Ronaldo Gogoni 1 ano e meio atrás
A Disney finalmente se lembrou de uma coisa a respeito de Star Wars: George Lucas concebeu Uma Nova Esperança como uma produção infanto-juvenil, para entreter principalmente crianças e jovens, e em Skeleton Crew, decidiram focar nesse aspecto mais ingênuo, em uma obra que reverencia Steven Spielberg de forma descarada. O que é excelente.
Após uma história que queimou um elenco de primeira para ir do nada a lugar nenhum (para dizer o mínimo), a nova série segue a abordagem de Andor e sai totalmente do foco principal Jedi/Sith/caçadores de recompensas, ao mirar nas desventuras de um bando de moleques que se meteram em uma grande encrenca.
Assim como Andor, Skeleton Crew (o nome da série é uma expressão em inglês, que significa a equipe mínima necessária para uma atividade ou operação) se passa na Orla Exterior, mas no período entre O Retorno de Jedi e O Despertar da Força, mais ou menos simultânea aos eventos de The Mandalorian, O Livro de Boba Fett, e Ahsoka.
Enquanto a Nova República mantém razoavelmente a ordem nos setores próximos, a periferia da galáxia mergulhou no caos; sem o Império para tocar o terror, tripulações piratas navegam impunemente, atacando qualquer nave que signifique lucro fácil, pois a Lei não vai tão longe.
Todo mundo sabe no que isso vai dar lá na frente, mas divago.

Wim, Fern, KB, e Neel encontram o droide SM-33 (Crédito: Reprodução/Lucasfilm/Golem Creations/Disney)
Ao mesmo tempo, somos apresentados a um planeta que mais parece uma utopia, chamado At Attin, onde vivem Wim, um garoto que mora com seu pai, que só pensa em trabalho, e seu amigo alien Neel, que têm a básica rotina casa/escola. Wim vive sonhando com aventuras e não é muito ligado aos estudos, até o dia em que literalmente tropeça em um achado enterrado na floresta, que ele pensa ser um templo Jedi.
Wim acaba arrastando Neel para ajudá-lo a entrar no "templo", quando são surpreendidos por duas garotas, Fern e KB, e após uma discussão, os quatro acabam entrando na instalação, que obviamente os tranca lá dentro, após Neel se assustar e fazer com o que um droide inativo puxe uma alavanca.
Fern, que faz o tipo de garota mais esperta que os outros, e banca a chefe, implora para Wim, obviamente o mais empolgado por estar ali, não apertar absolutamente nada, mas como crianças são curiosas, ele vê um botão verde piscante, e...
O "templo", obviamente uma nave espacial, é totalmente ativada, entra em órbita e salta para o hiperespaço sem coordenada alguma, e os moleques não fazem ideia de como voltar para casa. Ah, o droide, chamado SM-33 (em uma fantástica participação de Nick Frost), também reativado, confunde as crianças com clandestinos, até Fern o convencer de que ela agora é a capitã.
É 33 quem sugere aos garotos que eles sigam até um porto estelar (pirata, lógico), onde eles não só descobrem que seu planeta é considerado perdido desde a época da Velha República (basicamente ele se isolou), como ligado a um mito de um "tesouro eterno", que todos os malfeitores da Orla Exterior querem pôr a mão.
Wim, Fern e cia. são jogados na prisão do porto até entregarem a localização de At Attin (que eles não sabem, claro), e são surpreendidos pelo misterioso Jod Na Nawood (Jude Law), um usuário da Força que pode não ser o que parece.

Jod Na Nawood (Jude Law) muito provavelmente não é um Jedi, ao contrário do que Wim acredita (Crédito: Divulgação/Lucasfilm/Golem Creations/Disney)
Skeleton Crew é um projeto do produtor Jon Watts (trilogia do Homem-Aranha do MCU) e seu frequente colaborador, o roteirista Christopher Ford, com Dave Filoni e Jon Favreau atuando na produção executiva. Esta dupla foi a grande responsável por expandir o universo de Star Wars, não apenas com as séries em live action recentes, mas também com as animações Clone Wars e Rebels, sendo esta a que resgatou o grão-almirante Thrawn, um dos melhores vilões do antigo Universo Expandido, hoje o selo Legends, para o cânon da franquia.
