Ronaldo Gogoni 9 semanas atrás
Star Wars: Maul – Lorde das Sombras é a nova série animada da Lucasfilm ambientada na galáxia muito, muito distante, destinada a cobrir a última lacuna temporal na trajetória de um dos mais icônicos Lordes de Sith da franquia criada por George Lucas.
Embora Darth Maul tenha sido muito mal aproveitado no cinema, o personagem era bom demais para ser esquecido e, graças à TV e depois ao streaming, ele foi mantido vivo, relevante e ameaçador, mesmo sendo metade do zabrak que já foi.
Vamos dar uma olhada no que a nova série reserva aos fãs, em uma resenha sem muitos spoilers dos dois primeiros episódios.
Ambientada anos após os eventos da última temporada de Clone Wars e de Episódio III – A Vingança dos Sith, Star Wars: Maul – Lorde das Sombras mostra Maul movendo as peças de um grande tabuleiro para conseguir dois objetivos: primeiro, restabelecer seu sindicato do crime, o Coletivo das Sombras, esmagado pela então República com uma mãozinha do agora imperador Palpatine, seu antigo mestre, livrando-se de todos aqueles que lhe deram as costas ou o traíram, e reassumir o controle do mercado negro da galáxia.
O segundo objetivo e o mais insano, mas que casa perfeitamente com a psique de Maul, é se vingar do Império e fazer de tudo para aniquilá-lo, mas o antigo lorde de Sith sabe que esta não é uma tarefa para apenas um: ele precisa de um aprendiz, e volta seus olhos para uma Jedi em fuga, a twi'lek Devon Izara (Gideon Adlon), que nutre ressentimentos enormes contra o status quo, mesmo se negando a admitir.
Lorde das Sombras se passa inteiramente em um planeta até então inédito, Janix, situado fora dos mundos centrais (mais próximos a Coruscant), mas não distante a ponto de ficar na Orla Exterior, o que o torna um ambiente ideal para a proliferação de sindicatos fragmentados e criminosos em um mundo escuro e com ambientação cyberpunk, uma mistura de Gotham City (que os produtores admitiram ser uma das inspirações) com a Los Angeles de Blade Runner.
A série foca bastante no desenvolvimento da personalidade de Izara e seu relacionamento com Maul, que deseja moldá-la em uma arma a ser usada contra seus inimigos, enquanto ela reluta para não abraçar o lado sombrio, embora lá no fundo admita que o modo dos Jedi só lhe rendeu uma vida de privações, fome e medo.
Em sua jornada, Maul é ajudado por figuras conhecidas, como aliados zabrak de Dathomir e o droide Spybot (dublado pelo engenheiro de som da Lucasfilm David W. Collins), e até mesmo a mandaloriana Rook Kast (Vanessa Marshall de volta; ela também foi a voz de Hera Syndulla em Rebels), que foi seu braço direito no passado (e que muitos juram ser ela a Armeira de The Mandalorian), voltou para mais uma vez servir a seu antigo mestre, com seu destacamento de soldados à disposição do Sith.

A twi'lek Jedi Devon Izara é a nova candidata a aprendiz Sith (Crédito: Reprodução/Lucasfilm/Disney)
Do outro lado, Janix abriga uma força policial que está tentando colocar os criminosos na linha, pega no fogo cruzado da guerra entre os sindicatos e Maul, por pura teimosia do detetive Brandon Lawson, no primeiro trabalho de Wagner Moura para a Disney. O planeta pode se parecer com Gotham, mas ele não é nem de longe um comissário Gordon; embora seja movido por um forte senso de justiça, o oficial não admite que talvez tenha mordido mais do que pode engolir.
Lawson se recusa a seguir o protocolo, que é alertar o Império de que Maul foi identificado e está em Janix, pois isso significaria um lockdown do planeta e o deslocamento de forças de contenção pesadas pelo imperador, incluindo hordas de stormtroopers (os bons e velhos buchas que não acertam nada a um palmo de distância) e os perigosos Inquisidores.
Dois deles já estão confirmados na série: o Décimo Primeiro Irmão ou "o Corvo", que surgiu em Contos dos Jedi e Contos do Império, e o Primeiro Irmão ou Marrok, que apareceu na primeira temporada de Ahsoka.

