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Como a Inglaterra ensinou à Argentina que longe é um lugar que não existe

33 anos atrás os argentinos descobriram da pior maneira que não eram invulneráveis, que querer não era poder e que brigar com quem sabe se defender de forma alguma era tão fácil quanto bater em estudantes. Leia e conheça o ataque impossível que os ingleses lançaram contra as Falklands.

5 anos atrás

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Nos Anos 80 a Argentina vivia sob um regime militar daqueles bem caricatos, com direito a uma profunda crise econômica. A saída mais fácil, apelar para o sentimento nacionalista. Funcionou para a Alemanha, que revitalizou a economia, gerou orgulho nacional, investiu em educação e saúde, com campanhas nacionais promovendo exercícios e vida saudável. A Alemanha inclusive foi o primeiro país a fazer uma pesquisa de grande escala e associar cigarro com câncer.

A Argentina, claro, carecia de líderes com visão, e embora tivesse um monte de consultores germânicos, colocou os pés pelas mãos e decidiu apenas invadir as Ilhas Falklands.

O plano teria dado certo, se não fossem aqueles garotos intrometidos, o cachorro idiota e a Inglaterra estar em pleno Governo Thatcher, a Dama de Ferro. Quando os EUA invadiram a ilha de Granada, em 1983 esqueceram que ela fazia parte do Protetorado Britânico. Ronald Reagan ligou para a primeira-ministra e pediu desculpas.

Ignorando esses detalhes a idéia argentina era simples. As tais ilhas ficam no fiofó do mundo. Em linha reta (ok, curva) são 12.648 km de Londres. Da Argentina até elas são “só” 500 km de mar. Historicamente as ilhas foram francesas, espanholas e inglesas, mas a maior parte do tempo permaneceram inabitadas. Sendo realista não há NADA lá, a economia das ilhas é basicamente lã e peixe. Mesmo a promessa de petróleo AINDA é promessa, e com a OPEP jogando o preço pra baixo, nada será explorado comercialmente.

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Seria uma aventura simples: meia-dúzia de soldados hermanos, fincam a bandeira, os habitantes continuam com suas vidas. Vitória Argentina. Só que Thatcher viu o ataque como uma chance de lembrar que eles já foram o Império Britãnico, onde o Sol nunca se punha, e aqueles cucarachos simpatizantes de nazistas não poderiam se sair bem nessa.

Foi montada uma Força-Tarefa para retomar as ilhas, mas enquanto isso era preciso amaciar os argentinos, diminuir seu poder aéreo, do contrário os navios britânicos seriam recebidos a tiro, bem antes de ver terra.

Problema: a base britânica mais próxima das Falkland é na Ilha de Ascensão, no meio do atlântico, a 6.300 km de distância do alvo.

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Tecnicamente o Brasil poderia oferecer a Base Aérea de Canoas, mas precisávamos manter as aparências e fingir que não gostávamos de ver a Argentina tomar paulada. Com isso os ingleses tinham um problema insolúvel: nenhum avião conseguiria ir e voltar, muito menos levando uma carga de bombas decente. Eles não tinham bombardeiros de longa distância como o B-52. Toda a estratégia britânica era para uma guerra na Europa, onde tudo fica na esquina.

Os argentinos confiaram nisso, mas esqueceram que os britânicos, esquisitos como são, são gênios da improvisação, seja transportando cerveja em Spitfires, seja construindo um planador para fugir de uma prisão nazista.

O pessoal da estratégia sentou a bunda, começou a fazer contas e bolou um plano onde, teoricamente seria possível fazer com que um bombardeiro chegasse até as ilhas, atacasse e voltasse inteiro. Só que havia um problema: o único avião capaz era o Avro Vulcan, projetado no final dos anos 1940, pra lá de obsoleto e a 3 meses de se aposentar. Quem assiste filmes policiais sabe que isso é um péssimo agouro.

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3 Vulcans precisavam ser colocados em condições de combate. Nenhum deles tinha sequer o hardware para reabastecimento aéreo. A última vez que um Vulcan havia efetuado a manobra foi mais de 20 anos antes. Ferros-velhos e museus foram revirados atrás de peças para remontar as sondas de reabastecimento. Um dos componentes essenciais foi achado no clube dos oficiais de uma base, estava sendo usado como cinzeiro.

Os tripulantes tinham que reaprender a reabastecer e  treinar bombardeio de precisão. As equipes de terra tinham que catar pods de contramedidas eletrônicas Dash 10 usados em caças Bucanner, adaptar e integrar aos sistemas do Vulcan. Sistemas de navegação do Vickers VC10 foram devidamente “roubados” e instalados nos Vulcans.

Ah sim, eles tiveram 3 semanas para fazer isso. Essa foi a parte fácil.