O problema, nem todas as produções recentes da Lucasfilm foram absolutamente bem sucedidas. A trilogia nova de filmes, por exemplo, foi duramente criticada por não ter um norte definido, o que acabou com A Ascensão Skywalker desmentindo Os Últimos Jedi, sobre quem bancava a Primeira Ordem. Nem todas as séries satisfizeram todo mundo, e nem vamos falar de The Acolyte.
De certa forma, a Disney repetiu com a Lucasfilm o mesmo erro cometido com a Marvel: atirar para todo lado e apressar as histórias, jogando tudo na parede para ver o que cola, só cria ranço no público, que periga enjoar do gênero. Enquanto o MCU pisou no freio, Kathleen Kennedy manteve o cronograma de diversas produções, mas a maioria não tinha data, ou as jogou lá para a frente, como o filme The Mandalorian & Grogu, que só estreia em 2026.
Anunciada em 2022, Skeleton Crew tinha uma premissa diferente, que acabou sendo acertada para o atual momento da Lucasfilm: assim como a bastante elogiada primeira temporada de Andor, Watts e Ford decidiram tirar os holofotes do trio Jedi/Sith/caçadores de recompensas, para focar na escória da periferia da galáxia, os piratas espaciais, se valendo do modelo que Steven Spielberg usou em clássicos dos anos 1980, como E.T.: O Extraterrestre, e Os Goonies: crianças se metendo em confusão.
Curiosamente, essa abordagem para Skeleton Crew deixou a série muito parecida com Star Trek: Prodigy, o que nem de longe é demérito. Há também uma boa pitada de outro filme da Disney, o excelente até hoje O Voo do Navegador, dirigido por Randal Kleiser (Grease: Nos Tempos da Brilhantina, A Lagoa Azul).
As personalidades dos garotos também seguem as tropes da época, com a metida a líder (Fern), a nerd (KB), o covarde de bom coração (Neel), e o que só se mete em encrenca (Wim). Há até mesmo a figura improvável, que auxilia os garotos em sua jornada, apenas saem o E.T. e Sloth, e entram Jod Na Nawood e SM-33.
O resultado geral é excelente, Skeleton Crew se apresenta como uma aventura protagonizada por crianças, mas que não é direcionada apenas a elas e jovens. O espírito da série é muito similar o de produções de Spielberg, que apelam para todas as idades, histórias sem tramas muito complicadas e embates filosóficos, apenas um bando de garotos perdidos que querem voltar para casa, e vão se meter em altas confusões para isso.
Com uma temporada de oito episódios, Star Wars: Skeleton Crew é uma das novas atrações do Disney+ para o Natal, com a terceira e última temporada de What If...?. A produção da Lucasfilm promete tirar o gosto ruim da boca deixado por The Acolyte, uma série medíocre que cometeu a heresia de desperdiçar Carrie Anne-Moss como uma Jedi mothafucka, algo que todo mundo queria ver há décadas.
Ao apostar na essência de Star Wars como uma obra para os jovens, e embalado no estilo Spielberg de produções familiares, a série entrega o que propõe, uma aventura descompromissada como os clássicos com os quais crescemos.
Cabe aos produtores acertarem a mão para focar no que faz Skeleton Crew interessante, e não cedam ao impulso incontrolável de participações especiais de outros personagens, que não adicionariam muito a esta trama em particular. Na minha opinião, as histórias de Jod Na Nawood, SM-33, e da nave em si, além de por que o planeta dos garotos ser isolado do resto da galáxia, já rendem material suficiente.
5/5 Sloths.
A série está disponível no Disney+.