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Err... não contem pra ninguém mas satélites de radar comerciais estão sendo usados pra rastrear mísseis Patriot

Essa pegou muita gente de surpresa. Um sujeito descobriu que com dados públicos de imagens de radar feitas por satélites ele consegue identificar a localização exata de baterias de mísseis Patriot em todo o mundo.

35 semanas atrás

Com uma máquina do tempo e mais um pequeno objeto seria possível alterar o resultado de mais de 90% das batalhas da História, da Primeira Guerra Mundial para trás. Esse objeto não é uma arma, é algo bem mais perigoso: Um drone tipo aqueles da DJI que a gente compra em qualquer lojinha.

Guerra não se ganha com armas. Guerra se vence com estratégia (do grego strategos...), estratégia precisa de inteligência e inteligência precisa de informação. Por milênios as forças combatentes dependiam de unidades de reconhecimento, que podiam ser avistadas alertando o inimigo ou ser mortas ou não encontrar oposição e reportar informação errada, ou apenas demorar demais.

Com um simples droninho seria possível uma visão do campo de batalha que nenhum general da antiguidade sonhou. Algo próximo disso só foi acontecer na Guerra Civil Americana e na mesma época na Guerra do Paraguay, quando as tropas brasileiras usaram balões de Hidrogênio para observar as formações inimigas.

Esse desejo pela informação levou à criação de aviões de reconhecimento na Primeira Guerra Mundial que jogavam garrafas com mensagens, e só mais tarde usavam rádio para informar seus comandos das posições inimigas. De lá pra cá a tecnologia avançou quase literalmente a jato: A diferença entre um Farman MF.11 Shorthorn de 1914 e um SR-71 Blackbird é de 50 anos. Menos de uma vida.

Depois dos aviões vieram os satélites, em paralelo os drones. Hoje os combates são acompanhados em tempo real, e todo mundo tem drones. Não é mais possível obter surpresa estratégica, e isso vale pra todo mundo, até o crime organizado no Rio usa drones para monitorar seu território.

Essa "democratização" do acesso à informação é preocupante para os militares, na Guerra Civil na Síria uma das armas mais usadas pelos rebeldes era um iPad com Google Earth, mais que suficiente para identificar e mirar em alvos como prédios inimigos, que não tendem a se mover muito.

Hoje temos provedores comerciais de imagens de satélite com qualidade maior do que tudo que se tinha durante a Guerra Fria, e muito desse material é distribuído gratuitamente. O que ninguém contava é que alguém fosse extremamente criativo com essas informações, como foi Harel Dan.

Tudo começou com estes bichos aqui, uma dupla de dois tiras satélites do programa Sentinel-1, da Agência Espacial Européia.

OK só tem um na imagem mas é assim mesmo, os dois satélites são iguais, olhe duas vezes.

Os dois estão em uma órbita polar, separados 180 graus um do outro. Em condições ideais passam pelo mesmo ponto a cada 1,5 dias, cobrindo o planeta inteiro em 6 dias. Eles usam um radar de abertura sintética para ignorar a cobertura de nuvens e conseguir imagens da superfície, como este goldemberg gigante com mais de 100Km de comprimento que se desprendeu da Antártica em Agosto de 2018.

Acessar esses dados pode ser tão simples quanto usar o site oficial do Sentinel-1, ou se quiser pode usar uma das várias APIs para isso.

As imagens dependendo de como você escolha, podem vir processadas ou RAW, as imagens sem processamento trazem todo tipo de artefatos e interferências, em geral usa-se várias passagens do satélite para combinar as imagens e obter um resultado limpo. Aqui uma imagem sem correção da Baía de Guanabara:

Reparou naquele ponto mais brilhante entre o Gragoatá e o Santos Dumont, mais pra perto de Niterói? É provavelmente um navio militar, aquela "luz" toda é radiação eletromagnética na frequência de radar usada pelo Sentinel. Só que não é só radar da Marinha Brasileira que usa essa frequência.

Experimentando com filtros de limpeza de imagem, Harel colocou os valores no máximo, separando as polarizações verticais e horizontais, que geram padrões distintos quando a fonte emissora está alinhada com o satélite.

Curioso que as interferências nas duas polarizações se cruzam em um ponto, que indica a origem do sinal, que pode ser um monte de coisas, na faixa de 5.405 Ghz usada pelo Sentinel-1.

Nosso amigo resolveu usar uma imagem do Google Earth para identificar o ponto de origem do sinal e... bingo!

Uma bateria de mísseis Patriot no Qatar.

Ele criou um script para automatizar a identificação dos padrões de interferência e acabou com um monte de X marcando o local de possíveis unidades de radar AN/MPQ-53/65, usadas pelos Patriot.

Esse tipo de informação seria valiosíssima a um inimigo em tempos de guerra, tanto que ele removeu do post onde detalha a descoberta a localização de baterias Patriot em Israel, mas mostrou exemplo de sinais encontrados em White Sands, Kwait e Jordânia.

Harel achou até a localização de várias estações de radar STRIL 90 na costa da Suécia, usadas para identificar um eventual ataque soviético e coordenar a defesa aérea:

Ou seja: Um par de satélites produz informações capazes de identificar todas as baterias de mísseis Patriot do mundo, e provavelmente os lançadores russos S-300 e S-400 também. Essas informações estão públicas, pra quem se interessar e tenha um mínimo de conhecimento de programação.

A única forma de camuflar uma unidade de radar é mantendo-a desligada, o que estrategicamente tem o mesmo efeito de destruir a tal unidade. Portanto não tem jeito, agora os Patriots estão às claras, e mudar as unidades de lugar dá um belo trabalho, fora que nesse meio-tempo elas não ficam operacionais.

Não duvido que em breve baterias Patriot na Arábia Saudita sejam alvejadas por mísseis iranianos usados pelo Yemen, naquela guerrinha suja deles lá. Quanto a Israel, o pessoal do Hezbollah é bem safo, então sugiro que aumentem a proteção em torno de seus mísseis, talvez construindo uma cerca de bacon, sei lá.

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