Brandon Lawson, dublado por Wagner Moura, é o típico oficial de polícia teimoso (Crédito: Reprodução/ Lucasfilm/Disney)
Lawson tem como aliado o hilário droide policial 2B0T ou "Two-Boots", por ser o único que usa botas, dublado pelo irrepreensível Richard Ayoade, o Moss de The It Crowd, sendo o óbvio alívio cômico da série enquanto desempenha com competência suas funções como oficial da Lei.
Darth Maul é um personagem visualmente maneiro, que muitos adoraram desde a primeira vez que puseram os olhos nele; afinal, ele foi inspirado no Diabo e portava um absurdamente legal sabre de luz duplo. Ainda assim, o zabrak vermelho foi muito mal utilizado na tela grande, relegado a pouquíssimas falas e uma cena rápida de luta em Star Wars: Episódio I – A Ameaça Fantasma, culminando com ele cortado ao meio e, para todos os efeitos, morto. Seu maior mérito na época foi mandar Qui-Gon Jinn (Liam Neeson) para a vala.
Levou anos até George Lucas decidir reabilitar o personagem em Clone Wars, dando início a uma longa jornada que converteu o Sith interpretado no cinema por Ray Park (cujo único outro papel que todos se lembram é o Groxo, dos X-Men de Brian Singer; não mencionamos Rugal e a bomba The King of Fighters), de uma entidade basicamente bidimensional em um indivíduo fraturado, movido por um desejo de vingança e uma fome insaciável de poder.

Rook Kast, a mandaloriana que foi braço direito de Maul em Clone Wars também está de volta (Crédito: Reprodução/Lucasfilm/Disney)
Grande parte do mérito cabe à magnífica dublagem provida todos esses anos por Sam Witwer, que para todos os fins e efeitos legais, é o verdadeiro Darth Maul. Foi ele quem adicionou profundidade e personalidade a um inimigo que até então era apenas uma colagem de elementos legais para ter em um pôster. Sua jornada para construir um sindicato galático do crime terá ramificações que já foram reveladas na bomba Han Solo: Uma História Star Wars e em outras mídias, como HQs.
Claro, ainda deve levar um bom tempo até chegarmos ao momento em que Maul ficará preso em Malachor, como visto em Rebels.
De resto, a produção de Maul – Lorde das Sombras segue o padrão das animações mais recentes dentro do estilo de Clone Wars, mas com os bolsos fundos da Disney por trás. A série é nitidamente melhor trabalhada em detalhes e encaixa uma série de easter eggs aqui e ali para os mais atentos encontrarem.
Sendo esta a primeira produção da gestão da Lucasfilm sob o comando de Dave Filoni e Lynwen Brennan, o resultado final é bem satisfatório, embora a narrativa crie algumas "barrigas" no início.

Two-Boots pode ser um inevitável alívio cômico, mas ainda é um droide policial competente (Crédito: Reprodução/Lucasfilm/Disney)
Muita gente reclamou que Star Wars: Maul – Lorde das Sombras era uma produção desnecessária, mais uma a abordar o período entre o Episódio III e Uma Nova Esperança, um balaio que já conta com Rebels e os mais recentes Andor, Obi-Wan Kenobi e The Bad Batch, mas Darth Maul merece ter um momento para si na mídia que lhe deu uma segunda vida e uma chance de contar mais de sua história.
Claro, continua sendo extremamente satisfatório ver o zabrak infernal mais uma vez demonstrando sua extrema habilidade de combate com seu sabre de luz duplo, chamado curiosamente de "espada laser" por Brandon Lawson, uma referência sutil a como Anakin Skywalker se referiu às armas de tempos elegantes quando as viu pela primeira vez.
Com uma temporada de 10 episódios planejados e uma história que canonicamente se estende por vários anos, até o fatídico confronto final com Obi-Wan Kenobi em Tatooine mostrado em Rebels, Star Wars: Maul – Lorde das Sombras tem potencial para muitas aventuras, acompanhando um dos mais estilosos vilões do universo de Star Wars em sua trajetória de eliminar seus inimigos, enquanto estabelece seu império criminoso das sombras.
4/5 Moss.
Star Wars: Maul – Lorde das Sombras está disponível no Disney+.