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SpaceX anuncia versão marítima da Starlink

Starlink, o serviço de internet via satélite da SpaceX anunciou uma versão para navios, plataformas de petróleo, cruzeiros e iates

08/07/2022 às 1:18

Starlink é a subsidiária da SpaceX que está vendendo acesso Internet via satélite, com o explícito objetivo de pagar pensão dos filhos do Musk financiar a colonização de Marte.

Navegar (na Internet) é preciso, viver não é preciso. (Crédito: SpaceX)

Nos grupos do Reddit a Starlink tem mais fãs ardorosos do que soro antiofídico, Viagra ou assentos ejetores, e essa defesa quase raivosa vem do fato do produto atender um público extremamente carente de serviços, que por anos esteve à mercê de operadoras gananciosas, pagando muito caro e recebendo quase nada.

Em essência, Starlink se propõe a levar internet de banda larga para pessoas morando fora dos grandes centros, em regiões remotas, com pouca ou nenhuma opção. E não só em países obscuros isso acontece. Mesmo nos Estados Unidos, se você for para o interior as opções de conectividade desaparecem rapidamente, e quando o sujeito mora numa cabana em Iowa ou Dakota do Norte, sem eletricidade ou telefone, sem celular que seja, a única opção é satélite.

Só que internet via satélite até hoje era uma desgraça de ruim. Como a banda dos satélites era limitada, as operadoras cobravam muito caro e forneciam pacotes mínimos, com alguns gigabytes de franquia, com velocidade entre 4 e 5 Mbps, e no fim da franquia a velocidade caía para velocidade de linha discada.

Starlink está sendo essencial na Ucrânia. (Crédito: Reprodução Internet)

Fora o ping. A latência na internet via satélite é horrenda. O melhor caso possível, o sinal saindo da antena, atingindo o satélite a 35785 km de altitude e voltando, com zero tempo de processamento tem um “tempo de vôo” de 238.7ms.

Isso torna conversas via Skype incômodas, e inviabiliza jogos online.

O Starlink resolve isso com milhares de satélites em órbita baixa, por enquanto ocupando a altitude de 550 km, o que dá pings de menos de 40ms

Até então a Starlink só vendia os kits de antenas para instalação doméstica, mas logo recebeu licença para uso veicular, e lançou a versão para trailers, que também vale para caminhões, mas isso é apenas o começo. A versão Business vem com garantias de velocidade e uma versão mais parruda do hardware, e está sendo uma bênção para empresas com projetos no interior do Alasca e outras áreas remotas.

♫Vou construir minha casinha / Lá no alto do cerrado / Mas eu só levo a Rosinha / Depois de tudo arrumado♫ (crédito: SpaceX)

A SpaceX também anunciou que o Starlink assinou com seu primeiro cliente para implantação de Starlink em aviões, a JSX, que vai instalar o sistema em seus jatos Embraer ERJ twinjet. Quem já usou internet em avião sabe a caca que é, e Starlink é muito bem-vinda.

Agora a Starlink anunciou um pacote ambicioso: A versão marítima, mas não é uma versão usuário final, não é pro véio da lancha fazer streaming das influencers no fim de semana em Angra. A versão marítima é para gente grande.

O kit vem com duas antenas, reforçadas para resistirem ao ambiente marinho, e até 350Mbps de download. O preço assustou muita gente que não conhece os custos normais desse tipo de serviço: US$10 mil pelo kit de hardware, e US$5 mil de assinatura mensal.

No site oficial, a Starlink é explícita: “Marinha mercante, plataformas de petróleo e iates premium”. Essa gente paga muito, muito caro para ter Internet em alto mar. Como comparação, o serviço da Immarsat: O custo do terminal fica entre US$40k e US$50k, e a assinatura mensal para velocidade de 3Mbps de US$ 2400, com fidelização de 12 meses e limite de dados trafegados.

