Ronaldo Gogoni 09/04/2026 às 16:20
007 First Light chega em maio de 2026 aos consoles (não todos) e PC, contando a origem do agente secreto a serviço de Sua Majestade, que ainda não tem Licença Para Matar. James Bond tem uma longa lista de adaptações para videogames, mas entre 007 Legends e o novo game, se passaram longos 14 anos.
Como toda grande e duradoura franquia, 007 também coleciona alguns causos na indústria de games, um deles, o de quase ter impedido a criação da franquia Call of Duty; paralelamente, os detentores dos direitos sobre a marca vêm se estranhando com os donos da franquia paródia James Pond, estrelada por um peixe metido a espião, que desejam retomar a marca e lançar novos games.

Acredite, tem a ver (Crédito: Divulgação/Infinity Ward/Activision/Microsoft/IO Interactive/GameWare/ System 3/Danjaq, LLC/Amazon MGM Studios/Amazon)
A franquia 007 passou por poucas e boas nos últimos anos, quando a Amazon comprou a MGM e adquiriu parte do controle sobre a série em cinema, TV e outras produções. A companhia imediatamente entrou em conflito com a Eon Productions, a produtora fundada por Albert R. "Cubby" Broccoli responsável por (quase) todos os filmes até então, hoje controlada por seus filhos, Barbara Broccoli e Michael G. Wilson, sobre os rumos da marca.
Resumindo a conversa, Barbara não admitia os pitacos da Amazon, que queriam mexer no cerne de James Bond, disse que não confiava "em uma empresa gerida por um algoritmo" e chamou todos os seus executivos de "idiotas do caralho", nesses exatos termos.
O problema: um dos "idiotas" nomeados era o cofundador da Amazon, Jeff Bezos, que ficou FURIOSO com a declaração, a ponto de ordenar aos executivos da gigante que removessem os Broccolis de tudo relativo a 007, "não importando" o quanto custasse. No fim, Bezos gastou cerca de US$ 1 bilhão (~R$ 5,1 bilhões, cotação de 09/04/2026) adicional aos US$ 8,5 bilhões pagos pela MGM em 2022, e conseguiu forçar os irmãos para fora, mesmo estes tendo prometido ao pai "nunca deixarem ninguém ferrar" com o agente.
O que Cubby Broccoli não contava é que, pela quantia certa, seus filhos concordariam que a Amazon pode zoar com James Bond o quanto quiser, mas divago.

Como um autêntico vilão de James Bond, Jeff Bezos provou que todo mundo tem seu preço (Crédito: Scott Anderson/The Hollywood Reporter)
Todo esse preâmbulo foi necessário para contextualizar a quem pertencem os direitos da franquia 007: embora a Amazon detenha poder total sobre produções para cinema e TV, a Eon Productions ainda possui o controle sobre os romances de escritos por Ian Fleming, e exerce domínio sobre os personagens e elementos das tramas, por meio de uma subsidiária chamada Danjaq, LLC (guarde esse nome).
Games também entram no pacote e, durante o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2000, a Eon estava empenhada em reproduzir o sucesso de GoldenEye 007 do Nintendo 64, ainda hoje considerado um dos melhores FPS de todos os tempos, e que também rendeu suas histórias. Entre adaptações de filmes como Tomorrow Never Dies e The World Is Not Enough, houve a aventura original James Bond 007: Nightfire (2022), distribuída pela Electronic Arts e desenvolvida por mais de um estúdio, dependendo da plataforma; o causo envolve a versão para Windows.
Em uma entrevista recente, Michael Condrey, cofundador da Sledgehammer Games, contou uma situação de quando trabalhava com games baseados em James Bons na EA, quando surgiu a oportunidade de "vender" o desenvolvimento da versão para PC de Nighfire a um estúdio que ficaria responsável pela empreitada. Dois nomes que surgiram como prováveis foram Vince Zampella (falecido recentemente) e Jason West, na época desenvolvedores da 2015, Inc., responsável pelo aclamado Medal of Honor: Allied Assault.