Agora era sentar a bunda e ver se era realmente viável despejar 9,5 toneladas de pura diplomacia britânica na cabeça dos argentinos em Port Stanley. Spoiler: era, e estava criada a Operação Black Buck, como você pode deduzir deste simples diagrama:

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O segredo da operação era o Handley Page Victor, um bombardeiro convertido em avião-tanque, com alcance máximo teórico de 9.800 km.

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A operação, um pesadelo logístico utilizou 2 Vulcans (1 era reserva) e 12 Victors (um deu defeito e foi substituído por um reserva). Deveria funcionar assim:

11 Victors e 1 Vulcan voariam em direção ao Atlântico Sul.

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Em um certo ponto iniciariam a primeira manobra de reabastecimento. Cinco Victors reabasteceriam outros cinco Victors, o 6º Victor reabasteceria o Vulcan.

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Os seis Victors voltariam para a base, com os 5 aviões prosseguindo até o próximo ponto de reabastecimento.

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Neste ponto dois Victors reabasteceriam outros dois Victors, o 5º reabasteceria o Vulcan e retornariam à base. No próximo reabastecimento um dos Victors remanescentes abasteceria o outro.

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Já chegando o último Victor reabasteceria o Vulcan pela última vez e voltaria, com combustível apenas suficiente para chegar em casa. Com sorte.

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Na volta, bem mais leve, o Vulcan encontraria um Victor no meio do Atlântico, faria um único reabastecimento e teria autonomia para pousar em Ascensão. Infelizmente nenhum planejamento de guerra resiste aos primeiros minutos de combate.

Com esse grupo no ar, em silêncio de rádio, seguiram para o Atlântico Sul, e como em guerra quem manda é Murphy, um dos Vulcans começa a apresentar problemas de pressurização. Isso só havia acontecido antes uma vez, nove anos atrás.

O navegador do Vulcan descobriu que a RAF não tinha mapas para o Atlântico Sul. Eles tinham as coordenadas das Falklands, da pista de pouso em Port Stanley, mas nenhum mapa para plotar o curso. A saída foi pegar um mapa do Hemisfério Norte, virar de cabeça pra baixo, fingir que os Açores eram as Falklands e trabalhar assim.

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O Vulcan era Estado da Arte. Arte Medieval.

O Vulcan estava longe de ser um avião moderno, mesmo em 1982. Seu computador de tiro era eletromecânico, com alavancas, polias e correias. Não havia sequer banheiro, tiveram que instalar um toilete químico para os cinco tripulantes.

Voando em silêncio de rádio, eles dependiam das coordenadas pré-combinadas para encontrar os aviões-tanque, e com visibilidade variável, isso nem sempre era fácil.

Algumas das manobras de reabastecimento foram nas piores condições possíveis, no meio de tempestades. Segundo um dos pilotos esse tipo de manobra equivale a tentar enfiar um macarrão mole no fiofó de um gato.

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Durante uma das manobras um dos Victors da última dupla danificou a cesta de reabastecimento. Acabou trocando de lugar com o outro Victor. Para piorar o consumo de combustível estava bem acima do normal. Quando chegou a hora de dar leitinho pras crianças, o Vulcan só recebeu uma fração do que esperava. Deveria ficar de tanque cheio mas o Victor só deu um cheirinho.

E isso depois do comandante do Victor ter feito uma votação entre os tripulantes: abastecer o Vulcan mesmo sabendo que não teriam como chegar até a base, ou abortar a missão?

Foram unânimes e deram o máximo que puderam.

Segundo os mapas estariam quase chegando nas Falklands, então o Vulcan desceu para 100 m de altitude, evadindo os radares argentinos. Só que nada das ilhas. Apelando o piloto subiu para 500 pés, e a borda da ilha apareceu no radar, a pouco mais de 1 km. O Vulcan se dirigiu ao alvo ao mesmo tempo em que os radares argentinos os detectavam.

Subindo para 10 mil pés, acionaram o computador de tiro, o de manivelas. Lembre-se, isso foi antes das bombas inteligentes, foi um ataque digno da 2ª Guerra Mundial, onde esse tipo de missão dependia de frotas de centenas de bombardeiros.

O Vulcan, com a assinatura de radar de uma cidade pequena era um alvo fácil para os mísseis TigerCat, que a Inglaterra havia vendido anos antes para os argentinos. A lentidão na reação dos hermanos foi sua ruína.

Acionando os sistemas de contramedidas eletrônicas, inutilizando os radares inimigos, em seguida o Vulcan abriu as portas do compartimento de bombas e começou a soltar 21 bombas de 1.000 libras, uma a cada meio segundo. Quando a última caiu, sob fogo cerrado de toda arma antiaérea instalada em Port Stanley, o comandante acionou os manetes em FULL MILITARY POWER, subindo o máximo que pode, nivelando e atingindo Mach 0,96.

