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A beleza no caos de The Last of Us Part II — Review

Com os melhores gráficos do PS4, uma jogabilidade evoluída e um enredo maduro, The Last of Us Part II mostra-se uma continuação não só digna, mas necessária

12/06/2020 às 4:01

A espera finalmente chegou ao fim! Sete anos depois de lançar um jogo que conquistou uma legião de admiradores no PlayStation 3, a Naughty Dog está de volta para fazer aquilo que para muitos parecia impossível: ter um bom argumento para dar continuidade à aquele universo e até mesmo melhorar algo que já era excelente. Pois com o The Last of Us Part II o estúdio não só conseguiu isso, como nos entregou um dos jogos mais espetaculares de todos os tempos.

The Last of Us Part II

Estrada para Perdição

Cinco anos depois dos eventos mostrados no jogo anterior, Joel e Ellie estão vivendo em um assentamento em Jackson County, Wyoming. Para eles, aquele era o melhor mundo que poderia existir após a pandemia, com a dupla tendo casa, comida e uma certa segurança, precisando se preocupar apenas em fazer rondas diárias para manter a cidade longe de problemas.

Mantendo a sua imunidade ao fungo Ophiocordyceps unilateralis escondida de todos, foi lá que Ellie conheceu Dina, uma garota que se tornou sua amiga e cuja proximidade logo evoluiu para um interesse amoroso mútuo. A vida era boa, talvez até melhor do que eles um dia poderiam  ter esperado, mas um acontecimento faz com que toda aquela tranquilidade desapareça num piscar de olhos.

Diante da trágica situação, Ellie percebe que não lhe resta outra opção que não seja partir em busca daqueles que lhe causaram tanto mal e é aí que a história de The Last of Us Part II ganha corpo. Durante toda a campanha somos questionados sobre o que faríamos para nos vingar, até onde iríamos para poder ter a sensação de que a justiça enfim foi feita e quem estaríamos dispostos a machucar para alcançar esse objetivo.

Assim como no seu antecessor, aqui as questões morais também serão frequentes, mas enquanto a história anterior girava principalmente em torno do amadurecimento da Ellie, desta vez acompanhamos o crescimento do ódio na personagem e porque não, em nós mesmos. Completamente cega pela violência que presenciou, durante boa parte do tempo seremos cúmplices das ações atrozes deflagradas pela menina, até nos darmos conta de que, espacialmente no cenário em que elas se encontram, nem sempre as pessoas podem ser simplesmente classificadas como boas os más.

É preciso lembrar que The Last of Us Part II se passa num mundo pós-apocalíptico, onde o sistema de moralidade imposto pela sociedade ruiu há muito tempo e tendo isso em mente, eu refaço a pergunta: nesta situação, o que você estaria disposto a fazer para se vingar? Mas apesar de a vingança funcionar como fio condutor do enredo, aos poucos começamos a perceber que esta também é uma história sobre amor, redenção, traumas e empatia. Uma história sobre sabermos o momento certo de deixar o passado para trás e focar no presente. Uma história sobre protegermos quem amamos, mas será que ao custo de termos que prejudicar a vida dos outros para isso?

Por toda esta carga dramática, que por sinal considero difícil de descrever sem entrar em detalhes sobre a história, não pense no The Last of Us Part II como uma mera forma de entretenimento, onde a sua caminhada será prazerosa ou onde apenas aniquilaremos alguns seres que antes foram humanos. Durante vários momentos eu me vi obrigado a fazer uma pausa na progressão, simplesmente porque o jogo estava me afetando de maneira perigosa e me deixando muito angustiado. Contudo, por mais que isso possa parecer algo ruim — e de fato é — acredito que esta era justamente a intenção dos criadores.

Onde os Fracos Não Têm Vez

Eu adoro o The Last of Us, mas se tem algo que sempre me incomodou nele, era a sua jogabilidade. Para mim, era estranho a maneira como aquele jogo nos apresentava aos desafios, sendo que no geral ele se resumia a seguirmos por uma série de corredores até chegarmos a uma sala onde teríamos que enfrentar alguns inimigos, com a fórmula então sendo repetida à exaustão.

Por isso eu tinha uma certa preocupação em relação a esta continuação, mas posso dizer com satisfação que o problema foi resolvido. Embora a maior parte da campanha aconteça de forma linear, eu não tive a mesma sensação de uma mecânica viciada, com os confrontos estando disponíveis de forma muito mais natural.

Boa parte disso se deve ao brilhante level design implementado pela Naughty Dog no The Last of Us Part II, já que ele nos permite seguir diferentes rotas pelos cenários e até mesmo encarar os problemas de maneiras variadas. É muito interessante perceber que um trecho que parecia impossível de ser passado sorrateiramente pode ser vencido com mais tranquilidade se simplesmente batermos em retirada ou usarmos uma abordagem mais direta.

Vale citar ainda a presença de uma boa quantidade de novas ameaças, que vão desde humanos acompanhados de cachorros que conseguem farejar por onde passamos, até infectados mais assustadores que os anteriores. Entre eles temos os Shamblers, que são capazes de arremessar “bombas” de gás tóxicos ou explodir após serem abatidos, sendo uma inteligente saída do estúdio para obrigar o jogador a continuar se movendo.

No entanto, mesmo os velhos conhecidos trazem algumas surpresas guardadas na manga, como por exemplo os Stalkers. Podendo se mover quase sem fazer barulho, este tipo de infectado já era perigoso antes por serem praticamente “invisíveis”, mas agora além deles se reunirem em grupos, tentarão se manter afastados, para então só nos atacar quando houver uma melhor oportunidade.