Starlink Marítima em uso (Crédito: SpaceX)

5 mil dólares pode ser muito pra gente, mas pra uma empresa de petróleo ou um sujeito com um iate de 200 metros, é troco de pinga. Empresas de seguro vão se oferecer para pagar para instalar Starlink em navios. Existem firmas especializadas em transportar iates entre a Europa e o Caribe, você acha que algum dono vai recusar a oferta de pôr mais US$1000 na tarifa, poder ter acesso a um streaming de seu precioso barquinho durante a viagem?

Isso também vale para plataformas de petróleo, que terão uma imensa redução de custo e um grande aumento na capacidade de transmissão de dados em tempo real. E ainda há o mercado de navios de cruzeiro e ferry boats, que provavelmente instalarão vários sistemas, para conseguir banda suficiente para atender milhares de hóspedes pagantes.

Já há até um estudo de caso (cuidado, PDF) mostrando as vantagens da Starlink Marítima. O cliente é... a SpaceX.

A empresa tem uma frota de 10 barcos, usados para recuperação dos boosters, a cada lançamento do Falcon 9 (quando não pousam em terra). Esses barcos estão transmitindo continuamente dados para terra, e isso vai muito além de vídeo. Cada Falcon 9 tem milhares de canais de telemetria, que são recebidos, buferizados e transmitidos para o Controle da Missão.

Isso significa terabytes de dados (incluindo as várias câmeras, as que a gente vê e as que só eles acessam). A SpaceX usava os serviços da ViaSat, de internet via satélites geoestacionários, com uma latência imensa, baixa confiabilidade e velocidade limitada, mesmo pagando um premium para conseguir 25Mbps de up/download.

O custo disso era um dos mais altos custos fixos da frota, US$165 mil por mês. Ou mais, pois como o pacote tinha limite de transferência, em muitos casos era cobrado um extra.

Agora com o Starlink eles conseguiram 5900% de aumento no throughput no download, 700% no upload, latência caiu 95%.

O custo? Oficialmente uma redução de 70%, caindo para US$50 mil, mas é dinheiro tirado de um bolso e colocado no outro, a não ser que a SpaceX esteja declarando isso como despesa pra descontar imposto.

Os marinheiros também se beneficiaram, agora eles podem se comunicar com as famílias via videochamadas, assistir filmes em streaming e até jogar online, nos horários de folga.

Por enquanto a Starlink Marítima só funciona em áreas costeiras. No modelo atual cada satélite precisa se comunicar com uma estação terrestre, então o usuário não pode estar a mais de 800 km de uma dessas estações.

Cobertura atual da Starlink Marítima (Crédito: SpaceX, com uma mãozinha minha)

Até o final do ano a Starlink ativará a tecnologia de links laser, os satélites falarão uns com os outros diretamente, então não será mais necessária a estação-base próxima. No mapa disponibilizado, atualmente a Starlink oferece acesso nas costas dos EUA, Europa, sul e sudeste do Brasil. Chile, quase toda Austrália e a Nova Zelândia, acredite se puder.

No último trimestre de 2022, a cobertura se estenderá para todo o Atlântico Norte, Mar do Japão, Atlântico Sul, Índico e Pacífico, em uma faixa determinada pela órbita dos satélites.

No começo de 2023 novos lançamentos irão cobrir as lacunas nas órbitas, dando acesso a todo o mundo do norte da Escócia pra cima, e na faixa central, entre o México e Rio Grande do Sul.

Idealmente também em 2023 a SpaceX já estará lançando a versão 2.0 dos satélites Starlink, com muito mais capacidade e recursos, mas para isso ela precisa da Starship, que se tudo der certo fará seu primeiro vôo orbital em agosto de 2022.

Isso tudo renderá muito dinheiro pra SpaceX, mas nem chega perto da fortuna que vão fazer quando começarem a vender Starlink Marítima para... a Marinha dos Estados Unidos.

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