"Eventualmente, começamos a trabalhar em Nightfire. Estávamos procurando por uma desenvolvedora para a versão de PC. Devia ser 2001, 2002. Estávamos vendendo o game para desenvolvedores que podiam assumir o port de nosso game — na época estávamos focados em consoles — e lançar uma versão. Falamos com vários estúdios interessados; um deles era o de Vince e Jason (...).
Eles nos apresentaram a 2015. Estavam procurando pelo próximo trabalho, precisavam de financiamento. Eles se alinharam para Nightfire. Eu ainda tenho o cartão do Vince, que Deus o tenha."
Segundo Condrey, por muito pouco a 2015 não ficou com a missão de desenvolver o game, que acabou cabendo à Gearbox e resultou em um dos piores ports para PC da época; pouco tempo depois, a EA cresceu os olhos no sucesso de Medal of Honor: Allied Assault, assumiu o controle da franquia e rompeu o contrato com o estúdio, o que levou a alguns desenvolvedores, incluindo Zampella e West, a aceitarem uma proposta da Activision para a criação de um novo estúdio e game.
O estúdio viria a ser conhecido como Infinity Ward, e o game, o primeiro Call of Duty.
Condrey acredita que, caso a 2015 tivesse sido a escolhida para desenvolver a versão para PC de James Bond 007: Nightfire, independentemente do resultado, Zampella e West não teriam tido a chance de fechar o acordo que criou uma das mais bem-sucedidas franquias de games de todos os tempos.
Nos últimos anos, a quantidade de games baseados em James Bond rareou um bocado, em que First Light promete entregar uma nova abordagem do personagem ao mostrá-lo em seus primórdios, inexperiente e menos classudo, bem longe do agente que viria a se tornar. Logo, é compreensível que a Eon, por meio da Danjaq, tenha se tornado um pouco "superprotetiva" quanto ao uso da marca 007 por outros que não detenham os direitos do agente, excluindo a Amazon, claro.
Ainda assim, é um tanto curioso que a companhia esteja implicando com games antigos, especificamente a série paródia James Pond, graças a projetos separados de duas companhias, System 3 e Gameware, que envolvem uma coletânea e games novos.
A série estrelada pelo peixe agente secreto teve início com James Pond: Underwater, lançado em 1990 para Amiga e Atari ST e em 1991 para Mega Drive, um ingênuo jogo de plataforma com puzzles com criaturas antropomórficas, como era a regra na época; o personagem receberia duas sequências pouco tempo depois, e apareceria em outros games ao longo dos anos.
Originalmente desenvolvida pelo estúdio Vertordean, os direitos da série James Pond pulariam de mãos várias vezes até pararem com as duas empresas atuais; em 2025, a System 3 decidiu re-registrar a marca no Escritório de Propriedades Intelectuaus do Reino Unido (UKIPO) para uso em novos games e outros produtos, o que levou a Danjaq a se opor ao registro.
Embora nenhum motivo tenha sido dado, o jornalista Tim Lince do World Trademark Review especula que a Danjaq, e a Eon Productions por extensão, tenha entrado no modo "controle de danos" após o entreveiro com a MGM Amazon, e esteja agindo no direito de proteger os interesses dos poucos direitos relativos à marca 007 que ainda controla. A empresa tem histórico de ter se oposto a um registro similar em 2012, que foi rejeitado pelo Escritório de Propriedades Intelectuais da União Europeia (EUIPO).
Por enquanto, o UKIPO não deu um parecer sobre a situação do registro da marca James Pond no Reino Unido, o que poderia impedir a System 3 de retomar a franquia e lançar novos games, ou mesmo redistribuir antigos na forma de coletâneas, em um estranho cenário onde James Bond vem se estranhando com amazonas e agora, também com sereias e outros frutos do mar.
Fonte: IGN, Time Extension