse que StarLink era à prova de interferência. Ao posicionar seus transmissores no meio das cidades, o Irã tem uma vantagem estratégia total; está combatendo antenas estáticas tendo total controle do território.
A Rússia poderia fazer o mesmo, se tivesse controle territorial ou aéreo da Ucrânia, mas aí meio que já teria vencido a guerra.
Para a StarLink, existem meios de contornar a interferência, através de frequency hopping e outras técnicas, mas isso demanda atualizar o firmware, coisa que só pode ser feita quando o Irã desligar os equipamentos, ou os iranianos começarem a procurar zonas sem interferência.
Isso já está acontecendo, mais vídeos estão surgindo, a maioria odiosos e horrendos demais para postar aqui. No final, é a batalha silenciosa, engenheiros versus engenheiros, que Winston Churchill chamou de Guerra dos Magos.
É possível bloquear a StarLink? Sim, mas somente em condições específicas. Infelizmente para o povo do Irã, o aiatolá tinha essas condições, mas mesmo a curto prazo, é um bloqueio ineficiente que já começou a vazar. Vivemos na Era da Informação, e para o bem ou para o mal, não dá mais para colocar esse gênio de volta na garrafa.