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Quando achavam que estavam fora do alcance dos mísseis argentinos, a tripulação do Vulcan foi surpreendida com uma bateria de radares de tiro travados no avião. Era a Força-Tarefa britânica, que sem saber se eram amigos ou inimigos, se preparava para reagir se necessário.

O Vulcan rapidamente se identificou, o pessoal rezando pra alguém nos navios saber da missão, do contrário poderiam encontrar algum comandante desconfiado e rápido no gatilho. Felizmente (nem sempre acontece) a Força-Tarefa estava ciente. O Vulcan transmitiu então a palavra-chave “Superfuse”, signficando missão bem-sucedida.

No Victor, voando só no vapor a mensagem foi interceptada e a tripulação soube que acontecesse o que acontecesse, sua missão não foi em vão. No Vulcan, também só no cheiro, todo mundo já estava bem preocupado, até que no melhor estilo Hollywood, um avião-tanque apareceu no último momento, com o precioso combustível. O Victor também foi reabastecido a tempo.

Pela primeira vez podendo respirar o navegador do Victor pegou seu gravador K7, ligou no sistema de comunicação do avião e tocou o tema de Carruagens de Fogo, a pleno volume. O maior bombardeio de longa distância da História, só superado em 1991 com o uso de B52 pelos EUA, havia sido um sucesso completo.

Enquanto isso nas Falklands uma das bombas atingiu em cheio a pista. As outras caíram em volta, danificando a torre, destruindo aeronaves e matando pelo menos dois militares argentinos.

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Os danos foram consertados em 24 h, mas depois disso a pista não foi mais usada pelos Mirage III argentinos, somente por Hercules e Pucarás, aquela bosta. O golpe foi psicológico, o que costuma ser fatal. Antes confiantes na segurança da distância, agora os argentinos sabiam que estavam ao alcance dos ingleses e seus bombardeiros originalmente projetados para levar armas nucleares.

Transformar Buenos Aires em um deserto de concreto derretido, esperar esfriar e mandar o SAS para pintar as faixas e fazer um estacionamento era agora algo que não aconteceria por puro desejo da Inglaterra, não mais por impossibilidades logísticas.

Thatcher poderia bombardear a Casa Rosada, enquanto Buenos Aires não tinha capacidade de fazer nada além de xingar Londres no Twitter. Com uma missão a Inglaterra demonstrou que a derrota da Argentina era apenas uma questão de tempo. E foi. O primeiro ataque ocorreu 1º de maio de 1982. Em 14 de junho uma Argentina derrotada e humilhada entregava os pontos, depois de perder 649 soldados, contra 258 ingleses.

Hoje o máximo que os hermanos conseguem é emboscar comediantes ingleses de meia-idade.

No total a Operação Black Buck executou sete missões. Durante a 6ª, em 3 de junho de 1982 o Vulcan, armado com mísseis anti-radar sobrevoou Port Stanley por 40 minutos, esperando os argentinos reagirem. Quando finalmente acionaram o radar de uma bateria antiaérea, o Vulcan lançou dois mísseis, que destruíram o radar e 4 operadores. Sem combustível, tentaram voltar para a base mas a sonda de reabastecimento quebrou.

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#vejamente

O Vulcan acabou declarando emergência e desviou para o Rio de Janeiro. Dos 4 mísseis que ele levava dois foram presenteados aos argentinos. Um eles ejetaram no mar, mas o último não se desprendeu. Livros de código foram jogados ao mar, bem como equipamento ultra secreto. Escoltado por dois F5 da Força Aérea Brasileira, que chegaram a romper a barreira do som sobre o Centro do Rio, o Vulcan pousou na Base Aérea do Galeão com 2.000 libras de combustível sobrando, se o piloto errasse o pouso não teria combustível para fazer a volta e tentar de novo.

O governo brasileiro fez seu teatrinho, o Vulcan ficou retido, os argentinos queriam que ele fosse confiscado, blá blá blá. Para irritação de Buenos Aires os tripulantes foram colocados em um hotel em Copacabana, super bem-tratados, tomando caipirinha e curtindo praia até o dia 11, quando os governos chegaram a um acordo: o avião e a tripulação seriam liberados, em troca o Brasil ficaria com o míssil AGM-45 Shrike remanescente, assim poderia dizer pra Argentina “veja”, nós desarmamos eles.

O Vulcan em questão ganhou uma marcação especial, listando seus dois ataques e a estadia no Brasil.

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33 anos atrás os militares da Argentina se dedicavam a torturar jornalistas e estudantes comunistas (perdoe o pleonasmo), e em sua arrogância achavam que isso lhes dava um senso de superioridade e invulnerabilidade, mas isso não é ser militar, é ser bandido. Isso não é combate.

O Generalíssimo Leopoldo Galtieri e seus amigos descobriram da pior maneira que lidar com Rebeldes de forma alguma qualifica alguém para enfrentar o Império.

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