The Last of Us Part II ainda traz algumas novidades interessantes para a jogabilidade, como a possibilidade de nos esquivarmos dos ataques a curta distância, de deitarmos ou de nos escondermos no mato mais alto. Isso nos permite traçar estratégias que antes não eram possíveis, além de deixar a experiência muito mais dinâmica e realista. Tudo bem que muitas vezes os inimigos não conseguem nos ver mesmo estando a menos de um metro, mas se você quiser mais desafio, basta configurar isso no menu de opções.

Por falar nisso, é impressionante o trabalho que a desenvolvedora fez na tentativa de deixar o jogo o mais acessível possível. Da possibilidade de remapearmos os botões, até configurações para jogadores cegos ou com a visão comprometida, eu nunca vi um título com tantas opções neste sentido e espero muito que outros estúdios implementem algo parecido nas suas futuras criações.

Outro ponto que chamou a minha atenção foi a maneira como o estúdio implementou alguns tutoriais. Ao invés de simplesmente colocar mensagens na tela e deixar que o jogador se vire, eles conseguiram fazer com que essas “aulas” se encaixassem na história, quase sempre através de flashbacks que ainda ajudam a incrementar o enredo e criar um vínculo maior entre os personagens envolvidos. Por exemplo, para nos ensinar como usar uma arma de longa distância, que por sinal seus projéteis são afetados pela gravidade, somos levados a alguns anos no passado, com a Ellie tendo o contato com o equipamento pela primeira vez e com tais ensinamentos acontecendo em ambientes controlados.

Beleza Americana

Mas ao falar do The Last of Us Part II, é impossível não rasgar todos os elogios ao trabalho feito pela Naughty Dog na parte técnica — mesmo em um PlayStation 4 Slim. Visualmente o título chama muito a atenção, com os personagens contando com algumas das animações faciais mais bonitas já implementadas num jogo virtual e com os seus movimentos e roupas agindo de forma muito realista.

Os monstros também possuem um nível de detalhes bem elevado, mas quando se trata de gráficos, o destaque vai mesmo para os cenários. Com cada cantinho das locações tendo recebido uma quantidade absurda de atenção, é impossível não nos sentirmos em um mundo que foi devastado por um fungo mortal. Das plantas que tomaram boa parte dos lugares até os ninhos de infectados que estão repletos de fungos, não acho exagero afirmar que os artistas da desenvolvedora conseguiram criar um dos universos mais fantásticos já vistos num videogame.

Para quem mora em Seattle, deve ser muito assustador percorrer as ruas e construções da cidade no estado em que elas se encontram no jogo, ainda mais por ela estar passando por um dos maiores temporais da sua história, uma chuva de proporções bíblicas. Por outro lado, chegar a alguns oásis de tranquilidade no meio daquele caos dever ser ainda mais impactante, ainda mais com isso podendo ser uma maneira de matar a saudade destes pontos turísticos, afinal estamos passando por tempos de isolamento aqui mesmo, no mundo real.

E assim como aconteceu com o jogo anterior, eu continuo fascinado pela maneira como este estúdio consegue tirar beleza da destruição. Oras, nós não deveríamos achar bonito um mundo que foi bastante afetado por uma tragédia deste porte, mas como não parar diante de cenários tão impressionantes e simplesmente não querer ficar os admirando? Como não nos encantar com as ruínas de uma metrópole e com a maneira como a natureza recuperou seu lugar?

Outro ponto alto da parte técnica está na dublagem dos personagens e na trilha sonora. Novamente Gustavo Santaolalla fez um ótimo trabalho ao criar músicas que dão o tom certo para os trechos que estivermos encarando e é muito bacana ver a Ellie tocando algumas faixas de bandas reais e bastante populares. Eu não entrarei em detalhes sobre isso para não estragar a surpresa, mas espere até chegar a Seattle e encontrar um violão jogado numa loja.

A Chegada

Quando a Naughty Dog anunciou que estava trabalhando numa continuação para o The Last of Us, num primeiro momento muitas pessoas não gostaram da ideia. A desconfiança era de que um novo capítulo poderia estragar a fantástica experiência proporcionada pelo antecessor e que o ótimo final criado para ele poderia perder impacto.

Após jogar o The Last of Us Part II, posso dizer que o jogo e a sua história não só são válidos, como necessários. A motivação encontrada pelos roteiristas para tirar Ellie da sua zona de conforto é bastante plausível e a maneira como eles conseguiram lidar com os conflitos entre amor e ódio, ou como mostram a forma como nos acostumamos a demonizar quem não faz parte dos nossos grupos, foram temas muito bem explorados pela história.

Mas se para alguns o título para o PlayStation 3 pode ser considerado entre os melhores lançamentos da sétima geração de consoles, eu não tenho medo de apontar o seu sucessor como um dos mais fantásticos e marcantes jogos que tive o prazer de experimentar. Conseguindo melhorar o anterior em todos os aspectos, The Last of Us Part II mostrou-se muito mais do que ótimo jogo, mas uma das experiências mais surpreendentes, viscerais e impactantes que já tive com qualquer mídia. Uma experiência que certamente ficará marcada na minha  memória por muitos e muitos anos.

Nota: se puder e lembrar, volte a este texto depois que jogar o The Last of Us Part II, pois há algumas informações nas entrelinhas que ficarão mais claras após conhecer sua história.

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